Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 11:09
Em um mundo desenvolvido que impõe cada vez mais barreiras à imigração, a Espanha segue na contramão.>
O governo do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, anunciou na semana passada (27/1), de forma inesperada, uma regularização extraordinária de imigrantes indocumentados ou solicitantes de asilo que consigam comprovar residência de ao menos cinco meses no país e não tenham antecedentes criminais.>
O Partido Socialista no poder e o partido de esquerda radical Podemos chegaram a um acordo que posteriormente foi aprovado pelo Executivo por meio de um decreto real, mecanismo que permitiu contornar o Parlamento, onde os socialistas não têm maioria.>
A medida partiu de uma proposta assinada por cerca de 700 mil pessoas, com o apoio de diversos grupos da sociedade civil, de associações de migrantes à Igreja Católica.>
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A ministra espanhola de Inclusão, Segurança Social e Migrações, Elma Saiz, afirmou que a regularização era "necessária para dar respostas à realidade que existe em nossas ruas".>
Dos 49,9 milhões de habitantes da Espanha, mais de 9,8 milhões nasceram em outro país, entre eles 3,4 milhões de estrangeiros com autorização de residência, segundo dados oficiais.>
Mais de 500 mil dos cerca de 850 mil imigrantes que hoje se encontram em situação irregular poderão regularizar seu status migratório, segundo estimativas.>
A medida, que reflete uma política abertamente favorável à imigração, contrasta com o endurecimento generalizado das políticas adotadas pela maioria dos países desenvolvidos nessa área.>
No continente europeu, a Alemanha aprovou reformas legais para facilitar deportações e detenções; a França restringiu os benefícios sociais e acelerou as expulsões; a Itália aplica leis de caráter dissuasório e processa solicitações fora do seu território; e o Reino Unido limitou drasticamente o acesso ao asilo.>
Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump mantém uma campanha agressiva de fechamento de fronteiras, repressão e deportação de imigrantes em situação irregular; enquanto o Canadá, um país tradicionalmente aberto a estrangeiros, reduziu a admissão de trabalhadores temporários e estudantes.>
Por que a Espanha se destaca como exceção?>
Apesar de enfrentar problemas significativos, como baixos salários, alta taxa de desemprego, perda de poder de compra e escassez de moradia, a economia espanhola se fortaleceu nos últimos anos.>
A Espanha recuperou recentemente a 12ª posição entre as maiores economias do mundo, ao ultrapassar o México, a Austrália e a Coreia do Sul, com um Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todas as riquezas produzidas) que já supera US$ 2 trilhões (pouco menor que o do Brasil, de US$ 2,29 trilhões), segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).>
"A economia espanhola apresenta uma demanda de mão de obra em setores como o serviço social, a construção e a hotelaria, que dependem diretamente da imigração", disse Cecilia Estrada Villaseñor, doutora em migrações internacionais da Universidad Pontificia Comillas (Espanha), à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).>
A regularização, prevê Villaseñor, favorecerá no curto prazo a formalização do emprego e a arrecadação pública ao reduzir a economia informal, enquanto, no médio prazo, deve garantir maior sustentabilidade ao sistema previdenciário, cada vez mais pressionado pelo envelhecimento demográfico.>
"Quanto ao impacto fiscal, estudos do Real Instituto Elcano, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico [OCDE, conhecida como "clube dos países ricos"] e da Comissão Europeia mostram que, em média, os migrantes tendem a contribuir mais do que consomem em serviços sociais", afirmou Villaseñor.>
Joaquín Arango, professor catedrático emérito de Sociologia da Universidad Complutense de Madrid e codiretor do Grupo de Estudos sobre Migrações Internacionais, pondera que a demanda por mão de obra migrante "também ocorre na França, na Itália ou na Alemanha, mas a Espanha é o país que se atreve a resolver esses desajustes de forma mais enérgica".>
"Outros países o fazem em menor escala e de maneira mais discreta: a Itália está ampliando os contingentes de trabalho para estrangeiros, inclusive em situação irregular, mas de forma mais velada. A Alemanha reconhece que tem um déficit de cerca de 1 milhão de pessoas no mercado de trabalho, mas encontra mais entraves e age de maneira menos decisiva", explicou Arango.>
A Espanha terminou 2025 com 605.400 novos empregos e atingindo o recorde de 22,46 milhões de trabalhadores, além de registrar 118.400 desempregados a menos.>
Apesar de ter alcançado o melhor resultado dos últimos 17 anos, o país mantém um alto nível de desemprego, pouco menos de 10%, em comparação com a média de 6% da União Europeia, razão pela qual críticos da medida avaliam que absorver centenas de milhares de pessoas não será tão simples quanto se propõe.>
"Para um país que tem um desemprego estrutural muito grande como o da Espanha, que é uma anomalia dentro da Europa, isso sai muito caro, pois favorece a chegada de mais imigração do que a de que precisamos", disse o analista demográfico Alejandro Macarrón, coordenador do Observatório Demográfico do Centro de Estudios, Formación y Análisis Social (CEU-CEFAS).>
Macarrón observa que a política de portas abertas à imigração, e o rápido aumento populacional consequente, também agrava o que muitas pesquisas apontam como a principal preocupação dos espanhóis: a dificuldade de acesso à moradia.>
"As pessoas que vivem em imóvel próprio, que ainda são a maioria, não enfrentam esse problema e, de fato, veem seu patrimônio se valorizar. Mas, para quem é diretamente afetado — os jovens e os próprios imigrantes —, é um problema enorme", argumentou.>
