ASSINE
Dona Astrogilda (sentada à esquerda) foi uma das figuras mais importantes para o congo do Espírito Santo
Dona Astrogilda (sentada à esquerda) foi uma das figuras mais importantes para o congo do Espírito Santo. Crédito: Divulgação

Rainha do Congo do ES segue celebrada por seus súditos

Dona Astrogilda, guia das tradições em Aracruz que morreu no ano passado por complicações da Covid-19, é lembrada pela cantora Monique Rocha em samba e videoclipe inéditos

Tempo de leitura: 4min
Publicado em 19/02/2022 às 02h00
  • Eliomar Carlos Mazoco

    É historiador e membro da Comissão Espírito-santense de Folclore e do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo

É comum em nosso folclore a presença de personagens de reis e rainhas que desfilam nas manifestações folclóricas ao longo do ano.  No Ticumbi temos o “reis” de Congo e o de Bamba, dois personagens da brincadeira que foram de fato reis de terras africanas. Nas bandas de congos não é comum o personagem, mas ele está em toadas como essa: “Ei Rei Congo/ Rei Congo de Beira Mar/ Rei Congo foi pra guerra/ Ai meu Deus como será”, muito cantada em Nova Almeida, na Serra. 

O mais comum é a presença de rainhas, geralmente acompanhadas de uma corte de senhoras e meninas vestidas como nobres. Em Minas Gerais, a forte organização dos congados nas irmandades religiosas levou à coroação do rei e da rainha de congo da comunidade local, geralmente em suas igrejas dedicadas a São Benedito e, principalmente, a Nossa Senhora do Rosário.

Ao mesmo tempo em que representava para a igreja uma tolerância para atrair o escravo para sua doutrina, para os negros era a afirmação, em plena escravidão, de uma identidade, apesar de consentida. Mais tarde, pelo poder público e pela Federação Mineira do Congado, passou-se para a escolha de um Rei Congo de Minas Gerais. 

No Espírito Santo – que antes de Minas Gerais existir, a partir do século XVIII, já cultuava São Benedito -, apesar da existência das irmandades, nossos grupos de congos se mantiveram mais pela organização da tradição em núcleos familiares, compartilhados com compadres, vizinhos e aparentados, por vezes amalgamados por um centro ou terreiro de candomblé e umbanda. 

Símbolo dessa majestade era a Rainha da Banda de Congo de São Benedito de Vila do Riacho de Aracruz, Dona Astrogilda Ribeiro dos Santos, nascida, como dizia ela, entre Minas e Bahia, de uma família de folgadores de São Benedito, sendo seu pai capitão do grupo local. 

Falecida aos 88 anos, em julho de 2021, por complicações em decorrência da Covid-19, a eterna Rainha do Congo do Espírito Santo recebe agora uma justa homenagem da cantora e atriz Monique Rocha, por meio do lançamento do samba-congo “Dona Astrogilda”, que ganha registro em videoclipe disponível no canal da cantora no YouTube.   

Monique Rocha lança música e videoclipe em homenagem a Dona Astrogilda
Monique Rocha lança música e videoclipe em homenagem a Dona Astrogilda. Crédito: Thais Gobbo

Vindo menina para o Espírito Santo, Dona Astrogilda começou a participar da brincadeira de congo da Vila, então guiada por mãe Aurélia e cuja história oral dizia ser a sua banda descendente do grupo que recebeu Dom Pedro II em sua visita de 1860 às terras capixabas. 

Com a morte de Aurélia e após um tempo em que o grupo não aprumou na mão de outro mestre, Dona Astrogilda assumiu a brincadeira. Foi no comando da banda e do pequeno centro onde era mãe de santo, ladeada de seu filho Antônio, que Dona Astrogilda revelou uma força espiritual, um conhecimento profundo e antigo, que a tornou referência em sua comunidade.

Uma verdadeira mestra, no sentido da cultura popular, uma pessoa que, pela oralidade, pelo conhecimento, pela força das palavras, organizava em torno de si pessoas, grupos sociais, festas, rituais e eventos que fizeram dela referência da identidade local. Uma verdadeira rainha.

SAIBA MAIS SOBRE DONA ASTROGILDA


Astrogilda Ribeiro dos Santos, ou Dona Astrogilda, como era carinhosamente chamada, se consagrou como a Rainha do Congo do Espírito Santo. Parteira e guia espiritual, viveu a maior parte de sua vida na Vila do Riacho, em Aracruz, Norte do Espírito Santo. Seguindo os passos dos pais, tornou-se mestra da Banda de Congo de São Benedito do Rosário, permanecendo à frente do grupo por mais de 65 anos. Devota

fiel a São Benedito, símbolo de luta e resistência no movimento negro e musa inspiradora de canções, a folclorista teve sua trajetória contada no documentário “Astrogilda, o Congo é sua Vida”, de Rogério Sarmenghi. Em 2014, recebeu o título de Mestre da Cultura Popular do Espírito Santo pela Secretaria de Estado de Cultura (Secult-ES). Em janeiro de 2021, ficou internada por 19 dias com Covid-19. Debilitada devido à doença, faleceu em 19 de julho de 2021, aos 88 anos.  A Rainha do Congo do Espírito Santo recebeu diversas homenagens de políticos, artistas e produtores culturais por sua contribuição inestimável para a cultura capixaba. Em novembro, o Edital de Culturas Populares Tradicionais, da Secretaria de Estado da Cultura, passou a se chamar Prêmio Dona Astrogilda.   

LANÇAMENTOS DE MONIQUE ROCHA

Este vídeo pode te interessar

Projeto selecionado pelo Edital Setorial de Música 033/2019 da Secretaria de Estado da Cultura (Secult/ES).

A Gazeta integra o

Saiba mais

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.

Logo AG Modal Cookies

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.