Publicado em 10 de fevereiro de 2026 às 14:09
Na próxima vez que você olhar para uma Lua cheia, lembre-se de Theia.>
Esse é o nome que os cientistas deram a um planeta hipotético que pode ter colidido com a Terra jovem há 4,5 bilhões de anos, liberando um fragmento que se tornaria a nossa Lua.>
De acordo com essa teoria, sem o "sacrifício cósmico" de Theia, não teríamos nosso satélite natural permanente — e você talvez nem estivesse lendo este artigo.>
Atualmente, os cientistas acreditam que uma enorme colisão entre a Terra e um objeto do tamanho de Marte liberou material suficiente para que este se aglomerasse e formasse a Lua.>
>
Chamada de hipótese do impacto gigante, o evento também deu início a uma relação cuja importância para a vida como a conhecemos não pode ser subestimada. Entre outras coisas, a Lua exerce uma força gravitacional semelhante a um cabo de guerra com o nosso planeta, que, ao longo de bilhões de anos, estabilizou a Terra enquanto ela girava em seu eixo, o que contribuiu para a estabilidade do nosso clima.>
"Sem a estabilidade climática, teríamos condições climáticas e meteorológicas muito mais extremas, o que não seria bom para o desenvolvimento da vida", explica Thorsten Kleine, planetólogo do Instituto Max Planck de Pesquisa do Sistema Solar, na Alemanha.>
Kleine fez parte de uma equipe internacional de pesquisadores que, em novembro passado, tentou esclarecer esse encontro marcante e misterioso da Terra.>
Em um artigo publicado na revista Science, a equipe analisou a composição química de amostras da Terra e da Lua e reforçou as teorias de que Theia e nosso planeta eram o que poderíamos chamar de "vizinhos" em um momento caótico da formação do Sistema Solar.>
Mas nem sempre Theia foi tratada como hipótese principal como origem da Lua.>
Antes de os humanos pisarem pela primeira vez na superfície lunar em 1969, havia três outras hipóteses principais.>
De acordo com a teoria da fissão, a Lua se formou quando a Terra, girando rapidamente, soltou um pedaço seu no espaço.>
A teoria da captura propunha que a Lua se formou em outro lugar do Sistema Solar e foi "laçada" pela gravidade da Terra ao passar por perto.>
E existe também a teoria da coformação — de que a Terra e a Lua se originaram e se estabilizaram lado a lado.>
Em vez de esclarecer qual dessas teorias seria a mais provável, as missões Apollo da Nasa apontaram para uma ideia completamente nova.>
Embora o heroísmo de Neil Armstrong e de outros astronautas que pousaram na Lua seja mais associado à chegada dos humanos à Lua, as missões Apollo foram importantes também pelo conteúdo que eles trouxeram de lá.>
"Os astronautas da Apollo trouxeram amostras de rochas lunares e, quando os cientistas as analisaram, descobriram que as rochas da Lua apresentavam notáveis semelhanças químicas com a Terra", diz Raman Prinja, astrônomo do Universe College London e autor do livro infantil de ciências Maravilhas da Lua.>
Isso sugere que a Lua pode ter se originado da Terra.>
Prinja afirma que as rochas apresentavam sinais de terem sido formadas sob calor extremo, sugerindo que elas se originaram de um impacto massivo.>
Elas pareciam ter perdido grande parte dos elementos que vaporizam facilmente quando aquecidos, o que indica que a Lua estava em estado líquido quando se formou.>
Sarah Valencia, geóloga lunar da Nasa, acrescenta que as pistas fornecidas pelas amostras são apenas a ponta do iceberg. Os avanços tecnológicos das últimas décadas, especialmente na modelagem computacional, fortaleceram a hipótese do grande impacto. Existem até teorias de que a inclinação do eixo da Terra seria uma consequência da colisão com Theia.>
"A teoria do impacto gigante continua sendo o melhor modelo para explicar a química e a relação entre a Terra e a Lua", diz Valencia.>
Mas o que aconteceu com Theia?>
Este é um dos grandes mistérios. Ao contrário do famoso asteroide que atingiu a Terra há 65 milhões de anos — dizimando os dinossauros e deixando uma enorme cratera na Península de Yucatán, no México — Theia não parece ter deixado vestígios óbvios.>
Por quê? Kleine afirma que Theia tinha cerca de 10% da massa da Terra, e essa diferença significa que ele teria sido fragmentado com o impacto e em grande parte absorvida pela Terra. Um pedaço do planeta pode também ter se tornado parte da mistura que formou a Lua.>
"Este seria o resultado natural de uma colisão desse tipo. Mas esperaríamos encontrar uma assinatura composicional de Theia na Lua, o que ainda não encontramos", diz o cientista.>
"Uma explicação é que a Terra e Theia eram muito semelhantes porque se formaram na mesma região do Sistema Solar", acrescenta ele, e, portanto, difíceis de distinguir.>
Da mesma forma, sabemos que nosso planeta tem muitas características em comum com dois de seus vizinhos mais próximos, Vênus e Marte. Vênus é até mesmo chamada, às vezes, de "gêmea maligna da Terra".>
"Mas, assim como a origem de Theia não é conhecida conclusivamente, seu destino também não é", alerta Valencia.>
Existem algumas pistas, no entanto. Um estudo de 2023 afirmou que duas áreas do tamanho de continentes, nas profundezas da Terra, eram remanescentes de Theia.>
Ainda há muito a aprender sobre como o nosso planeta e a Lua se tornaram um "casal", e essa é uma das razões pelas quais os cientistas estão tão entusiasmados com as atuais missões Artemis da Nasa e com o retorno humano à Lua.>
Além de experimentos mais avançados do que os possíveis na era Apollo, as missões mais recentes explorarão novas regiões da Lua, como o Polo Sul. As amostras lunares trazidas de volta à Terra pela Apollo vieram de uma área relativamente pequena da Lua — a região equatorial do lado visível.>
"Se fôssemos apenas a seis lugares na Terra, poderíamos dizer que exploramos toda a Terra e entendemos sua evolução? Claro que não! A Lua tem um potencial científico infinito", diz Valencia.>
Mas, por enquanto, com o que já aprendemos, podemos dizer que devemos um enorme agradecimento a Theia por seu sacrifício.>
>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta