Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 09:11
O ator parece estar sozinho em cena. Recostado contra uma parede, ele tem o ar de quem reflete profundamente. O cenho franzido sugere sofrimento. Na voz, angústia. As palavras saem devagar, num murmúrio. "Ser ou não ser: eis a questão.">
É assim que o escocês David Tennant inicia, em versão para a TV filmada pela BBC em 2009, a primeira cena do terceiro ato da peça Hamlet, de William Shakespeare.>
Fica difícil evitar os superlativos. Esta é a frase mais conhecida da mais famosa obra de William Shakespeare. Ele, por sua vez, o autor de teatro mais celebrado da literatura ocidental.>
Mas qual é a história por trás dessa frase?>
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E o que faz de Hamlet uma peça tão badalada? Do que ela trata? Por que tantos atores famosos querem fazer o papel de Hamlet e qual é a relevância dessa peça nos dias de hoje?>
A BBC News Brasil tentou responder a essas perguntas com a ajuda de especialistas em Shakespeare e da diretora de interpretação teatral da prestigiosa Royal Academy of Dramatic Arts (RADA), Sinéad Rushe. >
Trazemos ainda um depoimento de arquivo em que Tennant fala como foi, para ele, interpretar Hamlet, e do poder "quase transcendental" dos textos de Shakespeare.>
Comecemos por alguns fatos básicos sobre a peça e um resumo da trama.>
O inglês William Shakespeare, nascido por volta de 1564, morto em 1616, escreveu A Tragédia de Hamlet (nome completo da obra) por volta de 1599. Nesse período, ele já era um mestre na arte da dramaturgia, e Hamlet fez sucesso imediatamente. >
A mais longa peça do dramaturgo, restam dela várias versões. As mais completas ultrapassam quatro horas de duração.>
Hamlet nos deu, além de "Ser ou não ser", várias outras frases memoráveis, como "Há algo de podre no Reino da Dinamarca" e "Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que as sonhadas por sua filosofia".>
A história, em linhas gerais, é a seguinte:>
O fantasma do rei da Dinamarca pede a seu filho, o príncipe Hamlet, que vingue sua morte. Ele diz ao filho que quem o matou foi seu próprio irmão, tio de Hamlet e atual rei, Claudius, agora casado com a mãe de Hamlet, Gertrude. À beira da insanidade — ou fingindo estar à beira da insanidade — Hamlet reflete sobre a vida e a morte, e planeja matar seu tio. >
Temendo por sua vida, Claudius também faz planos para matar o sobrinho. A peça culmina em um duelo ao final do qual Claudius, Gertrude, o oponente de Hamlet e o próprio Hamlet estão mortos. A família real está morta. Entra em cena Fortinbras, o príncipe da Noruega, que agora assumirá o trono e tomará o poder na Dinamarca.>
O resumo acima não deixa dúvidas: Hamlet é (entre outras coisas) uma peça sobre vingança. Um tema muito popular no teatro na época em que ela foi escrita. Só que Shakespeare fez diferente.>
"Dramaticamente, vingança é um grande tema porque contém ação e reação, e isso dá uma estrutura para a peça", comentou o professor Jonathan Bate, da Oxford University, falando à Rádio 4 da BBC em 2017.>
Ou seja, assim como nos filmes de ação hoje, as peças de vingança na Inglaterra de Shakespeare eram espetáculos movimentados, onde muita coisa acontecia.>
"Mas o que é tão inovador nessa peça é que, enquanto versões anteriores de peças de vingança tinham como foco as ações do vingador, Hamlet para e pensa", prossegue Bate.>
"Então, a peça tinha mais solilóquios, mais momentos de reflexão interior do que qualquer outra peça que tinha vindo antes.">
Solilóquio é um recurso dramático em que o personagem fala consigo próprio.>
Em Hamlet, o efeito desse recurso é que o príncipe da Dinamarca não revela a ninguém na corte seus pensamentos, mas desnuda sua alma para toda a plateia.>
Ao longo de quatro séculos, grandes atores, homens e mulheres (sim, mulheres também), vêm aproveitando as incríveis falas que Shakespeare colocou na boca de Hamlet para exibir seus talentos dramáticos.>
No século 20, Laurence Olivier, Ian McKellen, Ralph Fiennes, Keanu Reeves e Kenneth Branagh foram alguns.>
Já neste século, Benedict Cumberbatch, por exemplo. No Brasil, Wagner Moura e Thiago Lacerda aceitaram o desafio.>
Em 2008, a convite da prestigiosa companhia de teatro britânica Royal Shakespeare Company, David Tennant ofereceu sua versão do príncipe dinamarquês. Em 2023, ele relembrou a experiência em entrevista à BBC.>
"(Hamlet) é um desses papeis que, quando você estuda teatro, você fantasia um dia interpretar", conta Tennant.>
