Publicado em 21 de março de 2026 às 11:34
Uma das rivalidades mais antigas da história contemporânea envolve o país mais poderoso do mundo e uma ilha com menos de 10 milhões de habitantes.>
Os Estados Unidos e Cuba se enfrentam desde o triunfo da revolução socialista de Fidel Castro (1926-2016), mais de seis décadas atrás. Este longo período já presenciou uma invasão da ilha apoiada pela CIA, a ameaça de um confronto nuclear e diversas crises migratórias.>
Gerações de cubanos e americanos viveram marcadas por um antagonismo político que ainda não teve solução. E, nas últimas décadas, as relações entre os dois países se mantiveram em uma tensa calmaria, com altos e baixos.>
Mas o retorno de Donald Trump à Casa Branca em 2025 fez as tensões dispararem. Seu governo endureceu o embargo econômico vigente desde os anos 1960. Havana atribui a este embargo grande parte das suas dificuldades. Trump também tomou medidas para dificultar o envio de combustível do exterior para Cuba.>
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Some-se a isso a crise energética, econômica e social que já acometia a ilha, agravada após a queda do apoio venezuelano frente à captura de Nicolás Maduro no início de janeiro, em uma operação militar realizada pelos Estados Unidos.>
Trump já alertou que Cuba "está a ponto de cair" e, ao mesmo tempo, afirma que seu governo e o de Havana estão negociando uma saída para o impasse.>
Todo este cenário gera incredulidade. Embora o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, tenha confirmado os contatos entre os dois governos, aqueles que testemunham essa longa inimizade estão acostumados a ver as eventuais aproximações entre Washington e Havana acabarem frustradas.>
Mas como nasceu a rivalidade entre os dois países vizinhos?>
No dia 15 de fevereiro de 1898, um encouraçado norte-americano chamado Maine explodiu no porto de Havana, causando a morte de mais de 260 tripulantes. Após o naufrágio, um Tribunal de Investigações Navais dos Estados Unidos concluiu que a embarcação havia sido destruída por uma mina submarina.>
As suspeitas recaíram sobre a Espanha, que travava, na época, uma guerra contra os rebeldes cubanos que lutavam pela independência da ilha desde 1895.>
Em abril, os Estados Unidos intervieram militarmente na luta. Assim começava a Guerra Hispano-Americana, que levou ao fim da soberania espanhola sobre Cuba, após mais de quatro séculos de colonização.>
Uma investigação posterior da marinha americana concluiu, em 1976, que a explosão provavelmente foi causada por um incêndio interno que detonou a munição do navio, não por uma mina espanhola, nem por sabotagem.>
Após a derrota espanhola, a economia, a infraestrutura e as indústrias de Cuba ficaram devastadas pela guerra. O país precisava se reconstruir e os Estados Unidos desempenharam um papel fundamental neste processo.>
"Empresários americanos encontraram oportunidades a preços muito modestos. Os Estados Unidos entraram diretamente na economia cubana", explica à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o professor Michael Bustamante, da Universidade de Miami, nos Estados Unidos.>
Cuba funcionou como protetorado americano entre 1898 e 1902, quando só então conseguiu sua independência formal. Mas sua primeira Constituição trouxe uma ressalva.>
Entre 1901 e 1934, vigorou um apêndice chamado Emenda Platt que, na prática, mantinha a ilha sob influência direta de Washington.>
Cuba "era uma república independente, mas com claro grau de controle externo da sua política por parte dos Estados Unidos, que se reservava o direito de intervir nos assuntos internos da ilha", afirma Bustamante.>
O artigo 3 da Emenda concedia explicitamente aos Estados Unidos a possibilidade de exercer este direito. Foi este documento que permitiu, por exemplo, a instalação em território cubano da base naval de Guantánamo, que segue ativa sob controle americano até hoje.>
Na década de 1950, a indústria doméstica e o capital cubano haviam recuperado seu peso na economia nacional, mas a ilha continuava sofrendo enorme influência de empresas americanas.>
Setores fundamentais contavam com forte participação dos Estados Unidos, como o níquel, a eletricidade, as telecomunicações e as finanças. Os dois vizinhos mantinham estreitas relações políticas e econômicas.>
Nas ruas das principais cidades da ilha, era possível observar os letreiros da Coca-Cola e carros americanos último tipo, que circulam até hoje. Na época, conviviam em Cuba a prosperidade e o luxo, ao lado da desigualdade e da corrupção.>
Em 1952, o militar Fulgencio Batista (1901-1973), que havia governado Cuba democraticamente entre 1940 e 1944, deu um golpe de Estado e tomou o poder. Seu governo foi caracterizado pelo autoritarismo, perseguição e abusos contra a oposição.>
