Ao completar uma década de existência — celebrados com a marchinha-tema “Dez Anos de Prazer” —, o Bloco Amigos da Onça tem proporcionado aos seus foliões uma experiência das mais originais do carnaval de rua do Espírito Santo. Sua trajetória transcende a organização de um cortejo carnavalesco e constitui uma crônica antropofágica, escrita em versos ambíguos, corpos suados e uma simbologia que é, ao mesmo tempo, ancestral e urgentemente moderna, um verdadeiro culto festivo ao desbunde.
Criado a partir do reencantamento do espaço urbano, o bloco nasceu do sentimento de pertencimento de moradores de uma rua específica do Centro Histórico de Vitória. Assim, contribui para um resgate da rua como praça pública e palco de uma sociabilidade baseada não no consumo, mas na copresença e na celebração gratuita.
A agremiação manifesta que promover o inútil desfrute dos corpos para estarem nas ruas em uma festa pública é uma forma de ser responsável por aquilo que é o comum, é ser zelador da coisa pública. Contra a lógica utilitarista que dita o uso de cada metro quadrado da cidade, o bloco defende o direito à ociosidade festiva, ao tempo gasto sem outra finalidade que não o próprio prazer do encontro.
Esse prazer, porém, não é individualista; é estruturalmente coletivo, simbolizado na figura radical do “leitinho” - bebida distribuída para os foliões durante o cortejo como um ato comunal que subverte a lógica da mercadoria. O leite não é vendido; é oferecido. Não gera lucro; gera laço social.
Em seu enredo, o bloco apropria-se de um relato colonial da perseguição da onça — a história fundadora do Parque da Gruta da Onça — fazendo sua inversão completa para narrar a sua mitologia. A onça deixa de ser a fera caçada, o “outro” selvagem a ser dominado pela civilização, para se tornar a anfitriã, a guardiã que nutre e lidera a festa. Ela não é domesticada; é ela quem domestica temporariamente o espaço urbano para seus ritos de inversão.
Essa ressignificação vai além do deboche e propõe um olhar multiespécie sobre o meio ambiente, onde o humano não é o centro, mas um participante numa rede mais ampla de relações. O “matinho” de suas letras é justamente essa zona de contato e hibridação, uma heterotopia onde as categorias rígidas de humano/animal, natural/urbano, se dissolvem em prol de uma experiência comunal e sensual.
Analisar a evolução das marchinhas e enredos de 2016 a 2026 é acompanhar a pulsação crítica de uma década materializada na festa pública. A fase inicial (2016-2019) é de afirmação hedonista e construção do universo simbólico: a onça se apresenta, o matinho é inaugurado como espaço de liberdade sexual e transgressão queer. É a celebração do corpo e do desejo como territórios de autonomia.
A partir de 2020, contudo, sombras começam a se projetar sobre o Éden carnavalesco e o clímax dessa tensão chega em 2024 com “Fogo no Matinho”, uma denúncia ecológica visceral e incorporada. A ameaça não é mais abstrata; é o calor real que sufoca a folia, traduzindo a crise climática em experiência sensorial imediata.
Essa evolução culmina na visão pós-apocalíptica de 2025. Aqui, o bloco supera a ideia de que é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do sistema e imagina a cultura — especificamente a cultura festiva — como o último reduto de humanidade. O carnaval não é mais um intervalo, mas o legado; a resiliência não está nas instituições, mas no ritmo e no desejo obstinado de dançar sobre as ruínas. É uma visão ao mesmo tempo sombria e profundamente esperançosa.
Esteticamente, a produção musical constante de FePaschoal cristaliza uma poética da fusão e do anacronismo deliberado. A marchinha, forma musical tradicional e popular, é carregada com um conteúdo linguístico explícito, uma sintaxe queer e um deboche que é arma crítica.
A linguagem do bloco é um caldeirão semiótico: incorpora gírias, onomatopeias animais e uma sensualidade que não pede licença. Essa contaminação dos registros é política. É a língua da margem invadindo o centro, a fala do corpo livre desafiando a gramática conservadora. A festa, assim, torna-se uma forma de conhecimento que compreende o mundo através do ritmo, do suor, do riso e do gozo coletivo.
Ao final desta primeira década, o Bloco Amigos da Onça mapeou, em código de festa, as tensões entre o comum e o privado, o desejo e a repressão, a vida e a destruição ecológica. Mais que um mascote, a onça é uma crítica festiva e libidinosa, uma ferramenta para pensar a partir do corpo e do prazer.
O bloco ensina que a alegria coletiva não é antagônica à consciência política, mas pode ser seu veículo mais potente; que o cuidado com o espaço público passa, necessariamente, pelo prazer de ocupá-lo sem outra razão; e que, diante do colapso, a última trincheira pode ser a capacidade teimosa de inventar um refrão, ingerir uma bebida simbólica e entregar-se à dança.
A onça completou dez anos, e seu rugido, ecoando da gruta para as ruas, segue afirmando a possibilidade concreta de outros modos de vida em comum, desenhados ao som de uma marchinha que é, no fundo, um manifesto em permanente desbunde.
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.