Um mar de concorrentes: processo de classificação do Prêmio Oceanos 2020 analisou 1.872 obras, publicadas em dez países e inscritas por 450 editoras
Um mar de concorrentes: processo de classificação do Prêmio Oceanos 2020 analisou 1.872 obras, publicadas em dez países e inscritas por 450 editoras. Crédito: Pixabay

Professor da pós-graduação de Letras da Ufes no Prêmio Oceanos 202o

Paulo Dutra está entre os 54 classificados na premiação,  considerada uma das homenagens literárias mais importantes entre os países de língua portuguesa

Publicado em 05/09/2020 às 11h00
Atualizado em 05/09/2020 às 11h00
  • Maria Aparecida Andrade Salgueiro

    É professora titular – Instituto de Letras da Uerj

Paulo Dutra, nascido em família capixaba, graduado na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e hoje membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Letras daquela instituição, é um dos escritores que vem comemorando desde o último 25 de agosto o fato de estar entre os semifinalistas do Prêmio Oceanos, considerado uma das homenagens literárias mais importantes entre os países de língua portuguesa. “abliterações”, seu livro de poemas, foi recém-publicado pela Editora Malê, que, em sua página, informa que Paulo passou por processo “que analisou 1.872 obras, publicadas em dez países e inscritas por 450 editoras, resultando em 54 classificados.” Haja fôlego.

E pelo que se destaca a obra? Dando sequência à produção literária em prosa (2018), com “Aversão Oficial” (resumida), também publicada pela Malê, Paulo Dutra apresenta em “abliterações” sua verve poética e segue, sempre com neologismos em seus significados e sonoridades, trabalhando a memória e suas sequelas, com original sensibilidade, em meio à dor da vivência da desigualdade social em nosso país. O título, intrigante para tantos, resgata o sentido de obliterações, ou seja, eliminação, esquecimento, apagamento, extinção, palavras por cujo campo semântico transitam os quase trinta poemas do livro.

Logo na apresentação, a professora da Ufes Maria Amélia Dalvi escreve: “Este livro recusa a não verdade da cultura, e faz dela ‘memória do sofrimento’; como arte quase testemunhal, seus poemas – desde a advertência inicial – se apresentam como denúncia da falsa promessa de felicidade de uma estética bem-comportada. Ao invés do ‘J’accuse’, do realismo de Zola, Paulo Dutra assume um ‘Eu recuso’ – e deixa o leitor se virar com isso.”

E nessa recusa, espraia sua arte literária, poema após poema, com traços jocosos às vezes e bastante duros em outros, ao expor com nitidez o racismo e a realidade diária necropolítica do apagamento de momentos, vidas, histórias e culturas, ao mesmo tempo em que se coloca, com sua escrita – e com o incentivo à leitura - como uma das forças de resistência, atraindo o leitor, em estratégia para a decolonização do pensamento, já presente desde as epígrafes e o prólogo da obra.

O professor Paulo Dutra concorre com o livro de poesia “abliterações”
O professor Paulo Dutra concorre com o livro de poesia “abliterações”. Crédito: Hershel Womak/Divulgação

Em seu olhar atento sobre a vida, se debate com as dificuldades da língua e da linguagem, tal como nos poemas que dialogam entre si “Domingo no parque ou antes ou depois de auschwitz” e “Dominga no parque”. Páginas à frente, o poema “Queasmos?somsaeuQ” demonstra mais uma vez os ensaios com a língua, para concluir que “A poesia é uma erótica verbal”.

Ao trabalhar palavras, sonoridade e oralidade, muitas vezes em ritmo e poesia de samba e rap, traz à tona aspectos intrínsecos da vida carioca, memórias afetivas de seu tempo no Rio de Janeiro, e a realidade de espaços geopolíticos metafóricos de tantos outros como o Complexo da Maré, e a vivência diária ao som de tiros, violência policial, angústia e tensão de inúmeros seres humanos.

Mesmo em perspectiva poética inovadora, não deixa de dialogar com mestres da poesia brasileira, tal como Carlos Drummond de Andrade, em “Hoje de manhã – bem cedinho”: “No meio do beco tinha um caveirão / Tinha um caveirão no meio da travessa / Tinha um caveirão / No meio do larguinho tinha um caveirão”.

Tendo realizado Mestrado e Doutorado nos Estados Unidos, Paulo Dutra seguiu carreira naquele país, pesquisando de forma orgânica as Literaturas Brasileira e Hispana, trabalhando diálogos que a América Latina estabelece com a figura de Dom Quixote, e as expressões da diáspora africana no Brasil, com especial relevo nos últimos anos para a obra de Machado de Assis, em sua denúncia do racismo à brasileira e da hipocrisia social em toda sua obra.

Atualmente é professor Assistente da University of New Mexico em carreira que vai se consolidando também na docência, sem, ao mesmo tempo, nunca ter perdido laços com o Brasil e com o Espírito Santo. Que bons ventos acompanhem a trajetória que já nasce vitoriosa de abliterações.

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