Publicado em 20 de agosto de 2025 às 05:25
O Cearáexportou US$ 93,8 milhões em pescados em 2024, o maior valor entre todos os Estados do país, conforme os dados do Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).>
Contêineres abastecidos especialmente de lagosta, atum e os chamados peixes vermelhos (pargo, cioba, ariacó, guaiúba) foram embarcados para 44 países.>
O principal mercado, de longe, foram os Estados Unidos, destino de 46,85% do total (US$ 52,8 milhões).>
A concentração fez o setor de pescados cearense ganhar atenção no noticiário em meio às discussões em torno da sobretaxa de 50% imposta pela gestão de Donald Trump a milhares de produtos brasileiros.>
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Depois de ferro e aço, a categoria é a segunda mais importante no comércio bilateral entre os EUA e o Ceará, Estado que envia 44,9% de tudo o que vende para o exterior para os americanos e que, por isso, deve ser o mais afetado em termos proporcionais pelo tarifaço americano.>
Apesar de ser fortemente exportadora, a indústria de pescados do Ceará não é abastecida por embarcações robustas servidas por ferramentas tecnológicas.>
Por trás dos grandes números, na ponta inicial da cadeia de produção estão cerca de 32 mil pescadores artesanais, conforme os registros do Ministério da Pesca e Aquicultura.>
São homens em sua maioria com pouca instrução, que muitas vezes passam dias no mar em embarcações de pequeno e médio porte que geralmente pertencem a terceiros e vendem praticamente tudo o que produzem a intermediários na praia, chamados localmente de "marchantes", ou aos donos dos barcos.>
Conforme os especialistas e trabalhadores do setor ouvidos pela BBC News Brasil, são essas duas figuras que, via de regra, repassam os pescados para a indústria, que faz seu beneficiamento e os distribui ao mercado interno ou vende ao exterior.>
Dos 32 mil pescadores artesanais reunidos no Painel Unificado do Registro Geral da Atividade Pesqueira e cadastrados no Ceará, 88,5% (28.931) têm renda mensal inferior a R$ 1.045 e 60% (19.646) têm ensino fundamental incompleto.>
Cerca de 25% (8.378) trabalham embarcados e aproximadamente 36% (11.881) são mulheres.>
"Recentemente ouvi de alguns deles que, quando a pesca é boa, eles tiram um salário mínimo por mês — isso trabalhando dois períodos, de manhã e à tarde", diz Caroline Feitosa, professora do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará (UFC), referindo-se a dados que coletou em trabalho de campo no último mês de março.>
A pesquisadora explica que o nível de infraestrutura de que os pescadores artesanais do Ceará dispõem para trabalhar varia conforme o tipo de atividade à qual eles se dedicam.>
Aqueles que abastecem o mercado interno são os que geralmente usam embarcações bastante simples, à vela ou movidas por um motor de rabeta e sem sistema de refrigeração a bordo.>
"Mas mesmo esse pescador se desloca muito hoje em dia", ressalta a professora. "Ele percorre praticamente toda plataforma continental [porção que vai da costa até o início da parte mais profunda do oceano]", completa.>
Nesses casos, o que é pescado geralmente é comercializado na praia, vendido a atravessadores que vão distribuir para as barracas de praia, mercados e restaurantes.>
No outro extremo está a pesca de espécies como o atum, que é bastante voltada à exportação e pode acontecer em embarcações um pouco maiores e "mais confortáveis", munidas de equipamentos como GPS e sonda e com autonomia para ficar até 40 dias no mar.>
Nesse nicho, os donos dos barcos geralmente negociam diretamente com a indústria a compra do que for pescado. >
Boa parte das embarcações de médio porte usadas na captura para exportação de outros peixes, contudo, é mais simples: "Eles usam basicamente um GPS, marcação em pontos de terra [usadas como referência]...e a experiência.">
E há, ainda, a pesca da lagosta, que também é muito voltada para o mercado externo e que pode acontecer com pequenos botes motorizados e até jangada, ainda de acordo com a pesquisadora, que é também coordenadora do Laboratório de Dinâmica Populacional e Ecologia de Peixes Marinhos (Dipemar), que se dedica ao estudo da pesca artesanal.>
Independentemente da dinâmica de trabalho, Feitosa ressalta que os pescadores são o elo mais vulnerável da cadeia e, por isso, correm o risco de sentir os principais efeitos negativos do tarifaço.>
"O pescador é quem mais trabalha, quem mais sofre e quem menos ganha", ela pontua.>
O diretor técnico e presidente do Coletivo Nacional da Pesca e Aquicultura (Conepe), Carlos Eduardo Villaça, faz análise parecida. Dada a importância da exportação na atividade de pesca no Estado, "todos esses pescadores vão ser impactados de alguma forma" pela tarifa de 50% imposta aos produtos embarcados aos EUA, ele avalia.>
