Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 08:09
Lançado no mercado brasileiro em 1964, o refrigerante Fanta logo se tornou um sucesso. >
De acordo com informações divulgadas pela empresa The Coca-Cola Company, dona da marca, o Brasil é o líder mundial em vendas do produto e, no portfólio da companhia, esse refrigerante só perde em preferência popular para a própria Coca-Cola.>
Mas se é um sucesso comercial, a história da bebida remonta a um período nebuloso da história mundial: o regime nazista que comandou a Alemanha e acabou se tornando o antagonista de Estados Unidos e aliados — inclusive o Brasil — durante a Segunda Guerra Mundial.>
Em sua receita original, a Fanta não tinha sabor de laranja. A bebida surgiu como uma solução encontrada pela subsidiária alemã da Coca-Cola para seguir abastecendo o mercado em tempos de embargos dos americanos.>
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Os méritos recaem sobre o empresário alemão Max Keith (1903-1974), que era o número um da companhia no país desde 1933. >
Foi a criatividade transformada em saída para uma situação que poderia ser catastrófica. >
Um dos que contam esta história é o pesquisador e escritor americano Mark Pendergrast, autor do livro For God, Country & Coca-Cola ("Por Deus, Pátria e Coca-Cola", na tradução livre para o português).>
Segundo ele, com o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos durante a Segunda Guerra, Keith ficou em uma "sinuca de bico". >
Naquela época, a Coca-Cola não tinha um vasto portfólio de bebidas como hoje. Era apenas a versão original, ou seja, o refrigerante escuro feito de um xarope de noz de cola.>
Pendergrast esclarece que a Coca-Cola já era "essencialmente" o mesmo refrigerante de hoje. >
"Ainda continha extrato de folha de coca, embora este fosse descocainizado desde 1903", pontua.>
Mas é preciso entender como a empresa operava na época. >
"A forma como a The Coca-Cola Company trabalhava com suas filiais internacionais, incluindo a Alemanha, nos anos 1930 era a seguinte: elas eram empresas engarrafadoras", contextualiza o jornalista britânico Tristan Donovan, autor do livro Fizz: How Soda Shook Up The World ("Fizz: Como o Refrigerante Sacudiu o Mundo",em tradução livre). >
"As filiais de cada país importavam o xarope da Coca-Cola fabricado na sede em Atlanta e depois o misturavam com água e açúcar para produzir a bebida vendida naquele país", completa Donovan.>
O problema era que os insumos eram repassados da matriz americana, sediada em Atlanta, para as fábricas ao redor do mundo. E o embargo passou a impossibilitar a operação.>
Havia também um bloqueio físico. >
"A Marinha britânica bloqueou o Terceiro Reich, cortando o acesso da filial alemã ao xarope da Coca-Cola. A empresa tornou-se uma entidade semi-independente, com comunicações limitadas com a sede e sem qualquer possibilidade de importar suprimentos de xarope", descreve Donovan. >
"Ela ficou apenas com estoques que diminuíam rapidamente do xarope importado antes do bloqueio.">
Seria o fim da unidade alemã e Keith veria sua carreira de executivo sucumbir em meio aos destroços da guerra.>
Fabricar o próprio xarope não era uma possibilidade. Nenhuma subsidiária tinha a fórmula, segundo Donovan, já que o conhecimento da receita era restrito a um número muito pequeno de funcionários nos EUA. >
Keith foi inovador. Seguindo o clichê do mundo empresarial, viu na crise a oportunidade. >
Em vez de usar o concentrado base oriundo dos Estados Unidos, podia manter a fábrica em funcionamento se conseguisse uma nova receita de bebida.>
A interrupção dos trâmites entre a Coca-Cola com a Alemanha ocorreu logo após o bombardeio de Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, quando oficialmente os Estados Unidos entraram na Guerra. >
Àquela altura, a Coca-Cola era um sucesso entre os alemães, consumida por pessoas de todas as idades.>
Segundo Pendergrast, naquela época, a Coca-Cola tinha apenas uma bebida, em um único tamanho. >
