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Vale Música completa 20 anos de valorização dos jovens músicos

Em duas décadas de história, projeto foi primeiro contato com a arte para alguns músicos consagrados, como o fagotista Mauro Júnior

Publicado em 08/12/2020 às 12h17
Orquestra Sinfônica do Conservatório de Tatuí
Orquestra Sinfônica do Conservatório de Tatuí. Crédito: Paulo Rogério Ribeiro/Conservatório de Tatuí

Um instrumento pesado, de madeira e desconhecido para a maioria das pessoas. Esse é o fagote. Você leu certo: f-a-g-o-t-e. Com cerca de 5kg, e um nome exótico, o instrumento musical chamou a atenção do jovem Mauro Sérgio Nunes de Oliveira. O contato com esse estranho objeto aconteceu quando Maurinho, como é chamado pela família, integrou o projeto Vale Música em meados de 2016.

Aos 16 anos, o rapaz se encantou pelo universo da música clássica. Ele já fazia parte da banda marcial da escola estadual Clóvis Borges Miguel, em Serra-Sede. O primeiro instrumento que ele dominou foi o saxofone e não parou por aí. O jovem tinha muitas aspirações e passava horas do dia praticando ou pesquisando sobre músicos de referência. Foi assim que ele chegou aos Colibris: renomada família de instrumentistas capixaba.

O apreço pela música era maior que o menino e a sua vontade em aprender mais era percebida por todos. Certo dia, um de seus amigos sugeriu a ele se inscrever no projeto de música da Vale que, coincidentemente, estava com inscrições abertas. Mauro Júnior deu ouvidos ao sábio amigo, agarrou a oportunidade, fez sua inscrição, realizou a prova e com maestria se tornou um dos pupilos do Vale Música Serra, em 2016. A partir daquele ano, sua vida mudou completamente.

“O projeto foi meu ponto de partida”, conta todo sorridente o rapaz que hoje, aos 22 anos, é estudante com especialização em fagote - o instrumento pesado, estranho e de madeira - de uma das universidades mais renomadas do país, a Universidade de São Paulo (USP). Além de se dedicar aos estudos na USP, ele compõe ainda o Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, o Conservatório de Tatuí, uma das mais respeitadas escolas de música da América Latina.

De fala suave e sorriso largo, Maurinho é o orgulho dos moradores de Itaquara I, na Serra, bairro onde foi criado. Filho da dona Ângela e do seu Mauro, o rapaz tem orgulho de sua origem e sente gratidão por ser um dos frutos do projeto Vale Música que, neste ano, completa 20 anos de história. “Tenho certeza que não serei o primeiro e nem o último aluno do Vale Música a estudar na USP”, garante o rapaz todo otimista com o futuro da próxima geração.

Atualmente, a iniciativa atende 200 pessoas com idades entre 07 e 29 anos, na Estação Conhecimento, em Cidade Continental, na Serra; e 70 crianças de 07 a 11 anos, no Núcleo do Vale Música, no Parque Botânico Vale, em Jardim Camburi, Vitória. Além do Espírito Santo, o projeto abrange também os estados de Minas Gerais, Pará e Mato Grosso do Sul e visa ampliar e fortalecer a formação de crianças, adolescentes e jovens para a música de concerto no Brasil.

UM JOVEM PARA SEGUIR

Mauro Sérgio Nunes de Oliveira é um rapaz aparentemente comum. Primogênito, desde pequeno leva consigo responsabilidades que só quem nasce em uma família simples conhece. De pele negra, o menino se viu diante de escolhas difíceis para quem não tem em sua rede familiar referências de profissionais na música. “Meus pais sempre foram meu maior incentivo. Eles me deram responsabilidades, mas também a liberdade para decidir meu caminho. Porém, foi um pouco difícil para eles quando eu disse que queria ser músico”, lembra.

Em 2017, Maurinho conquistou uma vaga no curso de física na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), uma vaga, também em física, no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e uma em música na USP. Muitas escolhas para o rapaz que, por fim, optou pelo seu sonho: ser músico. No entanto, aos olhos dos pais, essa não parecia ser a melhor opção para o filho mais velho.

“Eles não tinham conhecimento de como é a carreira e que é uma profissão. Eles não tinham essa noção porque isso não fazia parte da vivência deles”, diz todo compreensível com a preocupação dos pais quanto ao futuro profissional do jovem. Mesmo com essas apreensões, a família entendeu que a decisão cabia ao filho. Assim, os pais Ângela e Mauro confiaram ao rapaz o caminho escolhido e, naquele mesmo ano, Mauro Júnior partiu para São Paulo, em busca do seu sonho: ser músico fagotista.

Há três anos, Maurinho vivencia sua aspiração que nasceu em uma sala de aula dentro do Vale Música e seu nome é sempre lembrado por educadores, crianças e adolescentes do projeto que o veem como inspiração. “Em breve, muitos sairão do Vale Música em direção à USP e a tantas outras universidades do Brasil. E quando esse dia chegar, irei pessoalmente buscá-los no aeroporto com a maior alegria e prazer. Eu me sinto muito feliz em ser visto como uma referência para esses jovens. É uma responsabilidade. E minha expectativa é que eles também possam realizar seus sonhos e levar o projeto por onde forem”, assegura o ex-aluno e atualmente professor voluntário do Vale Música.

NÃO SÓ AS CLÁSSICAS

E se você acha que um músico só escuta os clássicos eruditos - muitos deles centenários e com nomes estranhos - como Johann Sebastian Bach, Ludwig van Beethoven, Wolfgang Amadeus Mozart, Ígor Stravinsky ou Heitor Villa-Lobos, você está equivocado.

Primogênito, Maurinho desde pequeno leva consigo responsabilidades que só quem nasce em uma família simples conhece
Primogênito, Maurinho desde pequeno leva consigo responsabilidades que só quem nasce em uma família simples conhece. Crédito: Vale/Divulgação

O jovem Mauro Júnior confessa que, apesar de ouvir com frequência esse gênero por gosto, estudo e trabalho; ele aprecia a boa Música Popular Brasileira (MPB) e curte nomes como Djavan, Ivan Lins, Elis Regina, Chico Buarque, Tim Maia, Seu Jorge e Ed Motta.

E veja bem, Maurinho tem ainda um afeto especial por um famoso grupo paulista de pagode: o Katinguelê. Seja tomando banho ou arrumando a casa, tem sempre um “Inara, Inara, Inara, Inaraí” no radinho do rapaz

Texto: Lorraine Paixão

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