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A artista plástica Rubiane Maia: livro terá segunda sessão de lançamento on-line na segunda-feira (29)
A artista plástica Rubiane Maia: livro terá segunda sessão de lançamento on-line na segunda-feira (29). Crédito: João Agelini/Divulgação

A artista plástica Rubiane Maia, entre pés de feijão e livros

Livro que reúne 60 obras da artista que reside em Vitória desde a infância e já realizou performance a convite de Marina Abramović pode ser adquirido gratuitamente

Publicado em 27/03/2021 às 10h00
  • Rosane Preciosa

    É professora do Instituto de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), ensaísta e poeta

Tudo que eu disser aqui decerto ficará muito aquém do que Lindomberto Ferreira Alves realizou com sua leitura e escritura finíssimas dos 60 trabalhos artísticos de Rubiane Maia, reunidos em seus 10 primeiros anos de atividades, de 2006 a 2016, no livro “Rubiane Maia: corpo em estado de performance”, prestes a ter a segunda sessão on-line de lançamento, nesta segunda-feira (29). E que isso não soe como falsa modéstia minha não, é que ele vem rastreando faz tempo essa vida-obra, de modo muito cuidadoso, para não sair legendando os trabalhos artísticos como se fosse possível localizar numa vida de onde saiu uma obra.

É claro que uma vida desdobra em obra, mas a obra, no meu entender, também desmancha o sujeito, reclama que ele seja outro. Uma obra faz suas exigências. Agora, não sabemos se o artista vai querer escutá-las, incorporá-las. De qualquer modo, não me parece que algum artista saiba com precisão de onde vem seu trabalho. Não sabe, há apenas pistas. É um amálgama de coisas que o suscita. Parece ser algo mais ou menos assim: ele é capturado por forças sensitivas que o obrigam a trabalhar. É uma imperiosa necessidade.

Fico pensando muito na criação como ofício, como exercício de vida, empenhado na expansão da existência nos campos subjetivo e social. Um criador, por estar suficientemente comprometido consigo e com seu tempo, busca dar passagem aos rumores desse tempo aos outros, os sintoniza do jeito que pode e, por insistência, desperto ao que vai lhe acontecendo, vai refinando essa escuta no corpo. Se aventura por um caminho sem garantias, já que pode sair de mãos vazias. Não sabe de antemão no que vai dar, experimenta, cumpre essa ordem e se põe em movimento.

Tensionado, o artista busca então decifrar os signos que lhe perturbam e vai inventando, forçando jeitos, não de evadir-se de suas angústias, tampouco de se comprazer com elas, mas de buscar um modo de compor com aquelas forças que ameaçam lhe decompor. Sente, então, que é preciso inventar outros roteiros que lhe devolvam o ar que ameaça lhe faltar. Não apenas seu ar, mas o ar de todos.

De algum jeito, enxergo Lindomberto como um coautor dos trabalhos da Rubiane. Porque, ao atender ao chamamento para decifrar os signos que colocam de pé as obras dela, amorosamente vai doando sentidos, provisórios, afrouxados, mas tramados numa escrita vigorosa, porque não se trata de desvendar um mistério que está lá na obra, mas de fazer vibrar ainda mais esse mistério, sustentando a potência que essa obra tem de se desdobrar em leituras fecundas e transformadoras.

Livro
Livro “Rubiane Maia: corpo em estado de performance”. Autor:Lindomberto Ferreira Alves. Crédito: Divulgação

É que para Lindomberto aqueles trabalhos não são meras informações. São, cada um deles, acontecimentos singulares e que ele procura honrá-los, traçando, também, um caminho singular com sua escuta e escrita agudas.

Encerro essas anotações me reportando à performance de Rubiane Maia, em “O Jardim” (2015). Nesse trabalho, realizado a convite da performer sérvia Marina Abramović, na exposição “Terra Comunal”, no SESC Pompeia (SP), Rubiane se mantém em silêncio por dois meses, 8 horas por dia. Atenta ao momento presente, vê, escuta, sente seu canteiro de feijões brotarem. Ela dedica seu tempo à jardinagem de si mesma e a desses feijões. Sua ação era um convite às práticas do cuidado de si e do outro: seja humano, seja bicho, seja planta, seja um vivente qualquer. Uma performance-fresta capaz de produzir ressonâncias em quem se deixasse afetar.

Quanto aos livros, me vem à memória a canção de Caetano Veloso, “Livros”, em que ele evoca o amor tátil que podemos devotar aos livros. Bonito pensar nessa dimensão corporal, sensorial, compondo o ato da leitura, ao qual comumente relacionamos a uma mera atividade intelectual. Caetano também afirma nessa letra a força incontestável que os livros têm de irradiar mundos no mundo.

A arte faz isso. Pés de feijão e livros, uma utopia boa para a gente jardinar nestes tempos rudes, com farta distribuição de gororobas indigestas demais para o meu gosto.

SOBRE RUBIANE MAIA

Rubiane Maia é natural de Caratinga (MG), mas vive em Vitória desde os quatro anos de idade. Atualmente, ela se divide entre a Capital capixaba e  Folkestone (Reino Unido), além de percorrer o mundo com suas apresentações.

LANÇAMENTO DO LIVRO

A obra “Rubiane Maia: corpo em estado de performance”, de Lindomberto Ferreira Alves, reúne 60 obras dos dez primeiros anos da carreira da artista, iniciada em 2006. O livro terá lançamento on-line nesta segunda-feira (29), mas vagas já estão encerradas. A publicação pode ser adquirida gratuitamente pelo e-mail [email protected]

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