A sensibilidade, uma exigência milenar imposta aos poetas, está em Jorge Elias com a naturalidade das coisas que brotam da natureza
A sensibilidade, uma exigência milenar imposta aos poetas, está em Jorge Elias com a naturalidade das coisas que brotam da natureza. Crédito: Divulgação

A poesia essencial do médico e escritor Jorge Elias Neto

Em “Tratado da última pele”, que será lançado no dia 5 de fevereiro, em Vitória, autor reúne o conjunto de poemas publicados em seus 13 livros, com prefácio e revisão do saudoso José Augusto Carvalho

Tempo de leitura: 5min
Publicado em 03/02/2026 às 16h24
  • Francisco Grijó

    É escritor e professor

Jorge Elias Neto é daqueles poetas que nascem prontos — vêm ao mundo com a sina e o objeto, que é a poesia em estado tão puro quanto as palavras que usa para determinar o mundo. E que mundo é esse? De que é feito, que matéria o compõe? A resposta está na clareza com que o faz ter significado.

A sensibilidade, uma exigência milenar imposta aos poetas, está em Jorge Elias com a naturalidade das coisas que brotam da natureza. Tudo em sua poesia parece ser natural, espontâneo: a tradução do que ele é e de como vê o que não é. Aliás, a máxima se instaura em sua produção: o poeta não enxerga o mundo como ele — o próprio mundo — é, mas como o poeta o concebe e como o poeta se constrói.

E por falar em construção, "Tratado da Última Pele", o livro em questão, é a reunião de toda a tradução do mundo, segundo Jorge Elias. De "Verdes Versos", livro de estreia que alcançou a maioridade ano passado, até "XXI Sombras", a mais recente coletânea uniforme de poemas. Há de tudo, em todo o livro, e em muitos dos poemas. Talvez a expressão adequada seja aquela que indefine o objeto: um pouco de tudo.

Há pessimismo, há reflexão, introspecção e ironia; há aquele hermetismo charmoso, oriundo da poesia dezenovista francesa, que transforma Verlaine e Corbiére em seus semelhantes irmãos. Sim, sim, o leitor mais arguto perceberá traços de Drummond, de Rimbaud, de Murilo Mendes. São os mestres queridos, mesmo que ao cumprimentá-los Jorge Elias não saiba que os cumprimenta e glorifica. Aí está a beleza das letras: todos os poemas já foram escritos — o que nos resta é recriá-los, impor a eles o verniz pessoal, o timbre entranhado em cada um.

Eu afirmei que o poeta vem pronto. Não é qualquer um que goza desse benefício. Jorge Elias é capaz de uma pérola definitiva, como esta: O último passo — o de ida. E assim devia ser para todo o sempre. 

Nada mais límpido e sincero — e ao mesmo tempo metalinguístico, por que não? —, nada mais transparente. Este é o papel do poeta: seguir adiante, sinuoso ou reto, aos tropeços ou a passeio, pleno de certezas e grávido de dúvidas. Seguir em frente, contudo, mesmo que o passo seja o derradeiro. Nunca é.

Num certo sentido, a pós-modernidade obrigou o poeta a confessar-se e a refletir sobre o próprio ofício. Fez dele sujeito e objeto, abrigou-o sob a tenda da metalinguagem, da qual o vate não se esvai: Eu te daria meus vícios / se isso não me fizesse órfão. / Jfi o aconchego da pedra, / o travesseiro de folhas, / esses não são meus; deles se serve qualquer poeta.

Chamou-me a atenção o livro "Cabotagem", com atuais dez anos de vida, em que o poeta dedica-se à própria aldeia. A visita memorial ao Cine Paz, ao Horto, às Cinco Pontes, aos muros do Sacré-Coeur, ao horror da morte de Araceli. Jorge Elias percorre seu tempo e seu lugar, como fazem os grandes poetas cuja revisita é tão essencial à poesia, e destina seus versos a conterrâneos e a estrangeiros, que, como oportunidade, poderão saboreá-los cada um a seu modo.

Outra atenção chamada — e uma surpresa: versos destinados ao pugilato, a nobre arte, em "Breve dicionfirio (poético) do Boxe", de 2013. Uma surpresa, mas nem tanto: Jorge Elias conseguiu o inalcançável — transformou um esporte injustamente demonizado em matéria de palavras. Percebeu que o ringue é a página em branco em que se pode, e se deve, escrever. A luta é dura e dura muito: clinches, diretos, uppers, cruzados. O objetivo é criar o poema, vencê-lo. Se não for possível, que o embate seja honesto, claro, limpo.

Aos leitores, aqui — do anonimato —, o que nos resta é apreciar o risco na página de Jorge Elias, seu talento e sua observação. Tão perfeita que beira o essencial.

"Tratado da última pele"

Antologia “Tratado da última pele”, de Jorge Elias Neto - Roda de conversa com o autor e o escritor Francisco Grijó

  • Data: 05 de fevereiro (quinta-feira)
  • Horário: 19h
  • Local: Auditório da Associação Médica do Espírito Santo (AMES), Rua Francisco Rubim, 395, Bento Ferreira, Vitória
  • Editora: Arribaçã
  • Páginas: 450
  • Preço no lançamento: R$ 60
  • Onde adquirir: No lançamento do livro e, depois, no site da editora, na Amazon e com o autor, pelo e-mail [email protected] e pelo WhatsApp (27) 99989-6208

Sobre Jorge Elias Neto

Nascido em Vitória, em 15 de abril de 1964, Jorge Elias Neto é médico cardiologista com especialidade em arritmias cardíacas, pesquisador, ensaísta, ambientalista e poeta. Graduou-se em Medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em 1988, com especialização em vários centros no Brasil e exterior (1989-1994).

Entre outros títulos, é especialista em cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (1994) e mestre em ciências fisiológicas pela Ufes (2002). Foi presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia – ES (2024-2025) e apresentou mais de 100 trabalhos científicos em congressos regionais, nacionais e internacionais, publicando diversos artigos e ensaios em periódicos acadêmicos.

Publicou 13 livros de poesia, agora reunidos na antologia “Tratado da última pele”. No ano de 2025, publicou o e-book “O mais EU de todos em mim vive me desconhecendo”, em conjunto com o fotógrafo Vitor Nogueira – um livro-denúncia que trata da situação dos moradores de rua em Vitória. Membro da Academia Espírito-santense de Letras, onde ocupa a cadeira número 2, que tem como patrono Graciano dos Santos Neves.

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