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De vitrine do PT a fortaleza do bolsonarismo: o que explica a metamorfose eleitoral do Sul?

De vitrine do PT a fortaleza do bolsonarismo: o que explica a metamorfose eleitoral do Sul?

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil explicam como o antipetismo cresceu no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Publicado em 10 de fevereiro de 2026 às 14:09

Imagem BBC Brasil
Região Sul deu uma guinada política, favorecendo o bolsonarismo Crédito: Getty Images

25 de janeiro de 2001. À frente de uma marcha de milhares de pessoas sob uma temperatura de 34ºC, o presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, o governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, o prefeito Tarso Genro e outras personalidades da esquerda brasileira e mundial declaram aberto o 1º Fórum Social Mundial.

Idealizado pelo governo gaúcho, o evento pretendia oferecer um contraponto aos efeitos da globalização celebrada pelo Fórum Econômico Mundial de Davos, Suíça.

"Vamos mostrar ao mundo que é possível construir uma alternativa ao neoliberalismo", disse Lula, ovacionado pelos participantes da marcha.

26 de maio de 2019. Milhares de manifestantes reúnem-se em apoio ao presidente Jair Bolsonaro, eleito no ano anterior com base em uma plataforma de direita.

"Previdência de Guedes [Paulo Guedes, então ministro da Economia]", "Anticrime de Moro [Sergio Moro, então ministro da Justiça] e Lava Toga [referência a uma ação contra o Supremo Tribunal Federal nos moldes da operação Lava-Jato]", diziam algumas das faixas espalhadas pela multidão.

"Nós precisávamos passar por um processo traumático no nosso país, infelizmente governados por autoritários que fizeram a maior roubalheira da história desta nação e cujo líder da gangue hoje está preso em Curitiba", disse o deputado federal Marcel van Hattem (então no Novo), principal orador do comício.

Pouco mais de 18 anos separam no tempo as cenas descritas acima, mas no espaço físico não houve mudança: ambas ocorreram em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.

Na primeira, em 2001, o Estado mais meridional do país era governado pelo PT, que também ocupava a prefeitura da capital e de outros 34 municípios, de um total de 497.

No ano seguinte, Lula obteria 55,8% dos votos válidos gaúchos no segundo turno da eleição presidencial, ante 44,1% de José Serra (PSDB).

Na segunda, o Rio Grande do Sul era governado por Eduardo Leite (então no PSDB), que no ano anterior havia declarado voto em Bolsonaro.

O então presidente havia carreado 63,2% dos votos válidos no segundo turno da eleição do ano anterior, contra 36,7% dados a Fernando Haddad (PT), indicado por Lula.

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Fórum Social Mundial, que teve participação de Lula nos seus primeiros mandatos como presidente, tentou ser um contraponto ao Fórum de Davos Crédito: Getty Images

Três anos antes, o PT elegera prefeitos em 23 municípios gaúchos, equivalentes a menos de um terço do número de 2001.

Na primeira década deste século, o peso eleitoral da esquerda no Sul não se limitou ao Rio Grande: em 2002, Lula venceu em Santa Catarina e no Paraná.

Já em 2006, ainda que tenha sido derrotado no segundo turno por Geraldo Alckmin (então no PSDB), o petista obteve 45,4% dos votos catarinenses e 49,2% dos paranaenses.

Esse percentual caiu para 37,6% no Paraná e 30,73% em Santa Catarina nas eleições de 2022, quando Lula concorreu contra Bolsonaro.

No caso de Santa Catarina, a região não apenas se tornou terreno fértil para o bolsonarismo — o filho "04" do ex-presidente, Jair Renan, foi eleito vereador por Balneário Camboriú em 2024 —, como também campo de disputa dentro do movimento.

O episódio, mais recente, colocou em lados opostos outro filho do ex-presidente, Carlos Bolsonaro, e a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro.

Carlos anunciou que deve disputar uma vaga no Senado pelo Estado com o Partido Liberal, dificultando a candidatura da atual líder nas pesquisas para a mesma vaga, a deputada federal Carolina de Toni, que é apoiada por Michelle.

