Bloco Amigos da Onça
Bloco Amigos da Onça. Crédito: Ricardo Medeiros

Dez anos de prazer: a onça virou anfitriã da folia no Centro de Vitória

Analisar a evolução das marchinhas e enredos de 2016 a 2026 é acompanhar a pulsação crítica de uma década materializada na festa pública

Tempo de leitura: 4min
Publicado em 31/01/2026 às 10h00
  • Paulo Gois Bastos

    É membro fundador do Bloco Amigos da Onça, jornalista, produtor e gestor cultural

Ao completar uma década de existência — celebrados com a marchinha-tema “Dez Anos de Prazer” —, o Bloco Amigos da Onça tem proporcionado aos seus foliões uma experiência das mais originais do carnaval de rua do Espírito Santo. Sua trajetória transcende a organização de um cortejo carnavalesco e constitui uma crônica antropofágica, escrita em versos ambíguos, corpos suados e uma simbologia que é, ao mesmo tempo, ancestral e urgentemente moderna, um verdadeiro culto festivo ao desbunde.

Criado a partir do reencantamento do espaço urbano, o bloco nasceu do sentimento de pertencimento de moradores de uma rua específica do Centro Histórico de Vitória. Assim, contribui para um resgate da rua como praça pública e palco de uma sociabilidade baseada não no consumo, mas na copresença e na celebração gratuita.

A agremiação manifesta que promover o inútil desfrute dos corpos para estarem nas ruas em uma festa pública é uma forma de ser responsável por aquilo que é o comum, é ser zelador da coisa pública. Contra a lógica utilitarista que dita o uso de cada metro quadrado da cidade, o bloco defende o direito à ociosidade festiva, ao tempo gasto sem outra finalidade que não o próprio prazer do encontro.

Esse prazer, porém, não é individualista; é estruturalmente coletivo, simbolizado na figura radical do “leitinho” - bebida distribuída para os foliões durante o cortejo como um ato comunal que subverte a lógica da mercadoria. O leite não é vendido; é oferecido. Não gera lucro; gera laço social.

Em seu enredo, o bloco apropria-se de um relato colonial da perseguição da onça — a história fundadora do Parque da Gruta da Onça — fazendo sua inversão completa para narrar a sua mitologia. A onça deixa de ser a fera caçada, o “outro” selvagem a ser dominado pela civilização, para se tornar a anfitriã, a guardiã que nutre e lidera a festa. Ela não é domesticada; é ela quem domestica temporariamente o espaço urbano para seus ritos de inversão.

Essa ressignificação vai além do deboche e propõe um olhar multiespécie sobre o meio ambiente, onde o humano não é o centro, mas um participante numa rede mais ampla de relações. O “matinho” de suas letras é justamente essa zona de contato e hibridação, uma heterotopia onde as categorias rígidas de humano/animal, natural/urbano, se dissolvem em prol de uma experiência comunal e sensual.

Analisar a evolução das marchinhas e enredos de 2016 a 2026 é acompanhar a pulsação crítica de uma década materializada na festa pública. A fase inicial (2016-2019) é de afirmação hedonista e construção do universo simbólico: a onça se apresenta, o matinho é inaugurado como espaço de liberdade sexual e transgressão queer. É a celebração do corpo e do desejo como territórios de autonomia.

A partir de 2020, contudo, sombras começam a se projetar sobre o Éden carnavalesco e o clímax dessa tensão chega em 2024 com “Fogo no Matinho”, uma denúncia ecológica visceral e incorporada. A ameaça não é mais abstrata; é o calor real que sufoca a folia, traduzindo a crise climática em experiência sensorial imediata.

Essa evolução culmina na visão pós-apocalíptica de 2025. Aqui, o bloco supera a ideia de que é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do sistema e imagina a cultura — especificamente a cultura festiva — como o último reduto de humanidade. O carnaval não é mais um intervalo, mas o legado; a resiliência não está nas instituições, mas no ritmo e no desejo obstinado de dançar sobre as ruínas. É uma visão ao mesmo tempo sombria e profundamente esperançosa.

Esteticamente, a produção musical constante de FePaschoal cristaliza uma poética da fusão e do anacronismo deliberado. A marchinha, forma musical tradicional e popular, é carregada com um conteúdo linguístico explícito, uma sintaxe queer e um deboche que é arma crítica.

A linguagem do bloco é um caldeirão semiótico: incorpora gírias, onomatopeias animais e uma sensualidade que não pede licença. Essa contaminação dos registros é política. É a língua da margem invadindo o centro, a fala do corpo livre desafiando a gramática conservadora. A festa, assim, torna-se uma forma de conhecimento que compreende o mundo através do ritmo, do suor, do riso e do gozo coletivo.

Bloco Amigos da Onça animou as ruas do Centro de Vitória
Bloco Amigos da Onça. Crédito: Fernando Madeira

Ao final desta primeira década, o Bloco Amigos da Onça mapeou, em código de festa, as tensões entre o comum e o privado, o desejo e a repressão, a vida e a destruição ecológica. Mais que um mascote, a onça é uma crítica festiva e libidinosa, uma ferramenta para pensar a partir do corpo e do prazer.

O bloco ensina que a alegria coletiva não é antagônica à consciência política, mas pode ser seu veículo mais potente; que o cuidado com o espaço público passa, necessariamente, pelo prazer de ocupá-lo sem outra razão; e que, diante do colapso, a última trincheira pode ser a capacidade teimosa de inventar um refrão, ingerir uma bebida simbólica e entregar-se à dança.

A onça completou dez anos, e seu rugido, ecoando da gruta para as ruas, segue afirmando a possibilidade concreta de outros modos de vida em comum, desenhados ao som de uma marchinha que é, no fundo, um manifesto em permanente desbunde.

A Gazeta integra o

Saiba mais

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.