Esta situação agravou o já crescente descontentamento entre setores da população, devido aos problemas enfrentados pela ilha e pela ingerência dos Estados Unidos, que apoiaram Batista e outros governos autoritários cubanos anteriores, como o de Gerardo Machado (1871-1939), que liderou a ilha entre 1925 e 1933.>
"Os Estados Unidos mantinham relações neocoloniais com Cuba em muitos sentidos", explica Bustamante. "O sentimento contra a dominação americana se dava não só em setores da esquerda, mas de diversas ideologias.">
Setores da oposição pretendiam retornar ao status quo anterior ao golpe de Batista, enquanto outros defendiam uma reforma nacionalista da economia, reduzindo a dependência dos Estados Unidos.>
Neste segundo grupo, começou a se destacar o jovem advogado Fidel Castro, líder político com ideias socialistas. Ele acreditava na maior soberania do país e encontrou nas armas uma forma de fazer a revolução.>
Um primeiro levantamento armado fracassado em 1953 levou Castro a cumprir quase dois anos de prisão e se exilar no México. Ele regressou a Cuba no final de 1956, ao lado de mais 80 homens e um jovem argentino revolucionário, chamado Ernesto "Che" Guevara (1928-1967).>
Os rebeldes organizaram uma guerrilha no leste do país e, em pouco mais de dois anos, a insurreição se espalhou por toda a ilha. Na madrugada de 1° de janeiro de 1959, Fulgencio Batista pegou um avião e fugiu para a República Dominicana. Sete dias mais tarde, Fidel Castro e os chamados "barbudos" entraram triunfantes em Havana, com grande apoio popular.>
Assim começava a revolução cubana.>
O divórcio entre Cuba e os Estados Unidos não foi automático.>
"Na verdade, havia pessoas no Departamento de Estado americano que acreditavam que Castro fosse um simples nacionalista e queriam manter boas relações com o novo governo", segundo Bustamante.>
Mas dois eventos ocorridos no início dos anos 1960 fraturaram os vínculos. O primeiro foi uma reforma agrária lançada por Castro, propondo a nacionalização de parte das terras controladas pelos Estados Unidos.>
Bustamante esclarece que esta ainda não era uma ideia comunista, pois a intenção não era sua total expropriação. "Era mais uma visão de capitalismo reformado", descreve o professor.>
Mas os alarmes americanos começaram a soar pouco depois, com a visita a Cuba do então diplomata soviético Anastas Mikoyan (1895-1978), para assinar acordos com o governo local. >
Com esta visita, o maior adversário geopolítico dos Estados Unidos na época — a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) — ganhava terreno, justamente no seu quintal.>
Um dos acordos assinados entre Havana e Moscou foi o intercâmbio de açúcar cubano por petróleo russo. O problema era que diversas das refinarias instaladas em Cuba eram americanas.>
"Quando os Estados Unidos ordenaram às suas empresas que se negassem a processar petróleo russo, o governo cubano interveio nas refinarias e as nacionalizou", conta Bustamante.>
Washington reagiu cortando a quota de açúcar garantida para Cuba no mercado norte-americano. E Moscou respondeu passando a ser o principal comprador do açúcar cubano.>
Estas medidas levaram à primeira fase do embargo econômico dos Estados Unidos a Cuba. Havana respondeu com a total nacionalização das indústrias e empresas americanas.>
A ruptura das relações se consumou em janeiro de 1961 e Fidel Castro deu início à virada socialista da sua revolução.>
Os meses que se seguiram foram de máxima tensão.>
Em abril de 1961, cerca de 1,5 mil combatentes, na sua maioria exilados cubanos, opositores de Castro, chegaram a Cuba em aviões e navios com o apoio da CIA, para derrubar o governo da ilha.>
O evento ficou conhecido como a invasão da Baía dos Porcos. Ela foi esmagada pelas forças cubanas em três dias, após a retirada do apoio aéreo no último momento, pelo então presidente americano John F. Kennedy (1917-1963).>
O fracasso americano fortaleceu Castro, que aprofundou sua proposta socialista — levando Kennedy a reavaliar sua política em relação a Cuba, segundo o Escritório do Historiador do Departamento de Estado americano.>
Washington criou um novo programa clandestino chamado Operação Mangusto, para alcançar o objetivo não atingido pela invasão da Baía dos Porcos.>
A missão incluiu operações políticas, psicológicas, militares, de sabotagem e inteligência, além de tentativas de assassinatos de líderes políticos fundamentais do país, incluindo Fidel Castro.>
"A Operação Mangusto pretendia gerar uma situação de insurreição em Cuba, que colocasse o país à beira do desastre", explica o pesquisador Oscar Zanetti, da Academia de História de Cuba.>