Diversos estudos mostram que, em geral, os espanhóis percebem a imigração de forma mais favorável do que em outros países do Ocidente e, apesar de certas preocupações com a integração dos estrangeiros, reconhecem sua contribuição econômica.>
Especialistas destacam que entra em jogo uma diferença fundamental em relação aos vizinhos europeus: a origem dos imigrantes.>
Cerca de 48% dos estrangeiros residentes na Espanha são pessoas nascidas na América Latina, que também representam 66% da imigração não europeia, segundo dados do Real Instituto Elcano (centro de pesquisa e debates).>
Colômbia, Venezuela, Equador, Argentina e Peru são os países que mais somam imigrantes.>
Na ausência de dados oficiais, o centro de análise sociológica Funcas estima que, dos mais de meio milhão de imigrantes em situação irregular que poderiam se beneficiar da nova medida do governo, 9 em cada 10 são latino-americanos.>
"Ao dominar o idioma, eles podem começar a trabalhar assim que chegam à Espanha, além de compartilharem nossa cultura, nossos valores e, em grande medida, a religião", disse José Pablo Martínez, pesquisador em dinâmicas sociais e econômicas das migrações do Real Instituto Elcano.>
Segundo Martínez, "isso, no plano social, representa um choque muito menos intenso do que o que pode ocorrer em outros países com outro tipo de imigração, por exemplo, a procedente de países muçulmanos na França ou na Alemanha".>
Alejandro Macarrón, do CEU-CEFAS, concorda nesse ponto ao argumentar que "a facilidade teórica de integração é muito maior", já que "não existe um conflito como o associado ao jihadismo" ou a outras correntes religiosas e culturais.>
Ainda assim, a Espanha não esteve isenta de conflitos ligados à imigração, desde os distúrbios de Torre Pacheco, em julho passado — com confrontos entre estrangeiros, grupos de moradores e extremistas de direita após uma agressão atribuída a jovens vindos do Magrebe —, até a recente desocupação em massa de um prédio ocupado em Badalona, depois de meses de queixas de moradores sobre insegurança.>
Martínez reconhece que, nesse sentido, "há uma questão social na Espanha, como em outros países europeus, com uma série de problemas que também se manifestam aqui e que levaram os demais a adotar mais restrições".>
A BBC News Mundo também falou com Silvana Cabrera, porta-voz da plataforma Regularización Ya, um coletivo fundamental na pressão sobre o governo para aprovar a nova medida.>
Cabrera, boliviana residente na Espanha, nega a influência do "fator latino-americano".>
"Nós não participamos desse discurso. Acreditamos que é um discurso totalmente colonialista e racista. Nós não somos irmãs. O Reino da Espanha não nos trata como irmãs; nos maltrata e sofremos o mesmo racismo institucional", afirmou.>
Outro fator que entra em jogo, segundo especialistas, é o político; desde a posição ideológica do governo espanhol até os objetivos perseguidos para além dos declarados publicamente.>
"Na Espanha, há um governo social-democrata de centro-esquerda que está mais propenso à questão migratória do que os países com governos mais conservadores", disse Martínez, do Real Instituto Elcano.>
Macarrón, do CEU-CEFAS, tem uma visão mais crítica: "O caso da Espanha é anômalo, pois é o único país da Europa Ocidental que tem a extrema esquerda [em referência ao partido Sumar] no governo. Enquanto no restante da Europa se tenta regular a imigração, adequando os fluxos ao mercado de trabalho, na Espanha parece que se faz apenas política ideológica".>
Esta não é a primeira regularização de imigrantes realizada na Espanha. As anteriores ocorreram tanto sob governos do Partido Socialista quanto do conservador Partido Popular (PP).>
O governo de José María Aznar, do PP, promoveu três regularizações, em 1996, 2000 e 2001, que beneficiaram mais de 520 mil pessoas no total. Já o governo socialista de José Luis Rodríguez Zapatero realizou a maior até hoje, em 2005, com 576 mil pedidos aprovados.>
O historiador Jordi Canal i Morell, professor da École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris (França), também critica o distanciamento espanhol em relação ao continente.>
"É uma medida irresponsável. A questão da imigração e das regularizações é muito séria e deve ser tratada à margem de apelos populistas. Precisa ser articulada com os vizinhos e parceiros europeus", declarou à BBC News Mundo.>
Por outro lado, especialistas apontam que a frágil rede de alianças que mantém Pedro Sánchez no poder o obriga a depender de partidos mais à esquerda, como o Podemos e o Sumar.>
"O governo está ganhando tempo para sobreviver em uma correlação de forças desfavorável e precisa do apoio desses partidos, todos favoráveis à regularização", afirmou Arango, da Universidad Complutense de Madrid.>
Arango acredita que esse é o principal motivo que levou o governo a tramitar o decreto real: "Com essa decisão, acredita que pode ampliar seus apoios parlamentares e garantir uma maior sobrevivência política".>
Outro objetivo mencionado por Arango — mais altruísta, neste caso — é resolver o problema do elevado número de imigrantes em situação irregular e do volume crescente de pedidos de asilo que sobrecarrega a administração pública.>
"Essa regularização é uma forma de colocar ordem: ao aprová-la, as coisas se facilitam e se ganha tempo até uma futura conjuntura semelhante, porque isso voltará a acontecer. Durante um longo período, é possível zerar os números.">
Arango ressalta que, diferentemente de outros países europeus, "no caso espanhol, o temor à impopularidade de uma medida desse tipo é muito menor", já que a sua sociedade se caracterizou historicamente "por um maior grau de aceitação da imigração".>
"Os estudos colocam a Espanha entre os países mais favoráveis à aceitação da imigração, às demandas de asilo e à proteção internacional", afirmou.>
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