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Todas elas se orgulham da mulher que se tornaram

O objetivo do projeto "Todas Elas", de A Gazeta, também é contar histórias de mulheres que venceram, promover a independência financeira, a ocupação feminina em cargos de liderança e na política e, principalmente, unir forças

Publicado em 24/10/2020 às 06h01
Natalie Kuplich de Araújo, Rayane Souza, Elis Carvalo e Hermínia Azoury: elas conseguiram vencer preconceitos e hoje se orgulham de ser quem são
Natalie Kuplich de Araújo, Rayane Souza, Elis Carvalho e Hermínia Azoury: elas conseguiram vencer preconceitos e hoje se orgulham de ser quem são. Crédito: Chrystian Henrique

Você já se perguntou por que o Espírito Santo foi, nos últimos anos, um dos estados mais violentos para as mulheres? O projeto Todas Elas surgiu em 2019, na redação de A Gazeta, através do anseio das jornalistas em tentar responder essa pergunta e, assim, ser possível transformar uma realidade. Através da informação cada vez mais humanizada e profunda, além da elaboração de várias iniciativas, a ideia é montar uma rede de apoio para vítimas e transformar, aos poucos, uma cultura que ainda inferioriza a mulher.

Mas apesar de ter nascido da necessidade em combater a violência doméstica, o Todas Elas não veio apenas para falar de dores. O objetivo também é contar histórias inspiradoras de mulheres que venceram, promover a independência financeira, a ocupação feminina em cargos de liderança e na política e, principalmente, unir forças.

E em meio a tantas mulheres que inspiram, a Revista.ag embarcou nessa iniciativa para valorizar ainda mais àquelas que além de enfrentarem a batalha diária de ser mulher dentro desse contexto histórico, ainda carregam suas próprias bandeiras em prol de tantas outras. Entre uma foto e outra, histórias diversas de vida, confissões emocionantes e empoderamento. A sessão fotográfica que você confere a seguir é muito mais do que um ensaio de moda e beleza. Mas também a nossa forma de levar representatividade para Todas Elas.

“Ser uma incentivadora do corpo livre me salvou”

A advogada Rayane Souza
A ativista Rayane Souza. Crédito: Chrystian Henrique

"Eu me orgulho muito da mulher que me tornei porque, na minha trajetória de busca pela autoestima, descobri muitas coisas em mim que até então nem poderia imaginar que estavam ali.

Sempre fui uma mulher gorda, que me sentia oprimida e inferior por isso, e essa opressão me impediu de realizar coisas muito simples da vida, como ir á praia, me relacionar... Cheguei a conclusão que eu já tinha odiado meu corpo por muito tempo, e que eu não merecia mais isso. Então busquei ajuda pra encontrar minha essência, me apaixonar por mim e entender que meu valor transcende aos números da balança.

Ser uma incentivadora do corpo livre me salvou.

A sociedade é cruel, o padrão estético adoece e eu ESCOLHI não sucumbir a isso!

Expor meu corpo nas redes socais como forma de protesto é um ato político. Dessa forma, consigo inspirar muitas mulheres a entenderem que a beleza está em todos lugares, de todas as formas. Não tem preço".

"Chegou a hora de vermos o poder das nossas vozes"

A repórter Elis Carvalho
A repórter Elis Carvalho. Crédito: Chrystian Henrique

"Foram necessários muitos episódios ao longo da minha vida até que eu me sentisse, de fato, uma mulher que inspira outras. E poder contar isso durante um ensaio fotográfico da Revista.ag, ao lado de mulheres incríveis, foi lindamente fora da realidade pra mim. E digo “fora da realidade” porque durante muito tempo o perfil permitido para esse lugar não nos coube. Não porque não éramos dignas, simplesmente não éramos incluídas devido um padrão já estabelecido.

E é nesse ponto que minha história como mulher tem início. Quando eu sequer era mulher. Ainda é muito louco quando eu paro pra pensar como foi ser criança negra de cabelos crespos há 20 ou 30 anos. Sem qualquer referência positiva e com o mundo todo dizendo de forma velada (ou não) “ei, você não é bonita”. A gente não se via. Nas bonecas, nos desenhos, na mídia, na moda, na beleza, em nenhum outro lugar bacana. E quando se via, era na sessão das “exóticas”. (Segue um exercício rápido: joga no Google Imagens - “capas de revista, ano”, e você vai me entender).

Desde cedo eu percebi que não estava no padrão. E durante maior parte da minha infância e adolescência eu sonhei em estar. Todos os dias. Queimaduras no couro cabeludo, frustrações, perda de dinheiro, tempo, energia e até oportunidades por não conseguir “controlar” o meu cabelo crespo como me era exigido. Torturante, como devem imaginar. Minha mãe sempre foi incrível na minha educação. Mas como mulher negra e retinta ela também cresceu sob imposições de padrões que não se encaixava.