Talvez por isso, receber o convite o deixou apavorado, mas ele não podia recusar, confessa.>
"Você tem consciência da linhagem de atores amados que vieram antes de você e, claro, é maravilhoso segurar aquela tocha por um tempo. Para um ator, é quase como um evento olímpico. Definitivamente é o melhor papel do cânone.">
Tennant prossegue: "Como ator, você recebe essas palavras que são um pouco mágicas e no início um pouco difíceis porque elas têm 400 anos de idade. Elas precisam como que ser decodificadas e não se encaixam imediatamente na sua boca. É preciso traduzi-las, dá um pouco de trabalho. Do ponto de vista da plateia, isso também acontece".>
"Mas tem alguma coisa nessas palavras que, quando você entra nelas, quando você assume o controle delas (…), quando você sente, por um segundo, que está dirigindo as palavras e não elas dirigindo você… existe algo quase transcendental nelas.">
Entre essas palavras mágicas estão aquelas que dão título a essa reportagem.>
A crítica de teatro e tradutora brasileira Bárbara Heliodora, morta em 2015, é autora da tradução de Hamlet mais usada no Brasil.>
Heliodora optou por uma versão mais coloquial da célebre frase: "Ser ou não ser, essa é que é a questão", ela propôs.>
As linhas seguintes ficaram assim:>
"Será mais nobre suportar na mente>
As flechadas da trágica fortuna,>
Ou tomar armas contra um mar de escolhos>
E, enfrentando-os, vencer?">
Segundo o verbete "Ser ou não ser" da Enciclopédia Britannica, o monólogo expressa a obsessão de Hamlet com uma importante questão moral. É correto que Hamlet vingue a morte de seu pai matando o suspeito pelo assassinato, Claudius? O monólogo, diz o verbete, também trata da preocupação de Hamlet com os conceitos vida, "ser" e morte, "não ser".>
Quanto ao significado do monólogo, a enciclopédia cita duas linhas de interpretação. De acordo com a primeira, Hamlet estaria expressando o temor de que, ao matar seu tio Claudius, estaria cometendo um gravíssimo pecado. Como resultado, sua alma seria condenada à danação eterna.>
A segunda interpretação seria que Hamlet estaria considerando cometer suicídio.>
Ambas as interpretações têm fortes defensores e detratores, prossegue o verbete na Enciclopédia Britannica. E as várias nuances no significado do monólogo refletem a complexidade psicológica na construção do personagem.>
Como é, para um diretor, dirigir essa cena?>
Foi o que a BBC News Brasil perguntou à irlandesa Sinéad Rushe, que conversa com a reportagem ao final de um dia de ensaios com sua própria companhia de teatro para uma montagem experimental de Hamlet em parceria com a RADA.>
Em sua resposta, às vezes encarnando o personagem e em outras falando de Hamlet na terceira pessoa, a diretora vai apresentando uma possível interpretação do monólogo.>
Rushe diz que, primeiro, é preciso entender a situação em que o personagem se encontra. Ele está sozinho, perdeu o pai, o tio casou com a mãe, a mãe não dá mais atenção a ele. Hamlet também vê uma Dinamarca corrupta, incapaz sequer de seguir o período adequado de luto em respeito ao seu pai morto.>
Rushe descreve o mundo pela ótica de Hamlet. Sem cor, sem vida, cheio de desesperança, corrupto, mau-cheiroso.>
"Hamlet está perguntando a si mesmo, vale a pena viver nesse mundo?">
"Meu sofrimento é tão grande, estou pensando em me retirar desse mundo.">
Mentalmente, o ator se coloca nesse clima. E o monólogo é composto de uma série de perguntas, ela explica.>
"É melhor ficar vivo ou dar fim à minha vida?>
É mais nobre enfrentar o que a vida coloca no meu caminho ou dar um fim a mim mesmo?">
"Hamlet se imagina morto, reflete que talvez a morte traga imenso alívio. Talvez ele possa dormir, descansar, sonhar… mas e se ele tiver sonhos ruins? Ele se lembra do que o espírito de seu pai lhe disse, que estava preso no purgatório.">
"Se eu me matar, talvez vá para o purgatório, talvez eu sofra terrivelmente.">
Então, Hamlet sente medo, diz Rushe.>
"O medo do que está além é tão grande, é por isso que nós não nos matamos, o medo impede que eu tire minha própria vida e impede que eu faça qualquer coisa. Então, não faço nada.">
Rushe diz que, para ela, o monólogo é interessante por ser uma espécie de carta suicida encenada pelo ator.>
"Uma carta que depois é rasgada", diz a diretora.>
