A dupla face das coisas, dos seres e das circunstâncias nos conduz ao cerne dessa obra na qual não se exclui nem se impõe verdade alguma. Na busca de certezas, encontram-se apenas dúvidas
A dupla face das coisas, dos seres e das circunstâncias nos conduz ao cerne dessa obra na qual não se exclui nem se impõe verdade alguma. Na busca de certezas, encontram-se apenas dúvidas. Crédito: Pixabay

"Grande Sertão: Veredas": viver é muito perigoso na pandemia

Faremos um sucinto paralelo entre a incerteza do atual mundo covídico e a incerteza do mundo de Riobaldo, protagonista da obra

Publicado em 23/08/2020 às 11h00
Atualizado em 23/08/2020 às 11h00
  • Jô Drumond

    É doutora em Literatura, com pós-doutorado em Literatura Comparada. Tem 18 livros publicados. Membro de 3 Academias de Letras (AEL, Afesl e Afemil) e do IHGES

Édipo conseguiu decifrar o enigma da esfinge que afligia a cidade de Tebas. Todos os que o precederam foram por ela devorados. Os cientistas estão tentando decifrar o enigma do coronavírus. Caso não o decifrem, poderão ser por ele devorados, assim como nós. Para a aflição de todos, além de apresentarem diferentes pontos de vista, os cientistas, às vezes, são contraditórios. A população mundial sente-se à deriva, num caótico caudal. Ninguém pode ter certeza se estará vivo dentro de uma quinzena ou de um mês. Como fazer planos?

Durante a pandemia, estamos todos diante de um iminente perigo invisível, porém real e poderoso. Isso nos remete a uma das mais importantes obras da Literatura Brasileira, em que o ser humano está o tempo todo exposto ao perigo, tal qual Édipo, na encruzilhada, diante de uma esfinge enigmática. Em “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa, o mote “viver é muito perigoso”, repetido insistentemente ao longo da narrativa, demonstra que o perigo de viver consiste no próprio fato de existir.

Faremos um sucinto paralelo entre a incerteza do atual mundo covídico e a incerteza do mundo de Riobaldo, protagonista da obra. Mas, antes disso, é oportuno registrar as recentes opiniões circuladas nas redes sociais, do filósofo francês Edgard Morin (98 anos), sobre o assunto. Fazem parte de sua filosofia as assertivas: “espere o inesperado”, “as certezas são uma ilusão” e “as controvérsias são parte inerente da ciência”.

Durante uma entrevista ao jornal CNRS, ele mostra seu ponto de vista sobre o momento de dúvidas em que estamos vivendo, afirmando categoricamente sua descrença nas verdades absolutas da ciência. Baseando-se no fato da incerteza de todos quanto à origem e diferentes formas do coronavírus, quanto aos graus de nocividade sobre diferentes tipos de população e quanto à (in)eficiência do tratamento, ele afirma que a ciência não é dogmática: “É uma realidade humana que, como a democracia, se baseia em debates de ideias, embora seus métodos de verificação sejam mais rigorosos”.

Segundo Edgard Morin, nossa necessidade de certeza, oriunda do processo civilizatório, agrava ainda mais a crise existencial de cada cidadão, pelo fato de não encontrar um eixo, ou um ponto de apoio para aliviar a tensão.

CONEXÃO COM A OBRA

Isso nos remete à obra de Guimarães Rosa, citada inicialmente. A dupla face das coisas, dos seres e das circunstâncias nos conduz ao cerne dessa obra na qual não se exclui nem se impõe verdade alguma. Na busca de certezas, encontram-se apenas dúvidas. Por meio de um emaranhado discurso, o protagonista nunca se decide entre o sim e o não. A narrativa se faz por meio de um falso diálogo, ou melhor, de um monólogo com desdobramento dialógico, que, no entanto, não se concretiza.

Dúvida, hesitação, indecisão e insegurança perpassam todo o romance: na indefinição do foco narrativo, no imbricamento de níveis narrativos, na indefinição dos personagens que se apresentam como indivíduos divididos, na atopia e na acronia, ou seja, na indefinição espacial (o espaço se espalha em todas as direções) e temporal (presente e passado se deslocam, se entrecruzam e se embaralham), nos questionamentos metafísicos de Riobaldo... até mesmo o gênero da obra é questionável: épico, lírico e dramático se imbricam. Não é fácil classificar uma obra em que quase tudo é indefinido. Os críticos divergem entre romance, novela, epopeia, saga ou conto.

Jô Drumond

Autora do artigo

"No caso da pandemia, nos resta também a infinita busca, mas diferentemente do romance, em diversos caminhos que se convergem para um só destino: a cura"

Em verdade, trata-se de uma Opera-mundi, expressão que designa textos literários que não se enquadram nas classificações usuais, não se moldam aos cânones literários. A permanente e inconclusa dialética rosiana ocasiona a oscilação das polaridades, em uma narrativa singular, levando o leitor de uma esfera a outra, suspenso entre o ser e o não ser, num sertão paradoxal e labiríntico.

A narrativa não se presta a desvelar ou a desvendar os enigmas da vida nem os sentidos das coisas. Ela se desdobra numa densa trama de imagens e numa nebulosa de signos, tendo um narrador que usa “palavras tortas”, no afã de contar o que não sabe, de ponderar o imponderável e de buscar o infinito.

No caso da pandemia, nos resta também a infinita busca, mas diferentemente do romance, em diversos caminhos que se convergem para um só destino: a cura. Enfim, o mundo todo espera que a ciência decifre o quanto antes o enigma que nos aflige, antes que a esfinge nos devore.

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