"Era uma empresa muito conservadora, que ganhava dinheiro com apenas um produto", comenta.>
Keith reuniu os seus químicos e deu a eles o desafio de produzir uma nova bebida, que não dependesse do saborizante enviado pelos americanos e que pudesse ser feita em larga escala com os ingredientes cada vez mais restritos de um país em conflito bélico de proporções mundiais.>
A solução veio das sobras. >
O novo refrigerante, em sua receita original, era feito de raspas de frutas, fibras e polpa de maçã, açúcar de beterraba e soro de leite — que é o líquido que sobra no processo de feitura do queijo.>
Era o que tinha, afinal: subprodutos da indústria alimentícia.>
O executivo então decidiu promover um concurso interno entre os funcionários para chegar a um nome para o novo refrigerante. Acabou escolhendo Fanta, sugestão de um vendedor, como uma redução da palavra alemã fantasie (fantasia, em português).>
A engenheira de alimentos Tayla Danieli Lopes Dias, pesquisadora na Universidade Estadual de Ponta Grossa define a situação. >
"A criação da Fanta não surgiu de uma estratégia planejada de expansão, mas de uma necessidade imposta pela guerra", diz.>
"A ideia era apenas manter a empresa funcionando até que a guerra terminasse", afirma Dias.>
O produto foi lançado no mercado alemão em 1942 e logo caiu no gosto popular. No ano seguinte, 3 milhões de caixas de Fanta foram vendidas na Alemanha. >
O refrigerante acabou sendo usado não apenas para beber, mas também para adoçar outros alimentos em época de sérias restrições.>
"A bebida original pouco lembrava a Fanta atual: tinha coloração escura, sabor indefinido e era usada até mesmo como ingrediente culinário, em sopas e sobremesas, diante da escassez de alimentos da época", descreve a engenheira.>
Com o fim da Segunda Guerra em 1945, e a derrota da Alemanha, a produção da Fanta foi interrompida. >
Keith foi reconhecido pela matriz americana como um excelente exemplo do mundo dos negócios, afinal havia conseguido manter a operação de uma forma criativa, mesmo em um cenário de dificuldades extremas. >
Como reconhecimento, ele se tornou o chefe de toda a operação europeia.>
"A empresa passou a ver Keith, que comandou a Coca-Cola dentro da Alemanha nazista, como um herói por tê-la mantido viva durante a Guerra", salienta Pendergrast. >
"Eles não sentiram nenhum constrangimento com isso.">
O pesquisador argumenta não haver dúvidas de que Keith foi colaborador do nazismo, mas estava longe de ser um ideólogo ou um patriota. >
O empresário parecia agir por pragmatismo. Leal à sua empresa, buscava meios de sobreviver em um regime autoritário. E não foi membro do Partido Nazista.>
Donovan, por sua vez, ressalta que "as empresas alemã e outras europeias da Coca-Cola, que se viram obrigadas a se adaptar à vida sob o Terceiro Reich" funcionavam, na época, como "entidades independentes durante a Guerra". >
"Operavam sem orientação ou contato com os Estados Unidos e faziam o que podiam para sobreviver", explica ele.>
Por meio da assessoria de imprensa da companhia, a BBC News Brasil solicitou informações a respeito desta história tanto à subsidiária brasileira quanto à matriz americana. A empresa, contudo, não quis se posicionar.>
Na versão em português de seu site oficial, The Coca‑Cola Company diz que "os rumores de que a Fanta foi inventada pelos nazistas são completamente falsos, nem Max Keith nem a empresa engarrafadora estavam ligados ao regime".>
Dez anos mais tarde, em 1955, um novo refrigerante foi desenvolvido pela Coca-Cola na Itália. Desta vez, o sabor principal seria a laranja.>
A escolha não foi aleatória. Segundo Donovan, refrigerantes de laranja já eram uma categoria muito popular na época. >
"Fazia sentido que a Coca-Cola entrasse nesse segmento", avalia.>
Na hora de batizar a bebida, alguém se lembrou que a companhia já tinha o registro de um nome muito bom: Fanta.>
Professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing, o publicitário e administrador de empresas Marcos Bedendo explica que, na época, quando uma empresa lançava uma variação de um mesmo produto era comum que se recorresse a outra marca.>
