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Tóquio: cultura, tradições e tecnologia nos Jogos Olímpicos

Entenda quais foram os desafios para o Japão sediar uma edição de Olimpíadas em meio à pandemia de Covid-19

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 20/07/2021 às 02h00
Aros olímpicos na frente do Museu Olímpico de Tóquio
Aros olímpicos na frente do Museu Olímpico de Tóquio. Crédito: Bruno Ruas/Folhapress

Conhecido por ser um país sereno, com belas paisagens, mas também um polo tecnológico mundial, o Japão vive em um equilíbrio entre a tradição, traço cultural marcante que acompanha o país do sol nascente desde o tempo dos samurais, e da modernidade, principalmente após o milagre nipônico nos anos 1980. No país, é possível ver tanto as marcas ocidentais advindas da globalização, quanto os fortes hábitos cultivados há séculos de um povo que se agarra fortemente à sua cultura.

Pós-doutorando Edelson Geraldo Gonçalves, que faz parte do Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações Políticas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), explicou que isso aconteceu por conta dos rumos que tomaram a modernização do país. Edelson detalhou que o Japão resistiu à ocidentalização e conseguiu equilibrar as novas culturas do processo de globalização com as tradições milenares. A natureza, a arte e a utilidade são aspectos que demonstram essa resistência à aculturação.

“Um traço nativo notável é o equilíbrio na estética japonesa entre o belo e o útil, como podemos ver na arquitetura, na jardinagem e na culinária japonesas. Diferente do Ocidente, que separa uma coisa e outra, no caso, artes e ofícios. Outro traço importante é a reverência pela natureza, vinda tradição religiosa do xintoísmo, que atribui espiritualidade a todas as coisas, e da qual podemos ver a expressão em locais marcantes, como os santuários e mesmo o Monte Fuji. E não apenas isso, mas também no próprio ambiente familiar, em que a manutenção da família e o culto aos ancestrais tem uma importância central na espiritualidade nativa”, contou. 

O pesquisador ainda destacou as próprias Olimpíadas como traço cultural do país. O Japão já sediou o evento em 1984 e, para Edelson, isso mostra uma abertura do país aos traços ocidentais. "Afinal, um esporte olímpico de destaque é de origem japonesa: o judô. E as Olimpíadas de 1964 foram a grande vitrine para que os japoneses pudessem mostrar ao mundo seu país reconstruído, após a derrota na Segunda Guerra Mundial em 1945, notavelmente marcada pelas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki”, detalhou.

As guerras enfrentadas pelos japoneses ao longo dos anos também contribuíram para a construção da cultura do país. Edelson explicou que os processos de reconstrução após as guerras foram marcados pelo sacrifício da população, mas com auxílio de outros países. O Japão foi um importante aliado dos próprios Estados Unidos na missão de impedir que o comunismo se alastrasse na Ásia durante a Guerra Fria.

Noite em Tóquio é marcada por muitas luzes e cores
Noite em Tóquio é marcada por muitas luzes e cores. Crédito: Pixabay

“A reconstrução se deu através de muito sacrifício e privações para a população, mas também com ajuda externa, principalmente dos EUA, que no pós-guerra viam o Japão como um importante ponto estratégico para a contenção do avanço do comunismo na Ásia, durante a Guerra Fria. Eu diria que um traço importante da cultura japonesa para lidar com a destruição e a reconstrução vem da influência do Budismo sobre a sociedade, principalmente na noção de impermanência, a ideia de que nada é eterno, que a destruição e a morte fazem parte da vida tanto quanto o nascimento e a construção”, argumentou.

Edelson Geraldo Gonçalves

Pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações Políticas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)

"Essa ideia já se mostrava influente na longa tradição histórica desse país com os desastres naturais, como terremotos, tsunamis etc... a destruição que causam e a reconstrução que demandam. Dentro dessa perspectiva a destruição da guerra foi apenas mais um destes episódios na história do país"

OLIMPÍADA EM MEIO À PANDEMIA

Para as Olimpíadas de 2021, porém, os japoneses terão de enfrentar outro desafio: a pandemia da Covid-19. Dados do Centro de Pesquisa do Coronavírus, da Universidade Johns Hopkins, do Reino Unido, apontam que o país possui um baixíssimo percentual de vacinação: apenas 16.87% da população está plenamente imunizada. São 57.350.224 vacinas administradas na primeira dose e 21.296.599 pessoas que obtiveram a imunização plena com as duas doses. Ao todo, o país tem 814.319 casos confirmados de coronavírus e 14.865 mortes em decorrência da doença. 