Diante da intenção do PL de destinar a segunda vaga de sua coligação a Esperidião Amin, De Toni perdeu espaço no partido.

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Carlos Bolsonaro deve disputar vaga no Senado por Santa Catarina, dificultando a candidatura de Carolina de Toni, que é apoiada por Michelle Bolsonaro Crédito: Reuters

A dinâmica chama atenção especialmente porque a Região Sul, que concentra cerca de 13,3% da população e 14,7% do eleitorado do país na atualidade, está desproporcionalmente representada na história da esquerda brasileira.

No século 19, abrigou algumas das primeiras colônias inspiradas em ideias socialistas utópicas e anarquistas no Brasil, como a Colônia do Saí, em 1841, em Santa Catarina, e a Colônia Cecília, em 1890, no Paraná.

A greve geral nacional de 1917 teve importantes focos no Paraná e no Rio Grande do Sul — em Santa Maria (RS), a Brigada Militar dispersou à bala um comício pacífico de ferroviários, com saldo de três mortos, incluindo uma mulher e uma criança.

Porto Alegre esteve representada entre os nove fundadores do Partido Comunista do Brasil (PCB), com o barbeiro e ex-anarquista de origem libanesa Abílio de Nequete, primeiro secretário-geral da agremiação.

O Rio Grande foi o berço da Coluna Prestes, em 1924, e do Movimento pela Legalidade, em 1961, além de ter ajudado a gestar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Esses e outros movimentos tiveram como coluna vertebral o tenentismo de Luís Carlos Prestes (mais tarde líder comunista histórico), o trabalhismo de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola e o petismo de Olívio Dutra e Tarso Genro.

No final do século 20, quando se inicia o ciclo de administrações do PT em Porto Alegre, a capital gaúcha ganha fama internacional graças ao Orçamento Participativo e ao Fórum Social Mundial.

Diante desse histórico de ideias e movimentos libertários, rebeldes e de esquerda, o que explica a guinada do Sul à direita no início do século 21?

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam uma série de razões para a metamorfose, desde elementos internos, como o modelo de industrialização particular do Sul e sua influência nas relações de trabalho, que fizeram da região um solo fértil para ideais igualitários e socialistas, até fatores mais amplos, como o antipetismo que cresceu nas camadas médias brasileiras em anos recentes.

Tradição à esquerda criou ambiente favorável ao PT

A Região Sul incorporou-se de maneira tardia ao Brasil, por meio de expansão militar e ocupação irregular do solo, com amplo recurso à colonização por meio de migrantes europeus e asiáticos.

A área mais próspera, até a segunda metade do século 19, foi a do pampa gaúcho, onde predominava a criação de gado em latifúndios (estâncias), que deu origem à primeira indústria da região, as charqueadas (fábricas de carne salgada com trabalho escravo).

Embora essa fosse a região militarmente mais vulnerável a ataques vindos da região do Prata, a concentração de terras nas mãos dos estancieiros, a maioria de oficiais ou ex-oficiais coloniais e imperiais, impedia o assentamento de colonos.

Restou aos agricultores importados pelo Império do Brasil a região de serras e matas habitadas por indígenas às margens de rios no norte do Rio Grande do Sul e no interior de Santa Catarina e Paraná.

Sem dispor de escravos e unidos por laços culturais e religiosos, esses migrantes criaram colônias onde vicejaram as primeiras indústrias de bens de consumo destinadas às metrópoles da região: banha, queijo, madeira, vinho e, mais tarde, máquinas.

Surgiram assim polos industriais como os das regiões de colonização italiana e alemã no Rio Grande do Sul e do Vale do Itajaí em Santa Catarina, onde se concentravam trabalhadores industriais interessados em temas como salário, organização e benefícios sociais, temas preferenciais de partidos e organizações de esquerda.

