Falar sobre os problemas causados por chuvas intensas, tal como tem se dado nos últimos dias no Espírito Santo é (desculpem o trocadilho) “chover no molhado”.
O conhecimento da história, tal como defendeu Jacques Le Goff, tem como objetivo conhecer o passado, para atuar no presente, visando um futuro promissor, isto é, fazer do mundo que vivemos um lugar melhor graças aos conhecimentos acumulados ao longo do tempo.
As consequências dos temporais, com grande volume de água, que provocaram situações dramáticas por conta de deslizamentos de terra, desmoronamento de edificações, casas invadidas por águas sujas e contaminadas, rios transbordando, famílias desalojadas, desabrigadas ou que perderam todos seus pertences e, o pior de tudo, pessoas mortas, são fatos recorrentes que poderiam ser evitados caso a população e as administrações públicas fossem atentas à história e não cometessem os mesmos erros ocorridos antes.
Quando as chuvas são torrenciais, as partes frágeis do território ocupado pelo homem são justamente as cotas extremas: os morros e os fundos de vale. Na encosta dos morros, as edificações possuem pouca estabilidade e o solo encharcado, principalmente quando o solo é argiloso, se torna mole, pesado e acaba cedendo com facilidade e deslocando-se pra baixo, levando tudo que estava em cima e abaixo dele.
Por outro lado, as cotas baixas, como são os fundos de vale onde normalmente estão os cursos d’água, recebem o excedente de toda a água que cai do céu e, em consequência disso, logo vê córregos e rios transbordarem e invadirem tudo que está pela frente. E aí com a água e lama vindo de cima e de todos os lados, trazendo lixo, galhos, pneus, e com a população no meio disso tudo, desenha-se a tragédia.
É claro que todos os problemas começam com a ocupação de áreas irregulares, inadequadas para o assentamento de pessoas, como são as proximidades de cursos d’água ou as encostas dos morros. Não bastasse que terrenos inadequados sejam ocupados, as construções também são irregulares e possuem sistema estrutural frágil, pois a maioria delas foram executadas sem acompanhamento de arquitetos ou engenheiros.
Aqui é importante ressaltar que, em muitos dos casos, a legislação já proíbe a ocupação de tais áreas, de tal modo que se nelas existem imóveis edificados, é por que houve omissão do órgão público responsável por fiscalizar e, quando for o caso, penalizar, embargar, desocupar e/ou demolir.
A ausência de redes de drenagem é outro ponto que contribui para as enchentes, pois as águas pluviais precisam ser adequadamente captadas e escoadas, o que não ocorre na maioria das cidades capixabas. Por outro lado, caso houvesse uma boa rede de drenagem, os municípios poderiam usar a água coletada, diminuindo o consumo de água tratada fornecida pela concessionária.
Ao conjunto desses problemas se somam o descaso da própria população com o ambiente na qual ela vive, pois é comum que moradores de tais áreas descartem de modo inadequado o lixo comum e os resíduos em geral, incluindo até móveis, eletrodomésticos e entulhos de obras.
Mesmo em bairros de alta renda, como a Praia do Canto ou Santa Helena, em Vitória, moradores que possuem cachorros, saem pra passear com eles e quando os animais defecam, até catam os excrementos, colocando-os em sacos plásticos, porém, ao invés de descartarem corretamente, simplesmente deixam os sacos pendurados nas árvores da região. Com as chuvas, os sacos se rompem, correm para os bueiros, provocando a obstrução deles e, em consequência, comprometem o escoamento da água da chuva. Enquanto isso, as fezes dos cachorros...
É claro que na hora da tristeza, da tragédia, em primeiro lugar vem a generosidade e o altruísmo humano, que busca ajudar aqueles que tiveram suas vidas afetadas. Em seguida, porém, começa-se a procurar os culpados. Em alguns casos é o mordomo, em outros o governo, o vizinho ou até Adão, que nos condenou a viver fora do Paraíso. Por ora, pode-se dizer que foi São Pedro quem mandou tanta água do céu.
E assim ficamos até que venha a próxima chuvarada...