Edelson explicou que, assim como todos os países do mundo, o Japão também sofrerá com os impactos da pandemia. O pesquisador relatou, porém, que os japoneses já viviam um processo de reconstrução antes mesmo de a doença se espalhar pelo mundo, algo que acontece desde o início dos anos 1980.

“Desde o fim do Milagre Japonês no fim da década de 1980 a população ficou menos disposta a sacrifícios pelo crescimento do país, e a demandar mais direitos trabalhistas e melhorias na qualidade de vida. Além de ter se tornado menos tolerante à corrupção ou incompetência política. O que foi marcado pela explosão de vários escândalos nesses dois campos, desde o início da década de 1990 até hoje. Há muita resistência por parte da opinião pública nacional sobre a realização das olimpíadas nas atuais condições da pandemia e o ritmo lento da vacinação”, disse.

Uso de máscaras permanece obrigatório no Japão
Uso de máscaras permanece obrigatório no Japão. Crédito: Pixabay

O pesquisador citou também que há muita relutância por parte da própria população japonesa em relação à realização dos jogos, justamente por conta do avanço da pandemia sobre o país e o baixo índice de imunização. O fato dos países vizinhos como China, Vietnã e Coréia do Sul terem lidado melhor com a pandemia também causa revolta nos japoneses, como apontou Edelson. Isso poderá ter impacto, inclusive, nas próximas eleições.

“Somando isso a uma perspectiva comparativa do desempenho do governo japonês com os governos de países vizinhos que lidaram muito melhor com a situação, como China, Coréia do Sul e Vietnã, eu suspeito que haverá consequências sobretudo políticas, principalmente a reprovação popular do partido que está atualmente no poder - e na maior parte das últimas sete décadas - o Partido Liberal Democrático. De forma semelhante ao que aconteceu pela percepção da incompetência do governo para lidar com o desastre de Fukushima em 2011, o que em pouco tempo custou o poder ao partido que governava na época, o Partido Democrático”, detalhou. 

Edelson Geraldo Gonçalves

Pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações Políticas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)

"Então eu diria que a atual situação deve encorajar ainda mais as demandas por mudanças e acelerar o processo de renovação do Japão, que já vinha ocorrendo, deixando o país cada vez mais diferente do arquétipo do pós-guerra que ainda o define no imaginário popular mundial"

Nem o governo japonês e muito menos o Comitê Olímpico Internacional conseguiriam prever que uma pandemia atrapalharia os planos de Tóquio de sediar a competição. O objetivo do país foi investir em tecnologias e infraestrutura que seriam capazes de transformar as Olimpíadas de 2020 nos jogos mais modernos da nova era olímpica. Com grandes ambições, o Japão conquistou o COI ao apresentar um projeto futurístico e emblemático para sediar a competição.

GRANDE INVESTIMENTO PARA UM GRANDE DESAFIO

Vila Olímpica está pronta para receber os atletas
Vila Olímpica está pronta para receber os atletas. Crédito: COI/Divulgação

A definição de Tóquio como sede das Olimpíadas veio ainda em 2013, durante a 125ª Assembleia do Comitê Olímpico Internacional, em Buenos Aires, na Argentina. A capital japonesa desbancou Madri, na Espanha, e Istambul, na Turquia, para ser eleita sede dos Jogos de Verão de 2020. A comemoração seguiu a tradicional cordialidade dos japoneses, com os representantes do Comitê Olímpico do país trocando a euforia por abraços singelos e apertos de mão.

Antes mesmo de ser cogitada a possibilidade de uma pandemia mundial no caminho dos Jogos Olímpicos, já havia uma preocupação em relação à escolha do país como sede de um evento tão grande: mais cedo naquele ano, havia sido descoberto um grande vazamento de radioatividade da usina de energia nuclear de Fukushima. A proposta do governo japonês, porém, conquistou o Comitê Olímpico Internacional (COI).

Tóquio colocou todas as fichas nas instalações futuristas, infraestrutura de qualidade e em um sistema de transporte público completo. Um fundo de investimento de 4,5 bilhões de dólares, o equivalente a mais de R$ 10 bilhões na época, foi separado para garantir que o desafio fosse cumprido.

“Creio que Tóquio prevaleceu pela excelente qualidade de sua proposta e também pela experiência das candidaturas anteriores. Eles vieram com bases sólidas”, disse Jacques Rogge, então presidente do COI, no evento que elegeu Tóquio como sede.

