Publicado em 21 de março de 2026 às 13:34
Jamie, Ewan e Lachlan Maclean haviam remado mais de 7,4 mil quilômetros pelo vasto Oceano Pacífico quando sua boa sorte finalmente acabou.>
"Fomos avisados de que um anticiclone (uma área de alta pressão atmosférica) estava se aproximando e que seria inevitável topar com isso", disse Jamie ao programa Outlook, da BBC World Service.>
"Essas foram as piores condições que qualquer um de nós três poderia ter enfrentado: estamos falando de ondas entre 7 e 9 metros de altura... não viramos completamente, mas tivemos dois momentos de tensão em que o barco inclinou em um ângulo de 90 graus.">
Uma dessas ondas piorou ainda mais a situação: jogou Lachlan na água no meio da noite. "Estava tudo escuro", relembrou Lachlan, em entrevista ao Outlook, que conseguiu ser resgatado por seus irmãos.>
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Quando os três finalmente chegaram ao porto de Cairns, na Austrália, eles alcançaram seu objetivo de quebrar o recorde anterior de travessia do Oceano Pacífico sem assistência: percorreram 14.484 quilômetros do vasto Oceano Pacífico em 139 dias, 5 horas e 52 minutos.>
O objetivo dos irmãos, além de quebrar o recorde anterior, era arrecadar mais de US$ 1 milhão para projetos de água potável em Madagascar.>
E tudo começou no litoral congelante da Escócia, onde esses três irmãos se aventuraram pela primeira vez no mar em um barco improvisado para pescar quando tinham apenas 11, 10 e 5 anos de idade.>
Embora os irmãos Maclean tenham crescido em Edimburgo, eles passaram muito tempo em Assynt, no noroeste da Escócia, onde sua família possui uma pequena casa à beira-mar. E foi lá que aprenderam a remar.>
Seu primeiro "barco" foi uma embarcação improvisada que construíram quando crianças e, por meio dessas experiências, aprenderam a confiar uns nos outros incondicionalmente. "Sempre amamos o mar", disse Jamie à Outlook.>
Ao longo dos anos, esse amor se transformou em um desafio e, em 2020, os três irmãos partiram para bater um recorde remando pelo Atlântico: saíram das Ilhas Canárias e chegaram a Barbuda, a 4,8 mil quilômetros de distância, em 35 dias.>
Mas, tendo alcançado esse feito, surgiu imediatamente a necessidade de um desafio ainda maior, e o lugar óbvio para isso era o Pacífico.>
"Descobrimos que nenhuma equipe jamais havia cruzado o oceano sem escalas e sem apoio, da América do Sul à Austrália. Deixamos a ideia de lado por um tempo, porque o fato de nenhuma equipe ter feito isso sugeria que talvez não conseguíssemos levar comida suficiente ou que pudéssemos ter limitações físicas", explicou Lachlan.>
"Mas a ideia persistiu, como uma pedra no sapato.">
Foi somente quando conseguiram contatar a pessoa que construiria o barco para eles que começaram a planejar seriamente a travessia.>
"A partir desse momento, começamos a conversar com nossos entes queridos, porque, é claro, é um assunto difícil de abordar", disse Jamie. Lachlan se lembra de uma conversa particularmente comovente com sua mãe: "Estávamos no apartamento dela, preparando o jantar. Eu estava picando uma cebola e perguntei a ela: 'Mãe, o que você acha de fazermos outra grande viagem de remo?'">
"Para ela, nossa travessia do Atlântico tinha sido incrivelmente difícil, então estávamos todos muito ansiosos com o estresse que isso poderia causar... mas, para ser honesto, ela não ficou tão surpresa. Acho que ela sabia o que estava por vir. Foi o mesmo caso com o nosso pai.">
Como uma homenagem aos pais, os meninos batizaram o barco de Rose Emily, o nome do bebê que perderam antes do nascimento em 1996.>
"Para a mãe, foi especialmente emocionante porque acho que, em um sentido espiritual, ela sentiu que Rose Emily estava cuidando de seus três irmãos do outro lado do Pacífico.">
Naquele momento, começaram os dois anos de preparação para a mais longa viagem de remo ininterrupta e em equipe já realizada sem apoio externo.>
É impossível antecipar todos os imprevistos que podem surgir durante uma jornada dessa magnitude, mas Jamie afirma que eles conseguiram se preparar para alguns pontos-chave.>
"Um bom exemplo", disse Jamie à Outlook, "é o medo de cair no mar, principalmente à noite. Esse era um grande medo que nós três compartilhávamos.">
"Então, fazíamos um treino — remávamos por 6, 8 ou 12 horas — e à noite, quando estávamos cansados, um de nós pulava na água para praticar natação e depois subíamos de volta para o barco no escuro.">
"Estávamos tentando nos acostumar com esses processos, para que parecessem menos estranhos.">
A jornada começou no Peru. Os irmãos tiveram que enviar todos os suprimentos necessários para lá — o barco e os mil pacotes de comida congelada.>
"Mas quando finalmente chegamos ao Peru, o barco atrasou na alfândega, a comida também atrasou, e isso atrasou a viagem em quase duas semanas", explicou Lachlan. Dois anos — e duas semanas — depois de tomarem a firme decisão de atravessar o Pacífico, os irmãos Maclean finalmente zarparam de Lima em 12 de abril de 2025, ao som da banda da Academia Naval, que veio lhes desejar boa viagem.>
Mas as dificuldades surgiram desde o início.>
"Ewan e eu sofremos de enjoo durante os primeiros 10 ou 14 dias", contou Jamie. "Eu não conseguia reter a comida; me sentia péssimo.">