Ao mesmo tempo, no Rio Grande do Sul, as raízes ideológicas da corrente política governante por quatro décadas (de 1890 a 1930), o positivismo castilhista-borgista, enfatizavam a necessidade de progresso social por meio da colaboração entre patrões e empregados.

Para o professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Leonardo Avritzer, mudanças econômicas e demográficas ajudam a compreender o que se passa nas urnas sulinas, especialmente no Rio Grande.

Duas peculiaridades da formação gaúcha, que explicam seu perfil político ao longo dos séculos 19 e 20, deixaram de existir, explica o pesquisador.

"A primeira foi uma industrialização de padrão diferente do Sudeste, com um mercado interno regional importante e, ao mesmo tempo, relações de trabalho relativamente mais igualitárias, ligadas tanto à imigração quanto ao próprio movimento político do início do século 20, com o castilhismo e depois com Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola", enumera.

"Esse processo acaba criando um outro padrão de população, com mudanças no sistema educacional e em muitos outros setores."

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Para pesquisador, movimentos de líderes como Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola (na foto com Lula) explicam o perfil político do RS no passado Crédito: Getty Images

Outro fator assinalado pelo professor da UFMG é a decadência econômica de longo prazo do Rio Grande do Sul, que se inicia no final do regime militar (1964-1985).

Segundo Avritzer, a Região Sul tem uma trajetória majoritariamente conservadora desde a redemocratização.

"Desde 1985, quem não era conservador [entre os Estados do Sul] era o Rio Grande do Sul, único Estado em que Fernando Henrique Cardoso perdeu a reeleição em 1998", afirma à BBC News Brasil.

Entre os motivos do realinhamento a partir da segunda década deste século, Avritzer cita o aumento da influência de correntes religiosas neopentecostais, especialmente em Santa Catarina e Paraná, onde já havia forte presença do protestantismo luterano baseado nas comunidades de origem alemã.

Giro à direita

Essas características acabaram, segundo Avritzer, "jogando água no moinho das forças de esquerda", que conquistam o governo do Estado com o PDT, em 1990, e com o PT, em 1998, além de administrar a capital e grandes municípios do interior como Caxias do Sul.

A antropóloga e professora de Estudos Globais da University College Dublin Rosana Pinheiro-Machado, afirma que no Rio Grande do Sul sempre coexistiram forças conservadoras e alternativas.

"O trabalhismo, o PT e as elites e forças populares dos anos 1980 pós-ditadura ajudaram a puxar o pêndulo para um lado", explica ela, e com a ascensão da direita radical "ocorre o movimento inverso, seguindo maré nacional", observa.

À primeira vista, segundo Rosana, a capital gaúcha poderia ser vista como um "estereótipo mundial de direitização" em razão da conversão de parte significativa de seu eleitorado ao bolsonarismo depois de ter se celebrizado pela ideia de que "outro mundo é possível", slogan do Fórum Social.

"Porto Alegre era, em certo sentido, o outro mundo possível a partir de uma ideia de democracia direta."

A mudança do pêndulo, porém, não foi brusca, mas entremeada por mais de 10 anos de administrações de partidos como MDB e PDT.

"Após anos de tradição petista, houve uma aposta na tradição centrista", descreve a professora, enfatizando que esse movimento coincidiu com o esgotamento de um modelo de administração local corroído pela crise econômica e os limites do Orçamento Participativo.

O professor do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Julian Borba agrega outro elemento, desta vez de caráter nacional, a esse quadro: a mudança do perfil demográfico do eleitorado do PT a partir do pleito presidencial de 2006.

"Se em 2002 Lula sai vitorioso sobretudo no Sul e no Sudeste, em 2006 há um deslocamento muito forte de seu voto para o Nordeste", destaca à BBC News Brasil.

Esse deslocamento corresponde, no entendimento de Borba, ao efeito dos programas sociais do primeiro governo Lula (2003-2006), que têm forte impacto na população nordestina.

"Enquanto isso, a base histórica de classe média e classe média alta do PT no Sul e no Sudeste começa a abandonar o partido, sobretudo em razão de denúncias de corrupção."