Então, a virada desse momento na minha vida, que desencadeou em várias outras mudanças importantes, aconteceu de forma autônoma, buscando por conta própria as referências que nunca me ofereceram. Aos 14 anos eu saí de um colégio onde sofria perseguições, comecei a me entender melhor como indivíduo, questionar as situações de injustiça e me posicionar sem medo. Passei a participar de debates e ler sobre mulheres, classe e raça. Foi nesse período que decidi ser jornalista. E essa decisão me fez ouvir de um professor que eu não conseguiria por ter saído de um colégio público. Mas, com muita ajuda, eu consegui. E na primeira aula de TV ouvi de uma professora que para aparecer no vídeo eu teria que alisar os cabelos. De novo esse papo, pois é. Com tanta torcida contra, é difícil se enxergar bonita, né?

Logo após a faculdade, mudei de Niterói para o Espírito Santo. No início não foi fácil. Foi em solos capixabas que senti o racismo explícito e cruel pela primeira vez. Mas ir para um Estado tão diferente também foi libertador. Aqui eu conheci pessoas que muito me ensinaram sobre feminismo e a luta antirracista. E foi aqui, há exatos cinco anos, que me perguntei pela primeira vez: “Como assim meu cabelo natural não combina comigo? Se ele nasceu na minha cabeça é porque tem algum motivo pra isso”. Então, em 2015, fiz a minha transição capilar e passei a usar meus cabelos naturais. Ouvi críticas, claro. Mas também ouvi muita gente falando que queria fazer o mesmo, mas não tinha coragem (sim, coragem pra ter o cabelo natural, o mundo fez isso com a gente). Desde então, como mulher e comunicadora, sinto que tenho o dever de quebrar esse ciclo.

E eu me orgulho de quem me tornei não só por isso, mas também por fazer parte da primeira geração de mulheres da minha família a entrar em uma universidade. Me orgulho por conseguir, através do jornalismo, informar para mudar realidades. Me orgulho em fazer parte do projeto Todas Elas e ver, de fato, a transformação na vida de cada mulher. Fomos obrigadas a nos calarmos por muito tempo. Agora chegou a hora de vermos o poder das nossas vozes. Cada uma com sua bandeira. Queria poder voltar no tempo e conversar com a Elis de 7 anos de idade. Queria dizer que o mundo todo estava cego e que ela era bonita sim. Mas enquanto não inventam uma máquina do tempo, faço questão de dizer isso para toda menina negra que conheço. Comemoro o avanço de cada mulher que um dia foi essa menina também. E assim seguimos, uma inspirando a outra. Uma apoiando a outra. Uma cuidando da outra. Porque juntas somos muito melhores".

"A sensibilidade na humanização da lei me fortaleceu"

A juíza Hermínia Azoury
A juíza Hermínia Azoury. Crédito: Chrystian Henrique

"Eu me orgulho da mulher que me tornei porque a sensibilidade na humanização da lei me fortaleceu para vencer os desafios como professora, Defensora Pública e Magistrada.

Sobretudo como esposa, mãe e avó fui galardoada, pois, assim, posso compreender a mulher, a leoa de tríplice jornada que pode vencer todos os percalços. Isso sem falar na humildade e fortaleza que Deus nos dá, graciosamente, todos os dias.

Na luta contínua contra a Violência Doméstica e Familiar conheci muitas histórias tristes e de superação, que com as políticas públicas implementadas pelo Tribunal de Justiça/ES, são o meu troféu”".

"Minha existência é um ato político"

A editora de audiovisual Kuplich de Araújo
A editora de audiovisual Kuplich de Araújo . Crédito: Chrystian Henrique

"Eu me orgulho da mulher que me tornei porque sei o quão importante para mim foi a trajetória de construção e reivindicação desta mulher, deste feminino que me define hoje como travesti, em uma sociedade que nos marginaliza e ao mesmo tempo impõe controle sobre nossos corpos. E foi nesse caminho tortuoso, em busca de identidade e poder, que comecei a ter conhecimento de tantas outras mulheridades que compunham tantos outros corpos e a importância de “tornar-se”, de assumir e ocupar.

Sinto orgulho porque sei que a minha existência, tanto da minha mente quanto do meu corpo, é um ato político, na qual me reivindico a seguir minha própria jornada. Reneguei esse padrão repetitivo que nos obrigam, reivindiquei tornar-me, trazer à tona o que sou, deixar de lado minhas certezas... Descobri, construí minha identidade, através das minhas relações com o outro.

E nesses meandros onde caminho, e seguirei caminhando, abertos e erguidos por várias outras que nunca esqueceremos, eu também não estou sozinha. Somos muitas, somos fortes e exalamos paixão pelos nossos corpos, pela nossa existência e pela vida. Tenho orgulho de aderir para minha vida essa luta por representatividade, participação social e por novas condições de corpos e de mulheridades diferentes".

Ficha técnica:

Fotografia: @chrystian_co - Chrystian Henrique/Beleza: @miltonluz/Produção executiva: @agaplataforma - Hannah Freire

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