Ninguém desafia o governo – pelo menos não com tamanha ousadia – e sai impune e ileso por isso. A máquina do Executivo é muito forte e, quando quer, o governo Casagrande não só pode como vai jogar pesado para alcançar as vitórias políticas almejadas, ainda que isso signifique virar o jogo aos 49' do segundo tempo ou levar a partida para a prorrogação a fim de reverter uma derrota certa. Ou mesmo que signifique levar a decisão para o tapetão. Foi esse o recado que o governo Casagrande transmitiu, a Erick Musso e a toda a sociedade capixaba, com a intensa movimentação de bastidores que culminou com o recuo e a renúncia coletiva da chapa liderada por Erick, eleita no último dia 27 para dirigir a Mesa Diretora da Assembleia no biênio 2021-2023, com mais de 400 dias de antecipação.
Vinda de várias frentes – mas coordenada pelo Palácio Anchieta –, a pressão sobre Erick foi muito grande, a ponto de fazer-se insustentável. A reação do Palácio, conduzida pessoalmente por Casagrande, incluiu uma articulação política forte com os demais Poderes e instituições do Estado. Desde a "bola nas costas" que tomou de Erick no meio deste jogo, o governador não voltou a conversar com o chefe do Legislativo. Escolheu outros interlocutores. Chamou, para conversas individuais em seu gabinete entre segunda (2) e terça-feira (3), os representantes do Ministério Público Estadual, a cúpula do Tribunal de Justiça do Estado e o novo chefe do Tribunal de Contas do Estado, Rodrigo Chamoun (um antigo aliado de Casagrande).
Por prudência ditada pela sensatez política – em contraste com a impulsividade demonstrada uma semana antes ao convocar, de surpresa, e eleição a jato –, Erick Musso achou por bem distensionar a corda desse cabo de guerra, a qual, se rompida, poderia explodir de vez a relação institucional já abalada entre os Poderes Legislativo e Executivo no Espírito Santo.
No Palácio Anchieta, a percepção geral é a de que essa reeleição antecipada de Erick era absolutamente "ilegítima" – senão também ilegal –, pela maneira como foi conduzida e consumada, às costas do governo e à custa da palavra empenhada e do pacto não escrito de confiança mútua entre os chefes dos dois Poderes – o qual já não existe, rasgado que foi pelo presidente da Assembleia nesse episódio, segundo a visão predominante no governo Casagrande.
O governo e, muito particularmente, o governador jamais digeriram a manobra protagonizada por Erick (com ajuda, direta ou indireta, dos deputados Marcelo Santos e Enivaldo dos Anjos) para assegurar-se a própria permanência no poder, na hierarquia da Assembleia, pelo menos até 2023. Para ser mais preciso, antes mesmo de poder digerir, o governador jamais engoliu isso. A reeleição surpresa de Erick, com tamanha antecedência e com amplo apoio da própria base de Casagrande, foi uma humilhação imposta a ele pelo jovem e impetuoso presidente do Legislativo. Era, até esta quarta (4), uma espinha na garganta do governador. Ou, na definição de um deputado governista, "uma faca cravada [por Erick] nas costas de Renato".
Na última segunda-feira (2), forçado a ficar ao lado de Erick na mesa de autoridades, durante a posse de Chamoun no TCES, Casagrande, normalmente afável e bem-humorado, estava mesmo irreconhecivelmente tenso, com o semblante cerrado e fechado. Cara de quem parecia realmente carregar um punhal nas costas (ou queria enfiar um em alguém).
O ACORDO E O DESACORDO
Desde o fatídico episódio da reeleição surpresa, conforme a coluna apurou, Casagrande sentiu-se mesmo apunhalado por Erick. Segundo interlocutores do governador, o presidente da Assembleia, na visão de Casagrande, quebrou um acordo verbal estabelecido entre os chefes dos dois Poderes. Como chegou a manifestar publicamente mais de uma vez, o governador nunca foi fã da ideia de Erick de permitir a antecipação da eleição da próxima Mesa (2021-2023). Mas engoliu em seco e topou “deixar” que Erick seguisse em frente com sua PEC. Não mobilizou nem orientou sua base no plenário a votar contra a proposta. Base liberada, caminho livre para Erick. E assim foi feito: a PEC passou e Erick mexeu na Constituição, como queria.
Houve duas condições, porém: 1) que Erick desse tramitação ágil aos projetos prioritários do governo neste fim de ano (reforma da Previdência no topo da lista); 2) que Erick avisasse com antecedência e fechasse uma data, em consenso com o governador, para realizar, em 2020, a eleição da Mesa de 2021-2023. Em 2020! Da reunião em que fecharam tal acordo, há cerca de 15 dias, também participaram os secretários Tyago Hoffmann (Governo) e Davi Diniz (Casa Civil), pelo lado do governo; o deputado federal Amaro Neto e o diretor-geral da Assembleia, Roberto Carneiro, pelo lado de Erick.
