Sem a escrita,
não sou.
Sem a escuta,
não vou.
Sem a escuta
da escrita,
o que sou
não soou.
Sou uma relação
com as vogais e os silêncios,
com o som que hesita.
Mas às vezes me perco —
zumbis alados me arrastam
ao voo errante
no abismo superinteressante dos bits,
onde tudo brilha
e nada permanece.
Escrever, talvez,
seja um gesto de nostalgia —
no sentido primeiro da palavra:
um retorno com dor.
Retorno à casa, ao corpo,
ao tempo que escorre,
ao som do lápis no papel,
ao silêncio que nos diz:
“ei, ainda estou aqui.”
Vivemos uma sucessão de fins. Fins do tempo, da natureza, do futuro, de nós mesmos. A cada nova crise social, ambiental ou existencial, parece que um pedaço do mundo se desprende e cai. Ficamos assistindo a esses fragmentos se perderem, como se estivéssemos sempre no último capítulo de uma história que insiste em acabar.
Neste mundo apressado, onde tudo precisa nascer pronto e morrer depressa, até a escrita parece ter perdido o direito de existir. Virou produto, conteúdo, ruído. Esquecemos que ela também é corpo, pausa e travessia.
Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano, chama atenção para esse cansaço do nosso tempo — um tempo em que o sujeito se transforma em empreendimento, exaurido de tanto tentar ser. E nesse esforço incessante estamos adoecendo: da falta de silêncio, de sombra, de tempo para sonhar.
Esse adoecimento não surge do nada; ele é fruto do que o filósofo chama de sociedade do desempenho, um modo de viver que exige sempre mais, sempre agora. E isso se manifesta com ainda mais força na forma como passamos a habitar o mundo — um mundo cada vez mais atravessado, moldado e acelerado pelo digital.
É nesse ponto que algo começa a escapar das mãos: o excesso do digital vai, pouco a pouco, nos roubando o corpo. Tudo é feito para nos manter conectados, mas quanto mais nos conectamos às máquinas, mais nos desconectamos de nós mesmos. O tempo perde a espessura, a experiência perde a matéria.
Tudo corre, tudo se apressa, e pausar se tornou um ato de coragem.
Foi com esse pano de fundo que conduzi, em outubro do ano passado, uma Roda de Conversa no espaço Árvore Casa das Artes, no Centro de Vitória, intitulada Escritas analógicas para um estado de poesia. Buscando pensar sobre essas questões, as perguntas que guiaram o encontro foram: Que vida é essa que estamos levando que passamos horas a fio diante de uma tela? O que estamos deixando de viver nesse intervalo luminoso e sem corpo? É possível uma vida mais poética e generosa em um mundo hiperconectado?
Ali, refletimos sobre como o excesso de digital empobrece nossa experiência, não apenas da escrita, mas da própria vida. Nesse contexto, o gesto de escrever à mão, ou de recorrer à velha máquina de escrever, é mais do que nostalgia: é uma forma de resistência. Ambos exigem corpo, ritmo e demora. A tecla que afunda ou o lápis que risca o papel marcam o tempo da escrita, devolvem-lhe o peso e a presença que tanto nos falta.
Há algo de ritual nesse gesto: o som seco da máquina, o cheiro do papel, a pausa entre uma frase e outra. Cada letra batida ou escrita é também um respiro, um convite ao corpo a estar presente. Assim, quando se escreve, o tempo se expande, o pensamento ganha mais consistência e o erro vira textura. As hesitações e os rabiscos, os toques firmes e imprecisos viram traços que revelam o minucioso caminho por onde o sentido passeou.
Como podemos, então, escrever e reescrever o presente?
O ato de escrever se aproxima da experiência de um rio: há coisas que só encontram voz quando passam por esse curso. O rio não tem pressa em chegar ao mar, prefere serpentear, tocar as margens, conversar com as pedras. Enquanto o mundo digital busca atalhos e respostas imediatas, a escrita analógica, como o rio, deseja permanecer. Ela não corre: escorre. Alimenta e se deixa alimentar e por isso é sinuosa, preza pela lentidão.
Escrever é também deixar o pensamento encontrar seu leito natural. É o gesto do wu wei de Lao Tsé, no antigo livro chinês Tao Te Ching — a sabedoria do não-forçar, do agir em harmonia com o fluxo do mundo. Assim como o rio descobre o caminho à medida que flui, a escrita só encontra o sentido quando aprendemos a escutar o tempo das águas.
Aprendemos a escutar?
Pensando a partir do pensamento do filósofo indígena Ailton Krenak, talvez a escrita analógica seja uma maneira de adiar o fim do mundo. Segundo ele, estamos tão dopados de entretenimento e consumo que nos desconectamos do organismo vivo da Terra. Nesse sentido, quando o lápis toca o papel, voltamos a habitar o corpo (da Terra) e a respirar junto com o gesto. O tempo se alarga. A palavra deixa de ser apenas informação momentânea e volta a ser experiência em terra fértil: algo que brota, cresce, erra o rumo e floresce.
Podemos dizer que escrever, à mão, com o corpo inteiro, com presença, sem a mediação de uma tela, é uma maneira de continuar. Continuar o mundo, continuar a nós mesmos, mesmo quando tudo parece se fragmentar. A escrita analógica nos devolve outros sentidos da duração, da escuta do outro, do encontro com a diferença. Ela nos convida a existir com mais vagar, a reparar nas frestas por onde o sol ainda entra.
Talvez tentar adiar o fim do mundo não seja um grande gesto heroico, mas um pequeno gesto diário que nos conduz a um maior entendimento, e, diante do que vivemos, isso já pode ser muito. Não se trata também de propor soluções individuais para problemas coletivos, mas de reconectar o que foi separado: ouvir os sons diversos que vêm de dentro da gente e da Terra, sem deixar o ego inflado das redes prevalecer, e, nisso, apontar o lápis para escrever outras páginas.
Resistir no mundo do hiperconsumo, do hiperdigital, é fazer uma pausa, mesmo que pequena, sustentar o vazio, mesmo que incômodo e rever o sentido de cada coisa, mesmo que exija tempo. Não sucumbir à força hegemônica do digital, que apesar da promessa de nos aproximar, tanto nos distancia, é tarefa urgente, para que um mundo mais generoso e poético com todos os seres ainda seja possível.
Está aí, então, um convite, uma aposta para escrevermos outra história.
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