"Mas ficou claro que as possibilidades de que um movimento interno levasse a revolução ao colapso eram praticamente nulas", segundo ele. "Por isso, em março de 1962, ganhou impulso a opção de uma intervenção direta dos Estados Unidos, utilizando todos os meios militares necessários.">
A pequena Cuba precisou, então, se defender. E a União Soviética, na época sob a liderança de Nikita Khrushchev (1894-1971), estava disposta a apoiar a ilha.>
Em meados de 1962, relatórios de inteligência americanos informaram sobre o aumento do envio de armas soviéticas para Cuba. E, em outubro, um avião tirou fotografias e descobriu mísseis sendo instalados no país.>
Assim começava a crise dos mísseis de Cuba, o ponto culminante da Guerra Fria (1947-1991). Por 13 dias, o mundo enfrentou a possibilidade de um confronto nuclear entre as grandes potências da época. E Cuba estava no centro das discussões.>
Após intensas negociações, a crise foi solucionada e a URSS retirou seus mísseis de Cuba. Mas o episódio gerou imensas feridas e desconfiança. O governo cubano consolidou sua adesão ao bloco socialista da União Soviética e Europa Oriental, afastando-se ainda mais do seu vizinho do norte.>
O historiador cubano Rafael Rojas define as décadas que se passaram entre meados dos anos 1960 e os anos 1990 como de "distensão" entre os Estados Unidos e Cuba. Chegaram até a ocorrer negociações e colaborações, em temas como migração e segurança.>
Mas isso não fez com que Cuba consolidasse a hegemonia americana no hemisfério.>
Diversos presidentes passaram pela Casa Branca, democratas e republicanos. E, em Havana, o sistema socialista de partido único, liderado por Fidel Castro, se consolidou.>
A revolução cubana inspirou vários movimentos de esquerda na região, como as guerrilhas colombianas nos anos 1960, o sandinismo nicaraguense na década de 1980 e a revolução bolivariana na Venezuela, no final dos anos 1990.>
Neste período, a migração foi, ao mesmo tempo, um ponto de conflito e cooperação.>
Desde 1959, os Estados Unidos ofereceram tratamento preferencial aos migrantes cubanos, incentivando a saída de dissidentes e os que buscavam condições de vida alternativas.>
Isso ocorria tanto por vias regulares, como também, muitas vezes, pelo mar e em embarcações precárias.>
Um dos casos mais notórios ocorreu quando Fidel Castro abriu as portas do país para todos os que desejassem deixar a ilha. O êxodo de Mariel, como ficou conhecido em referência ao porto de Cuba, levou 125 mil pessoas a saírem rumo ao Estado americano da Flórida, em 1980.>
Outro episódio foi a crise dos balseiros em 1994, quando Cuba mergulhou em uma severa crise econômica, depois do colapso da União Soviética em 1991.>
Houve fortes protestos na época, o que não é comum na ilha. Frente às pressões, Fidel Castro reabriu as fronteiras e cerca de 35 mil pessoas partiram rumo aos Estados Unidos.>
O episódio levou Washington a alterar sua política de imigração, implementando a doutrina de "pés secos, pés molhados". Na prática, quem chegasse a solo americano poderia ficar e quem fosse interceptado no mar era devolvido.>
Os anos 1990 também trouxeram o endurecimento das medidas contra Cuba.>
A implementação da chamada Lei Helms-Burton em 1996 trouxe mais restrições para a economia e consolidou o embargo, que só poderia ser anulado por aprovação do Congresso, não por uma simples ordem executiva do presidente.>
Condicionado pelo embargo e vítima das suas próprias restrições e deficiências de produção, o país caribenho se tornou extremamente dependente do turismo. E, até hoje, não conseguiu deixar totalmente para trás os reveses da década de 1990.>
De 1994 até hoje, as relações entre Cuba e os Estados Unidos seguem sem ser restauradas, embora tenha havido momentos de maior e menor proximidade.>
Fidel Castro deixou o poder em 2006 devido a graves problemas de saúde. Ele foi substituído pelo irmão, Raúl Castro. Sob o governo de Raúl e a presidência de Barack Obama nos Estados Unidos (2009-2017), os dois países deram um passo para a normalização das relações bilaterais em 2015.>
"Desde 2013, em vista das medidas de liberalização econômica tomadas por Raúl Castro, os Estados Unidos e Cuba iniciaram negociações, com a intermediação do papa Francisco (1936-2025) e da igreja católica cubana", recorda o historiador Rojas.>
Após o chamado "degelo" de 2015, as Embaixadas foram reabertas, restrições de viagem foram suspensas e sobreveio uma abertura econômica que trouxe esperança às pessoas que exigiam mudanças.>
Mas a chegada de Donald Trump à Casa Branca em 2017, meses depois da morte de Fidel Castro, trouxe o desmantelamento desta abertura.>
E, com seu regresso em 2025, o embargo, as pressões e as restrições sobre a ilha se endureceram ainda mais, bem como as tensões entre os dois países.>
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