Na presença de Davi Diniz, de Marcelo Santos e de Enivaldo dos Anjos, Casagrande e Erick voltaram a conversar no dia 26, um dia após a aprovação da "Emenda Musso". Erick queria fazer a eleição da Mesa logo. Casagrande pediu a ele para deixar para 1º de agosto de 2020. Erick propôs 1º de fevereiro. Os dois não chegaram a um consenso. Ficaram de voltar a dialogar para encontrar uma data consensual. No dia seguinte, veio a surpresa: Erick convocou a eleição, conseguindo uma façanha rara: pegar o governo desprevenido.
Mas houve troco.
A REAÇÃO PESADA DO PALÁCIO
No mesmo dia (27), Casagrande marcou posição, declarando à coluna que aquela eleição da Mesa fragilizava a Assembleia como instituição. E se, na manhã da eleição, o governo não teve tempo para reagir e organizar um contra-ataque, nos dias seguintes pôs em curso uma intensa operação de bastidores, liderada pessoalmente pelo governador, para barrar esse processo na Justiça e, ao mesmo tempo, provocar uma condenação pública à reeleição antecipada de Erick, por parte de autoridades de Poderes, de instituições e da sociedade civil capixaba. Isso já estava em andamento.
O governo não o admite, a OAB-ES jamais o fará, mas a ação civil pública movida pela entidade tem indícios de influência do governo. Em declaração dada para A Gazeta, quando explicou a ação, o presidente da Ordem, José Carlos Rizk Filho, deixou escapar que recebeu pressões "de todos os lados", tanto de agentes do governo como de parlamentares, procurando-o via WhatsApp. Até a Arquidiocese de Vitória engrossou o coro condenatório. Independentemente do grau de espontaneidade ou do dedo do governo nessas reações, o fato é que entidades da sociedade civil começaram a gritar: não vamos mais admitir esse tipo de manobra casuísta na Assembleia, que remonta a tempos sombrios do passado.
Em paralelo, o próprio Casagrande, pessoalmente, e emissários do governador (Davi Diniz, sobretudo) entraram em contato com deputados da situação para reorganizar sua base na Assembleia e "repactuar" sua relação política com eles. "Repactuar" é uma palavra bonita para substituir "colocar os deputados da base no seu lugar" e lembrar-lhes o quanto dependem da mão amiga do Executivo.
Muitos desses deputados são pré-candidatos a prefeito nos respectivos redutos em 2020. Nenhum deles é louco para abrir mão de benesses do governo (emendas, cargos, a chance de mostrar a suas bases prestígio junto ao Executivo). O governo, como eu disse, pode jogar pesado, quando quer, com os instrumentos que possui (e não são poucos). Cobrou de todos lealdade e disciplina – se querem mesmo receber o que esperam… Muitos desses deputados agiram, então, junto a Erick, como a "turma do deixa disso", buscando convencê-lo a dar um passo atrás.
Em nome do governador, secretários também reabriram conversas com Marcelo Santos e Enivaldo, cuja influência sobre Erick é conhecida por todos, de modo que a dupla de conselheiros também entrasse na operação de convencimento para o presidente voltar atrás.
Tudo isso considerado, Erick pode até ter pensado que o jogo estava encerrado com seu discurso pós-reeleição dia 27. O governo só estava indo para o vestiário para voltar com força no segundo tempo.
Mas o jogo só termina quando acaba. E, aliás, pode nem sequer ter acabado. É o que veremos aqui em breve.
O CARTÃO VERMELHO PARA ENIVALDO
A própria derrubada de Enivaldo, no último sábado (30), do posto de líder do governo, somou-se a todo esse conjunto de recados, mais ou menos explícitos, transmitidos pelo governo após a vitória parcial de Erick, de que não aceitaria mais nenhum tipo de insubordinação ou de surpresinha desagradável por parte da base no plenário. Há controvérsias sobre o grau de responsabilidade, desobediência e infidelidade de Enivaldo na manhã da reeleição precoce de Erick. Mas é aquela história: quando o time todo joga contra o treinador, o capitão perde a faixa. Sobrou para Enivaldo. O líder do governo caiu porque precisava cair. Se não fizesse isso, Casagrande teria dado o sinal contrário, de fraqueza: o de que estaria disposto a absorver novos atos de rebeldia do seu líder e da sua base.