Isso foi agravado por turnos de 16 a 18 horas remando sob o sol implacável, com a única proteção sendo duas pequenas cabines onde só era possível entrar sentado. Lachlan explica que, no meio do oceano, é fácil perder a noção do tempo e do espaço.>
"Principalmente nos primeiros 6,5 mil km, porque não passamos por nenhuma ilha e as condições eram praticamente as mesmas.">
"Meu turno era sempre o da noite para o dia, e o nascer e o pôr do sol se tornaram a melhor parte de cada dia: o céu era incrível, com verdes, laranjas, azuis — cores maravilhosas", recordou Lachlan.>
E à noite, a Lua era sempre uma companheira.>
"Conseguimos ver quatro ou cinco ciclos lunares completos, da lua nova à lua cheia, e a diferença que isso faz no que se vê à noite é espetacular.">
"Você consegue ver o oceano ao seu redor e as ondas, e isso transforma completamente a experiência do turno da noite. Também te mantém acordado.">
"Eu realmente sentia que a lua era nossa amiga, como um rosto reconfortante quando estava conosco, principalmente quando as coisas ficavam difíceis.">
O telefonema que os irmãos receberam, anunciando que estavam se dirigindo para o sistema de alta pressão e que não havia nada que pudessem fazer a respeito, os deixou em alerta máximo. Eles se prepararam para enfrentar condições que, na melhor das hipóteses, durariam dois dias.>
Ao cair da noite, Lachlan trocou de turno com Ewan e foi para a popa do barco.>
"Uma das principais preocupações era estar preso com segurança por um arnês de escalada em dois pontos diferentes do barco, caso um deles falhasse", disse Lachlan.>
"Eu estava prestes a me soltar para entrar na cabine, esperando uma brecha nas ondas, mas o que veio foi uma onda enorme de 7,5 metros, uma parede de água que se chocou sobre mim, arrastando meus pés.">
Na confusão, Lachlan pensou que o barco finalmente havia virado devido à ondulação. Mas quando finalmente conseguiu direcionar a luz para o casco, viu o nome de sua irmã emergir da escuridão.>
"Quando vi 'Rose Emily' escrito com a letra da minha mãe, foi aí que percebi que tinha caído no mar.">
Sem conseguir se soltar da corda que prendia o barco, Lachlan agarrou o cabo que o puxava pela água e começou a se impulsionar para cima, tentando voltar para o barco.>
"Ewan reagiu rapidamente e eu vi uma mão surgir da escuridão, então a agarrei, mas outra onda me puxou para longe novamente. Foi então que usei o impulso de uma segunda onda para finalmente me puxar de volta para o barco.">
Lachlan contou que o medo o dominou completamente quando chegou à cabine para descansar.>
"Fui tomado por uma ansiedade enorme: 'E se eu tivesse perdido o barco nessas condições?', 'E se eu tivesse soltado e a onda tivesse me atingido?' Eu teria me perdido no mar. Foi aí que o medo me atingiu.">
Essas condições climáticas adversas obrigaram os rapazes a mudar seus planos: a ameaça de um ciclone os impediu de chegar a Sydney, como haviam planejado inicialmente, e eles desviaram a rota para Brisbane.>
Mas uma mudança nos ventos os obrigou, mais uma vez, a mudar de rumo para o norte, em direção ao porto de Cairns.>
Os desvios e mudanças de itinerário ao longo do caminho começaram a cobrar seu preço dos irmãos, que já remavam pelo Pacífico havia 139 dias, cinco horas e 52 minutos. Foi então que algo começou a aparecer no horizonte.>
"Você começa a ver um borrão no horizonte", explicou Jamie, "e a princípio o confunde com uma nuvem. Você segue com seu dia e, quando olha novamente, o borrão está muito mais nítido.">
"É aí que você percebe que é a costa, neste caso, a da Austrália.">
Finalmente, após quatro meses e meio no mar, os três irmãos puderam ver seu destino. E ainda tinham um dia inteiro pela frente.>
"Na verdade, chegamos a Cairns à noite. E a primeira coisa que vimos foi o brilho dos postes de luz, que não víamos há meses. E então, quatro amigos meus que viajaram para nos encontrar estavam tocando gaita de foles, e dava para ouvir o som da gaita de foles viajando pelo ar.">
Não só os amigos os esperavam, como centenas de pessoas saíram para os receber e os aguardavam na marina de Cairns. E, claro, a mãe aliviada.>
Eles chegaram à Austrália em 30 de agosto de 2025.>
"Foi verdadeiramente inesquecível", recordou ele, "estar lá, abraçar nossa mãe pela primeira vez, nossos parceiros — talvez nunca haja um abraço como aquele.">
O pai não conseguiu viajar para a Austrália e teve que esperá-los na Escócia, onde outra grande celebração os aguardava.>
Jamie explicou que a viagem trouxe a eles um otimismo renovado em relação à humanidade: o sonho que três irmãos começaram na Escócia mobilizou milhares de pessoas ao redor do mundo para segui-los e apoiar a causa pela qual haviam zarpado.>
"Pensar que isso tocou a vida de pessoas ao redor do mundo que nunca conheceremos foi realmente incrível, e nos enche de grande esperança.">
Lachlan também enfatizou que o que eles vivenciaram durante aqueles quatro meses no mar mostra como os três se complementam e acabam funcionando como "algo que é mais do que a soma de suas partes", movidos por uma boa intenção.>
"De repente, a questão deixa de ser o tipo de pessoa que você precisa ser para sobreviver no mar e passa a ter mais a ver com o tipo de equipamento necessário para realizar uma boa intenção. Também ajuda ter a Lua ao seu lado.">
*Esta é uma adaptação de uma reportagem do programa Outlook, da BBC World Service. Para ouvir a versão original em inglês, clique aqui.>
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