Publicado em 21 de março de 2026 às 14:34
Aos 96 anos, Fernanda Montenegro está vivíssima. Na próxima semana, lança a comédia Velhos Bandidos; no próximo semestre, a série Emergência 53, sobre o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o Samu; e ainda planeja uma turnê pelos teatros do país todo com monólogos de seus autores favoritos.>
A atriz não caracteriza nenhum desses projetos como despedida — dos cinemas, da televisão ou dos palcos —, um chamariz publicitário recorrente em projetos de artistas de sua idade.>
Não quer se despedir do público, afinal. Mas nem por isso deixa de refletir sobre a morte — agora, em diálogo com o filósofo romano Cícero e seu texto clássico Sobre a Velhice, que pretende levar à cena.>
"Ele tem uma visão sobre a velhice e a morte extremamente corajosa. É de se ler, na minha idade. Tem uma frase que está me tocando muito: nós temos que olhar a morte de cima", ela diz. "Pensei: acho que vou ler este homem no teatro para me ajudar a entender a partida.">
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Em entrevista à BBC News Brasil por videoconferência, a atriz reflete ainda sobre a presença do Brasil no Oscar, o teatro, o cinema e a política brasileira.>
"Vem aí uma proposta de um possível governo estrangulador. É preciso pensar duas vezes se é melhor um governo que talvez não tenha sido tão amplo — talvez porque não tenha podido ser — ou cair nas mãos de um perigo de vida ou morte.">
Seu projeto mais recente, Velhos Bandidos, é uma comédia dirigida pelo filho, Claudio Torres, na qual interpreta, ao lado de Ary Fontoura, um casal que planeja assaltar um banco para reaver um dinheiro que lhes era devido. O filme estreia nos cinemas na próxima quinta-feira (25/3).>
BBC News Brasil: Já pelo título, Velhos Bandidos sugere um tom de humor. Como é possível fazer comédia com personagens idosos sem cair em estereótipos preconceituosos?>
Fernanda Montenegro: Isso depende do diretor e do roteirista, no caso o Claudio Torres. Ele tem um humor especial. Não é de fazer cócegas debaixo das axilas. Tem sempre uma certa justiça social, apesar da bandidagem. Os personagens só têm uma saída: a bandidagem.>
BBC News Brasil: O Brasil nunca esteve tão presente no Oscar, e não há como falar disso sem lembrar que a senhora foi a primeira brasileira indicada na área de atuação. Existe até hoje uma indignação do público pela derrota para Gwyneth Paltrow. Como a senhora vê essa reação?>
Fernanda: Não é derrota. Ao ser nomeado, você passa a fazer parte de uma corte, de uma aristocracia, dos iluminados. Só sendo nomeado seu valor como artista, economicamente, vai às alturas. Às vezes, no Brasil, parece que perdeu a vida, não é mais ninguém. Como? Se o filme é nomeado ao Oscar, ele já está na aristocracia cinematográfica.>
BBC News Brasil: Como a senhora vê o clima de Copa do Mundo que tomou os brasileiros no Oscar?>
Fernanda: Nós merecemos, sabe? Não há investimento no processo da criação cultural. É um esforço da nossa vocação. Nosso cinema tem uma linguagem e uma estrutura que, mesmo sem bilhões de dólares, não deixa de existir, de ter público e de ser reconhecido além-fronteira. Você às vezes não pode fazer plano e contraplano, decupar como é clássico em qualquer filmagem de qualidade, porque isso significa mais investimento, então a gente vai como pode — e vai bem.>
BBC News Brasil: Depois do desmonte do Ministério da Cultura no último governo, como a senhora avalia a política cultural atual do Brasil?>
Fernanda: É uma hora complexa. Se a gente começar a falar do que não está sendo atendido no país... A gente está sempre esperando que haja um prato de comida, um socorro educacional e cultural e o atendimento à saúde. Sempre faltou essa configuração ser atendida na dimensão que poderia ter sido.>
Sempre que acaba um governo e outro se propõe — ou que o mesmo se repropõe —, você tem que fazer um levantamento do que chegou de verdade a levantar o país. Mas só se trabalha muito no ano que precede a eleição. Estou fazendo uma avaliação geral. É uma cultura política brasileira.>
