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Pais precisam relaxar e se divertir com os filhos, dizem psicólogas

Veja dicas para tornar a quarentena menos inquietante para os pais e seus pequenos. O primeiro recado que dão é: não se cobre tanto.

Publicado em 06/05/2020 às 07h00
Atualizado em 06/05/2020 às 07h00
Pai e filho se divertindo; quarentena
Pai e filho se divertindo; quarentena. Crédito: Freepik

Pelo que se sabe até agora, as crianças parecem adoecer menos de coronavírus. O que não significa que não sejam bastante impactadas por esta pandemia. Os quase dois meses de confinamento já produziram alguns efeitos sobre a saúde e o bem-estar delas. Quem é pai ou mãe já percebeu isso.

Minha filha, que tem 3,5 anos, já reclamou de saudade da creche e das amigas. Por mais que a gente dê uma atenção especial neste período, inventando mil tipos de brincadeiras diferentes, não é a mesma coisa. A criança sente falta de estar com outra criança.

Mas então o que fazer para minimizar esse sofrimento? Sem parquinho, escola, pracinha, praia… Dias sem fim no mesmo ambiente. E se o adulto não se sente criativo o suficiente para entreter o filho, assim como muitos pais mostram nas redes sociais?

Bom, ouvimos psicólogos para tentar tornar a quarentena menos inquietante para os pais e seus pequenos. O primeiro recado que dão é: não se cobre tanto.

“Criança gosta de coisa simples, nós adultos é que tendemos a complicar as coisas”, afirma a psicanalista Renata Tavares Imperial.

A psicóloga Danielle Alvim segue o mesmo discurso: “Os pais precisam relaxar e se divertir com seus filhos”.

Desde o começo do isolamento social, vemos pelas redes sociais uma série de vídeos de atividades que os pais orientais estavam fazendo com as crianças dentro de casa. Muitas ideias bacanas e divertidas, mas nem todas viáveis, como observa Renata.

“Não adianta tentar fazer coisas que os pais não gostem, que não condizem com a realidade da família ou com o estilo de cada pai e ou mãe”, diz.

Não adianta forçar diversão

Portanto, a pior atitude que o pai ou a mãe podem ter, sobretudo neste momento, é “forçar” diversão, num esforço gigantesco que pode não ter resultado prático nenhum. “O que os pais menos precisam é de se sentirem cobrados, de realizarem atividades mirabolantes com seus filhos, de serem exigidos ter uma criatividade, que muitos nem nunca tiveram, de brincar com seus filhos de brincadeiras que não despertam sua vontade de estar com eles”, destaca a psicanalista.

Danielle defende que os pais precisam ter paciência e cuidar de seus pensamentos para que ajudem seus filhos a passar por este momento. “Eles precisam também se colocar à disposição dos seus filhos para ouvir, conversar, orientar. A conduta e manejo dos pais vai fazer toda a diferença no enfrentamento desse momento para as crianças .Um ambiente saudável e tranquilo faz toda a diferença”.

Olhar mais sensível

Está ruim para todo mundo, mas é importante dar um desconto maior para as crianças, que não sabem entender e expressar seus sentimentos direito. Um olhar sensível pode fazer a diferença em pequenas coisas.

“Quando o laço afetivo construído entre pais e filhos está mais estabelecido na base da confiança, do acolhimento, da segurança, a criança encontra um ambiente mais aberto e convidativo para ela expressar o que sente, na grande maioria das vezes, pela via dos seus atos”, pontua Renata.

Olho nas mudanças de comportamento

Os pais devem estar atentos às mudanças de comportamento dos filhos para saber como ajudá-los.

“As manifestações de sofrimento da criança, na maioria das vezes, estão relacionadas com o jeito de cada uma e sua tendência em lidar com os afetos nos momentos difíceis. As expressões de sofrimento mais comuns são agitação, agressividade, irritabilidade, choro intenso, alterações no sono, alterações no apetite e disfunções no controle dos esfíncteres, podendo voltar a fazer xixi e coco na calça”, cita a psicanalista.

Segundo ela, algumas tendem a ficar mais agitadas, agressivas, irritadas, mandonas. Outras tendem a enfrentar as adversidades chorando, gritando, fazendo birras. “Existe o grupo de crianças que demonstram sofrimento em sua relação com a comida, ou seja, comem muito ou quase não comem. Há aquelas que são mais quietas, mais introvertidas e, em momentos de sofrimento, podem ficar ainda mais caladas e paradas, chegando ao extremo do mutismo. Essas últimas apresentam o maior risco de passarem despercebidas, pois são consideradas ‘boazinhas’, fazem menos barulho, demandam menos dos pais e das outras pessoas à sua volta”.

Dicas

No mais, tente oferecer um clima tranquilo e seguro para seu filho. “Estabelecer uma rotina para a criança vai trazer segurança”, orienta Danielle.

Outra estratégia, sugere Renata, é tentar incluir a criança na rotina doméstica, nos afazeres do cotidiano, como lavar louça, preparar o almoço, limpar a casa, dentre outras coisas que ela possa fazer, sob a supervisão de um adulto. “Imagina uma criança que estuda pela manhã, que nunca ficava em casa no horário em que é feito o almoço. Neste momento de quarentena, ela está tendo a oportunidade de ser incluída em uma rotina em que ela costuma estar ausente”.

Outra dica para os pais é procurar resgatar em suas memórias as brincadeiras de que gostavam quando eram crianças. Isso, segundo Renata, pode ter um efeito muito mais positivo do que apenas dar brinquedos para os filhos.

Menos brinquedos, mais presença

“Apesar de os brinquedos serem importantes para as crianças, elas gostam mesmo é de contato corpo a corpo, de atenção, de passar tempo junto com outros seres humanos, em especial os pais”.

Infelizmente, frisa ela, o contato com os adultos não supre a necessidade de interação com as outras crianças. “Mas é o que é possível ser feito nesse momento de quarentena”.

Danielle afirma que os pais devem incentivar que os filhos interajam e troquem experiências com seu amigos por vídeos. “Mesmo que seja de uma nova forma, eles estão mantendo interação social”.

Renata também vê a tecnologia como aliada nesta fase, desde que seja bem usada. “A tecnologia pode proporcionar encontros em tempo real com o colega, cada um em sua casa, mas podendo interagir, brincar com os brinquedos que têm em comum, mostrar alguma parte da casa, fazer algum desenho simultaneamente ou qualquer outra coisa que a criança tenha vontade de fazer e de compartilhar com o amigo ou amiga durante o encontro on-line”, recomenda ela.

Tempo ocioso é legal

Outro ponto importante para auxiliar na saúde mental das crianças, de acordo com a psicanalista, é permitir que elas tenham momentos de não fazer nada, que possam olhar para o teto, que parem para observar o movimento de um ventilador ou até mesmo fiquem contemplando o que podem ver de suas janelas ou de suas varandas.

“É preciso lembrar que as crianças de hoje são bombardeadas de imagens, sons, estímulos dos mais variados que fazem parte da nossa vida atual. Mas neste período da quarentena, que elas possam ter mais tempo para perceber outras coisas ao seu redor”.

Danielle lembra que se os pais observarem que apesar de todo esforço não estão conseguindo manter o bem-estar da criança, é necessário procurar ajuda de um psicólogo.

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