Para ele, se fosse hoje, talvez o caminho natural seria chamar o novo refrigerante de Coca Laranja, por exemplo.>
"Porque hoje se entende a marca como um ativo importante", explica.>
Dos escombros do nazismo, portanto, o nome Fanta foi recuperado e se tornou o segundo tipo de refrigerante a integrar o portfólio da The Coca-Cola Company. >
Em 1958, a bebida estava lançada no mercado americano.>
"A Fanta foi a primeira incursão da Coca-Cola em bebidas que não eram Coca-Cola", comenta Donovan. >
"Antes disso, a empresa era quase puritana em sua dedicação exclusiva à produção da Coca-Cola.">
Conforme analisa o jornalista, o refrigerante de laranja marcou a transformação da Coca-Cola em uma empresa de bebidas, e não apenas em uma empresa de refrigerante de cola.>
E a Fanta se tornou uma bebida totalmente diferente, sem manter "nenhuma outra ligação com a bebida alemã além do nome", contextualiza Pendergrast. >
"A Coca-Cola detinha os direitos do nome Fanta, então o utilizou para sua nova bebida em 1955", resume.>
O pesquisador admite que é curioso que a empresa tenha usado um nome de uma bebida que se originou dentro da Alemanha nazista.>
Mas, em suas pesquisas, não encontrou nada que indique que a companhia norte-americana "tenha se preocupado" com alguma associação ao nazismo por utilizar essa marca com raízes no regime alemão.>
Além disso, ele recorda que a empresa se posicionou de forma clara a favor dos esforços dos militares que lutavam contra o nazismo, com iniciativas como a que garantia que qualquer militar do lado americano teria acesso a uma Coca-Cola por apenas cinco centavos, não importasse onde estivesse no mundo.>
"E cumpriu essa promessa", enfatiza Donovan.>
"A bebida se tornou um símbolo de liberdade tanto para as tropas americanas como para aqueles que estavam sendo libertados dos nazistas. Sob esse contexto, acho que as pessoas de dentro e de fora da empresa, naquele momento, teriam enorme dificuldade em imaginar que isso [o uso do nome Fanta] pudesse vir a ser um problema", comenta o jornalista.>
Dias questiona se não seria melhor a empresa ter investido em outro nome, já que o passado da Fanta carrega "uma sombra histórica delicada".>
Embora a bebida não tenha sido criada pelo regime nazista nem como propaganda política, seu nascimento ocorreu dentro da Alemanha nazista, "o que inevitavelmente gera questionamentos e desconforto", comenta. >
"Para a empresa, esse vínculo pode representar um risco reputacional, especialmente em contextos de comunicação mal interpretados", avalia.>
Por outro lado, ela faz a ressalva de que, do ponto de vista mercadológico, a decisão do uso da marca Fanta faz sentido. >
"É curto, sonoro, fácil de pronunciar em diferentes idiomas e já tinha reconhecimento interno", diz. >
Bedendo também vê dessa forma. Segundo ele, o uso do nome veio de um contexto de facilidade. >
"Era uma marca que já estava ali, era sonora e tinha a ver com fantasia. É um bom nome, independentemente da origem.">
Com o passar o tempo, a empresa passou a contar com um amplo leque de bebidas entre seus produtos. >
A Fanta se espalhou pelo mundo e, além da versão tradicional sabor laranja, se tornou o rótulo para diversas experimentações e sabores distintos. >
Na preferência pessoal do brasileiro, a bebida ocupa a terceira posição, atrás da Coca e do Guaraná Antarctica, conforme indicam pesquisas como o Painel de Consumidor do Opinion Box.>
Nesse levantamento, que entrevistou 2.165 brasileiros, 77% dos consumidores de refrigerante afirmaram ter tomado Coca-Cola nos últimos 12 meses, 64% citaram Guaraná Antarctica e 48% se lembraram da Fanta.>
Atualmente no Brasil, conforme o site oficial da empresa, estão disponíveis as versões de uva, de caju, de guaraná e de maracujá — nenhuma delas iguala a importância da Fanta laranja na preferência popular, evidentemente.>
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