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O Rio Grande do Sul é governado por Eduardo Leite, que em 2018 declarou voto em Bolsonaro Crédito: Getty Images

Essa dinâmica, na opinião do pesquisador, é mais social do que regional em seu início.

"O [componente] regional acaba sendo uma consequência daquilo que vai acontecer no campo da mudança da base social do partido, especialmente se avaliarmos a relação entre os campos identificados como PT e anti-PT", analisa.

À parte esses traços nacionais, Borba identifica no Rio Grande do Sul o embrião de uma sistematização do antipetismo em termos intelectuais no início dos anos 2000.

"O antipetismo vai receber [no Rio Grande do Sul] um tratamento intelectual que depois vai se espraiar, como diz Olívio Dutra, para outros contextos e formadores de opinião."

Entre os autores que se dedicam a essa sistematização do pensamento antipetista, Borba elenca os professores Denis Lerrer Rosenfield e José Antônio Giusti Tavares, ambos da UFRGS.

"Giusti Tavares publica uma obra intitulada O totalitarismo tardio, que vai tentar mostrar como havia um projeto autoritário e até totalitário no PT", observa.

Conforme Rosana Pinheiro-Machado, o movimento pendular do eleitorado em Porto Alegre em direção ao bolsonarismo não se resumiu à classe média, mas atingiu áreas periféricas como o Morro da Cruz, um dos berços do Orçamento Participativo petista, onde realizou pesquisas por uma década.

"Vimos isso [a simpatia por Bolsonaro na periferia], vimos como a memória do Orçamento Participativo se perdeu totalmente, ainda que tenha persistido uma certa memória do lulismo."

A antropóloga afirma que o fenômeno determinante, nessas áreas, foram os fatores nacionais e não os locais.

"O que foi preponderante foi a crise nacional, foi a massa de desinformação, foi o golpe [o impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016], foi o limite da política de substituir a participação direta pelo modelo lulista de inclusão pelo consumo e pela financeirização", analisa.

A professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Silvana Krause alerta para a necessidade de se distinguir não apenas as esferas federal, estadual e municipal, mas também as diferenças regionais no interior dos próprios Estados ao analisar dados eleitorais.

"Há tradicionalmente um peso muito maior do trabalhismo do PTB e de seu herdeiro, o PDT, e, mais tarde, do petismo em Porto Alegre e na Região Metropolitana do que no Interior", diz Silvana à BBC News Brasil.

Mesmo fora da capital, acrescenta, há diferenças entre o comportamento do eleitorado nas regiões de colonização alemã e italiana e no restante do Estado.

Disrupção

Em toda a Região Sul, há diferenças importantes entre as tendências eleitorais nas eleições presidenciais, por um lado, e nas eleições legislativas federais e estaduais e para os Executivos de Estados e municípios.

Ainda assim, por vezes as três esferas comportaram-se mais como vasos comunicantes do que como ilhas desvinculadas.

Oscilações do eleitorado por regiões são comuns em grandes democracias.

É o que mostram os antigos redutos esquerdistas de Nord-Pas-de-Calais e Hauts-de-France, na França, da Andaluzia, na Espanha, e da Emilia-Romagna, na Itália, que nas últimas décadas foram palco de crescimento expressivo da direita radical.

Essas migrações eleitorais costumam ser vistas como efeitos de metamorfoses sociais, políticas e culturais de grande escala, como desindustrialização, nacionalismo e desgaste após décadas de governos de uma corrente ou partido.

Essas peculiaridades ajudam a compreender o fato de que, embora Bolsonaro tenha sido o mais votado no Estado em 2018, Leite tenha chegado ao Palácio Piratini no mesmo pleito.

Adversário do então tucano no segundo turno, o então governador e candidato à reeleição José Ivo Sartori (MDB) era o mais identificado com o então candidato presidencial vitorioso.

"Apesar de tudo, o Rio Grande do Sul nunca elegeu pelo voto direto um governador de direita", observa.