No momento, as colônias de pescadores do Ceará tentam entender como esse impacto vai se desenhar.>
Ainda que o tarifaço tenha entrado em vigor no último dia 6 e que a embarcação de alguns contêineres de pescado tenha sido suspensa, o efeito dominó de uma possível redução das vendas aos EUA ainda não foi plenamente sentido nessa ponta da cadeia. >
A pesca no Ceará geralmente arrefece nesta época do ano, marcada por fortes ventos no litoral.>
Maria Cristina de Sousa, presidente da Colônia de Pescadores Z-8 de Fortaleza, conta que muitos a têm questionado nos últimos dias sobre o que esperar, depois de terem "escutado alguma coisa na televisão ou de terem ouvido de parentes" que seu trabalho poderia ser negativamente afetado por uma decisão do presidente dos EUA.>
"Eles estão assustados", diz ela, que foi marisqueira, é filha de pescador e desde o ano passado representa 2,6 mil pescadores artesanais da capital cearense.>
O assunto, segundo Sousa, vai ser discutido na próxima segunda-feira (25/8) em uma reunião entre pescadores, proprietários de barcos, empresários e agentes do poder público na sede da colônia.>
Um dos temores dos pescadores é que eles sejam pressionados pelos intermediários a vender o que tiram do mar a preços ainda mais baixos do que os praticados hoje.>
Esse é um cenário possível, na avaliação de Felipe Matias, que é cientista-chefe da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Agrário do Ceará no setor de Aquicultura e Pesca Artesanal.>
Poderia acontecer caso a indústria tentasse reduzir o preço de venda em dólar para compensar em parte a tarifa de 50%, ele exemplifica. Ou mesmo que conseguisse redirecionar uma parte da produção antes destinada a exportação para o mercado doméstico, que tradicionalmente, por conta do câmbio, paga mais barato pelos pescados.>
Nesses casos, as empresas que beneficiam os pescados podem buscar atenuar a redução em suas margens de lucro tentando negociar preços mais baixos com os atravessadores que, por sua vez, podem repassar essa pressão aos pescadores.>
Feitosa também avalia que esse é um desdobramento possível. "Claro que vai diminuir da ponta do pescador", ela comenta.>
O governador do Estado, Elmano de Freitas (PT), anunciou quatro medidas para tentar reduzir o impacto do tarifaço americano, entre elas a compra de produtos das empresas afetadas pelo governo.>
No caso dos pescados, eles seriam direcionados, por exemplo, para programas como o Ceará Sem Fome e para escolas e hospitais.>
O governador já afirmou, contudo, que o Executivo não pagaria o preço de exportação dos itens.>
A predominância da pesca artesanal na cadeia de produção de pescados no Ceará — e na maioria dos Estados do país — se deve a uma mudança profunda no ecossistema marinho do litoral brasileiro últimas décadas.>
A pesca industrial chegou a ser praticada em larga escala décadas atrás. O pai de Maria Cristina de Sousa, inclusive, foi pescador nesse contexto, contratado formalmente por uma empresa.>
A superexploração dos animais, contudo, levou à redução significativa da população de diversas espécies.>
"Diminuiu a lagosta, diminuíram os peixes de forma geral... e aí as embarcações foram diminuindo, porque as mais caras não eram mais viáveis", explica Felipe Matias, que é engenheiro de pesca.>
Hoje, praticamente só Pará e Santa Catarina trabalham com embarcações maiores, concentrando boa parte dos 4,4 mil pescadores industriais que constam no registro do Ministério da Pesca e Aquicultura. Os pescadores artesanais no país somam cerca de dois milhões, segundo a base de dados.>
Matias acrescenta que, apesar de extenso, o litoral do Brasil não é abundante em peixes (ou "piscoso", no jargão do setor).>
"Nós temos uma grande diversidade de espécies, mas em pouca quantidade", aponta.>
Já o Peru, ele compara, tem uma variedade bem menor de espécies, mas quantidades abundantes.>
Enquanto o Brasil produz cerca de 800 mil toneladas de pescado a partir da pesca, o país vizinho, que tem um litoral um pouco maior que o do Ceará, produz entre sete e nove milhões de toneladas.>
"Lá é piscoso, pelos nutrientes da água, pela corrente [marítima] de Humboldt e outros fatores", explica.>
Matias destaca que o cenário turbulento atual é transitório e vê o momento como uma oportunidade de o setor reduzir a dependência do mercado americano e buscar novas praças.>
Uma delas seria, em sua visão, a União Europeia, que interrompeu as compras do Brasil por volta de 2017 alegando questões sanitárias depois de uma vistoria realizada em barcos de pesca em Santa Catarina.>
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