Estádio Olímpico de Tóquio vai receber as cerimônias de encerramento e abertura dos Jogos Olímpicos
Estádio Olímpico de Tóquio vai receber as cerimônias de encerramento e abertura dos Jogos Olímpicos. Crédito: Bruno Ruas/Folhapress

O principal palco do evento será o Estádio Olímpico de Tóquio, que irá abrigar as cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos. A arena foi inaugurada em 1958 e já estreou como sede dos Jogos Asiáticos daquele ano. O estádio também foi palco do Campeonato Mundial de Atletismo de 1991, a Copa Intercontinental de Futebol de 1980 até 2001 e as finais da J-League, a liga japonesa de futebol, até 1998, além de sediar a primeira final em jogo único da Liga dos Campeões da Ásia, em 2009. O Estádio Olímpico também recebe as finais da Copa do Imperador e Copa da Liga Japonesa. Ele foi demolido em 2015 e as obras tiveram início no ano seguinte, sendo entregue pelo comitê organizador em 2019.

Outras oito cidades do Japão também irão receber provas durante os Jogos Olímpicos. Chiba, Saitama e Kanagawa fazem parte da região metropolitana de Tóquio. O evento ainda terá outras sedes espalhadas pelo país: Fukushima, Miyagi, Shizouka, Kashima/Ibaraki e Hokkaido/Sapporo.

SAÚDE PÚBLICA SE TORNOU A PRINCIPAL PREOCUPAÇÃO

Quase sete anos depois da escolha de Tóquio como sede dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, o novo coronavírus veio à tona. No dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o surto da Covid-19 como pandemia mundial. Exatos 13 dias depois, em 24 de março, os jogos foram oficialmente adiados pelo COI.

Um comunicado oficial emitido pela entidade após uma teleconferência entre o presidente do COI, Thomas Bach, e o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, sacramentou o adiamento. A nota oficial, porém, garantia a realização do evento até o verão do hemisfério norte de 2021.

“Nas atuais circunstâncias, e com base nas informações fornecidas hoje pela OMS, o Presidente do COI e o Primeiro-Ministro do Japão concluíram que os Jogos da XXXII Olimpíada de Tóquio devem ser remarcados para uma data posterior a 2020, mas o mais tardar no verão de 2021, para proteger a saúde dos atletas, todos os envolvidos nos Jogos Olímpicos e na comunidade internacional”, dizia a nota.

Tóquio possui um visual muito agradável aos visitantes
Tóquio possui um visual muito agradável aos visitantes. Crédito: Pixabay

As estimativas do COI e do governo japonês davam conta de que até 11 mil atletas de, ao menos, 204 países participassem dos jogos. Uma das principais preocupações, porém, era com a presença de público: a estimativa era de até cinco milhões de espectadores presentes nos 43 locais de disputa.

A ausência de público afetaria não apenas a disputa dos jogos em si, mas também a economia das cidades que receberiam competições. Hotéis, restaurantes, bares, comércios locais entre outros não teriam receitas. Os contratos de publicidade com marcas que patrocinariam os jogos também deveriam ser revistos e até cancelados. Em suma, todo o orçamento teria de ser readequado.

Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio seriam os mais lucrativos da história da competição. Apenas em patrocínios, o Japão arrecadou incríveis US$ 3,1 bilhões, ou seja, pouco mais de R$ 15 bilhões, em contratos estabelecidos com 65 empresas. O valor é três vezes maior que o recorde anterior de arrecadação, registrado nas Olimpíadas de Londres, em 2012. Com a venda de ingressos, a expectativa era de arrecadação de US$ 800 milhões, o equivalente a R$ 4 bilhões.

Para azar do COI e também dos fãs que se programaram para estarem em Tóquio, não haverá público nos estádios e arenas durante a competição. A decisão foi tomada na quinta-feira (8), pelo pelo primeiro-ministro Yoshihide Suga, já que a capital do país do sol nascente, que sediará a maioria das modalidades, entrará em estado de emergência por conta do avanço da pandemia do novo coronavírus no Japão.

Público nos estádios deve ficar restrito a poucas cidades
Público nos estádios deve ficar restrito a poucas cidades. Crédito: Gilberto Yoshinaga/Folhapress

Cidades que fazem parte da Grande Tóquio, que são Kanagawa, Chiba e Saitama, também não receberão público nas áreas de competição. Já Fukushima, Miyagi e Shizuoka, que ficam fora da região metropolitana e que não estarão sob estado de emergência, poderão ter 50% da capacidade dos locais de provas, com limite de 10 mil torcedores residentes no Japão. A exceção é Ibaraki/Kashima, que receberá as partidas de futebol: nas competições noturnas, o público estará vetado. Em Hokkaido/Sapporo, o governo ainda discute a permissão ou não da entrada de pessoas nos locais de competição, mas pediu que a população não vá às ruas para apoiar ou acompanhar atletas.

A entrada de estrangeiros nas Olimpíadas está proibida desde março, também em decorrência da Covid-19.

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