O mesmo raciocínio não se aplica a Porto Alegre, onde o prefeito Sebastião Melo (MDB) elegeu-se duas vezes com um perfil fortemente bolsonarista, afirma Silvana.

Além da dicotomia direita-esquerda, a professora da UFRGS chama atenção para um outro fenômeno que pode ajudar a compreender o que se passa no Sul: o choque entre forças disruptivas e antissistema (como o bolsonarismo a partir de 2018) e a estrutura partidária tradicionalmente forte na região.

"Oligarcas e líderes cumprem um papel importante nos partidos", afirma Silvana.

"Eles atuam para proteger suas organizações de aventureiros externos, que podem desestruturar o partido e levá-lo a aventuras, inclusive autocráticas."

O caso de Donald Trump, inicialmente um forasteiro que se impôs sobre máquina do Partido Republicano nos Estados Unidos, é exemplo de disrupção, conforme a professora.

Por outro lado, as dificuldades atuais na composição de palanques pró-bolsonarismo no Rio Grande do Sul (onde uma franja do Progressistas resiste à aliança em torno do candidato a governador Luciano Zucco, do PL) e em Santa Catarina (onde Progressistas, MDB e PSD resistem ao núcleo em torno do governador Jorginho Mello, do PL) indicariam a resiliência de lideranças mais tradicionais.

Silvana adverte para o uso por vezes abusivo do conceito de polarização no debate político.

"É preciso ter um pouco de cuidado com a ideia de que existe uma polarização calcificada no Brasil e, nesse aspecto, também no mundo."

A pesquisadora propõe distinguir entre duas formas de polarização: de demanda (baseada nas necessidades e impulsos do eleitorado) e de oferta (relacionada a uma gradação política entre os partidos existentes).

"O que temos visto é muito mais uma polarização de oferta, com os partidos tendo dificuldade de apresentar alternativas aos eleitores."

A recente movimentação do PSD, com três potenciais candidatos à Presidência (os governadores Ronaldo Caiado, de Goiás, e Ratinho Jr., do Paraná, além de Leite) como alternativa a Lula e Flávio Bolsonaro (PL), é vista por Silvana como uma tentativa de responder a esse problema.

Imagem BBC Brasil
Ratinho Júnior, governador do Paraná (na foto com Bolsonaro), é um dos potenciais candidatos à Presidência este ano Crédito: Getty Images

Para o professor do Curso de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP) Pablo Ortellado, um dos aspectos interessantes da conversão política no sul do país é o fato de a transformação ter ocorrido de forma acentuada após anos de relativa estabilidade.

"A agulha foi de um lado para outro após ter ficado constante por cerca de 15 anos", ressalta à BBC News Brasil.

Ressaltando que suas reflexões sobre o assunto têm caráter especulativo, Ortellado afirma que uma das características marcantes de setores que se identificam com o antipetismo a partir de 2014 é a desilusão.

"São parcelas que foram muito identificadas [com o PT] no passado e se sentiram traídas pela sucessão de escândalos como o mensalão e a Petrobras", explica.

"Há um conjunto grande de pessoas que colocou sua confiança [no PT] durante muito tempo, sobretudo nas administrações locais, e ficaram ressentidas."

Contribui para esse sentimento, de acordo com o professor, o fato de o partido nunca ter reconhecido de fato as práticas de corrupção.

Essa atitude do PT, na avaliação de Ortellado, explica-se em razão de vários escândalos terem envolvido figuras centrais da sigla.

"Reconhecer [o envolvimento desses líderes] seria abrir mão de todo esse legado, de toda essa liderança."

'Ressentimento' de eleitores

O resultado disso, diz o professor, é um "ressentimento muito grande não apenas por [o PT] ter errado, mas jamais ter reconhecido que errou".

Ortellado afirma que o fato de dois governadores de Estados do Sul serem pré-candidatos à Presidência coaduna-se com o histórico de protagonismo político da região.

"O que foi atípico foi o longo predomínio de quadros de São Paulo no período que vai de 1994 a 2010", opina.

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