Vem aí uma proposta de um possível governo estrangulador. É preciso pensar duas vezes se é melhor um governo que talvez não tenha sido tão amplo — talvez porque não tenha podido ser — ou cair nas mãos de um perigo de vida ou morte.>
BBC News Brasil: Em paralelo ao filme, a senhora planeja uma turnê pelos palcos do Brasil e costuma dizer que o teatro é sua casa. O que ele oferece que o cinema e a TV não conseguem proporcionar?>
Fernanda: Comunhão física. Você prepara alguém dentro de você — um personagem —, trabalha com um elenco, ou na solidão de um monólogo, e leva esta criação para o próximo, que tem que sair de casa, tomar uma condução, entrar em um espaço, esperar, e quase sempre pagando. Isso ainda existe muito e não vai acabar nunca. Não há nada mais humanizado do que o teatro, porque tudo na vida é uma ação teatral. Tudo é uma ponte com o próximo. Há uma necessidade do ser humano com o outro. Mesmo numa pré-guerra mundial como a que está acontecendo.>
BBC News Brasil: E a senhora quer ir para o Brasil inteiro com o teatro, certo?>
Fernanda: Fisicamente eu já andei melhor, já vi melhor, já ouvi melhor. A digestão já se faz com mais facilidade. Toda a estrutura cerebral já tem lá seus buraquinhos. Mas, por um milagre — que eu não quero saber como nem porquê —, acordo e canto. Enquanto der.>
BBC News Brasil: Tem algum papel que ainda não fez, um sonho que não se realizou?>
Fernanda: Não sei se devo falar ou não. Eu tenho na cabeça alguns referenciais culturais fundamentais, mas o que está vindo é Cícero, o filósofo romano, porque ele tem uma visão sobre a velhice e a morte extremamente corajosa. É de se ler, na minha idade. Tem uma frase que está me tocando muito: nós temos que olhar a morte de cima.>
BBC News Brasil: O que é olhar a morte de cima?>
Fernanda: A gente tem que olhá-la de cima porque, quanto mais você vive, mais mortes vê. Viver muito é também uma perda imensa. Temos que ter a esperança de que ninguém que pertença a nós, principalmente herdeiros do nosso sangue, venha a faltar. Quando li essa frase do Cícero, nessa minha hora, pensei: acho que vou ler este homem no teatro para me ajudar a entender a partida.>
BBC News Brasil: A senhora disse, na coletiva de imprensa de Velhos Bandidos, que não tem mais futuro. O que quis dizer com isso?>
Fernanda: Cada dia, nessa minha hora de vida... Eu caminho para cem anos, gente. O que eu falo é de sobrevivente, no melhor sentido do termo. Quando falo que não tenho futuro, é que preciso viver o presente. Só vivendo o presente que a gente fica vivo para talvez chegar ao futuro. Acordou, cantou, entendeu? Essa frase eu digo para mim mesma a vida inteira. Porque se não acordar, não canta.>
BBC News Brasil: Pensa em se aposentar?>
Fernanda: Não tenho mais resistência física para enfrentar o teatro. Você tem que chegar lá e dar conta, através de seu físico, de sua cabeça, de seu sentimento, todo dia, às tantas horas, aos fins de semana. Mas tem o público. Por causa daquela palavra que é necessária. A fala de Simone de Beauvoir, que fiz para 15 mil pessoas no parque Ibirapuera, ainda é uma coordenada fundamental, como também a de Nelson Rodrigues, que é um memorialista sobre tudo, sobre o que é o Brasil.>
BBC News Brasil: Como foi gravar Velhos Bandidos com tantos colegas?>
Fernanda: Tem uma transcendência. Meus filhos souberam o que é viver com a presença de atores desde que nasceram. Em Velhos Bandidos, Claudio foi buscar uma geração que vai de 60 a quase 100, em um conjunto de contemporâneos de quem ele ouviu falar, viu em cena e viu dentro de casa. Ele faz os velhos bandidos se reencontrarem. Salvos e até comendo três vezes por dia. Sobreviventes. É de uma sensibilidade muito grande.>
Não estou justificando a bandidagem desses personagens, porque é uma bandidagem que não é bandidagem. A gente está vivendo um momento em que a estrutura governamental está na mão do crime. Não estamos vivendo isso no Brasil? Está todo o mundo esperando para ver qual será a saída de uma justiça em cima dessa criminalidade. São os verdadeiros bandidos.>
Acho que já falei até demais. Tem muita coisa aí para acontecer em torno do meu ato profissional. É acordar e cantar.>
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