Quando se trata de encenar Shakespeare, no entanto, decisões do diretor e da produção podem transformar profundamente o sentido dessa cena — e claro, da peça inteira. É o que diz à BBC News Brasil a especialista em Shakespeare Sheila Cavanagh, professora da Emory University em Atlanta, Georgia, Estados Unidos.>
"Uma das grandes questões em Hamlet é se suas faculdades mentais estão mesmo alteradas ou se seria tudo parte de uma estratégia dele.">
Em produções estreladas por grandes nomes, no entanto, é bem mais comum que Hamlet seja representado como uma figura reservada, enigmática, que não está louca, apenas finge estar, ela explica.>
"Porque quando você tem esses grandes atores, eles querem parecer estar em controle. Agora, essa é apenas uma interpretação da peça. Outra interpretação seria a de que Hamlet está realmente perturbado mentalmente. Tudo isso é colocado de lado por razões que podem não ter relação com a peça em si.">
A possibilidade de que a saúde mental de Hamlet esteja afetada talvez dê peso aos argumentos dos que defendem haver conotações suicidas por trás das palavras "Ser ou não ser: eis a questão".>
Mas deixemos o monólogo de lado para explorar outros grandes temas presentes nessa obra e a relevância de Hamlet hoje.>
Uma decisão da direção que também altera radicalmente o sentido da peça, prossegue Cavanagh, tem a ver com a inclusão ou não do personagem Fortinbras, cujo pai, rei da Noruega, foi morto pelo pai de Hamlet durante uma batalha.>
Na versão completa da peça, Fortinbras está a caminho da Dinamarca para vingar a morte de seu pai e recuperar território tomado pela Dinamarca no passado. Nessa versão, Fortinbras chega com seu exército, encontra a família real morta e toma o poder.>
"Quando Fortinbras é cortado, (a peça) vira uma tragédia doméstica", diz Cavanagh.>
Mas isso elimina da história uma dinâmica fundamental, ela explica. O que acontece com a família real tem sérias consequências para o povo dinamarquês.>
"Acho que isso é algo muito importante nessa peça, esse vai e vem entre indivíduos, seus desejos, seu egoísmo, e a forma como isso afeta todos (na sociedade).">
Sinéad Rushe diz que Fortinbras não foi cortado de sua versão de Hamlet. E que na sua leitura da peça existem duas guerras em Hamlet. A externa, entre Dinamarca e Noruega, e a interna, entre Hamlet e Claudius.>
"Nas interpretações modernas de Hamlet há uma ênfase no seu luto, na perda de seu pai e no seu relacionamento freudiano, edipiano, (com a mãe).">
Rushe lembra, no entanto, que Claudius usurpou o trono quando, na verdade, Hamlet seria o herdeiro legítimo.>
"E a busca fundamental de Hamlet, seu desejo, é tomar de volta o que é seu", ela argumenta.>
"Não importa se ele está pronto ou se alguém mais acha que ele seria um bom rei. Ele nasceu para ser rei.">
Na opinião de Rushe, temas como esses, invasões, conquistas, território, poder, e a noção de que "o mais forte vencerá" tornam Hamlet uma história atual.>
"Para mim, tudo isso reverbera agora, politicamente, em termos de Rússia, Israel e Trump nos Estados Unidos", diz. "Nessa ideia de que quem tem o poder está com a razão.">
Como é possível para um jovem ator hoje se identificar com a figura de Hamlet?, pergunta a reportagem. A resposta de Rushe pode valer também para plateias de todas as idades.>
"Acho interessante pensar em Hamlet como alguém jovem e vulnerável, se conectando com um futuro que ele achava que ia ser de um jeito, mas não será.">
Ele se sente perdido, em conflito, não sabe o que fazer consigo próprio, se sente inútil, diz Rushe.>
A diretora fala de um outro tema recorrente na peça: o monitoramento. Personagens constantemente vigiam uns aos outros.>
"A corrupção na Dinamarca, a vigilância, a espionagem… todo mundo está sendo observado e controlado. Isso faz com que Hamlet se sinta aprisionado, ele não pode abandonar sua vida e escolher um caminho diferente.">
Essas são questões com as quais jovens podem se identificar, diz.>
"Como é sentir que você não tem nenhuma autonomia? Como é sentir que você foi apagado, que você não conta nesse mundo? Não sei como me encaixar, não sei qual é o meu papel.">
"(Hamlet) pode ser um príncipe, mas isso não torna sua situação menos difícil existencialmente.">
Relevante e atual, a história do atormentado príncipe dinamarquês continua a ser sucesso de bilheteria mundo afora.>
No segundo semestre de 2025, só em Londres houve pelo menos duas montagens da peça. Uma no National Theatre. E a dirigida por Rushe, apresentada no teatro George Bernard Shaw, na Royal Academy of Dramatic Arts.>
Eu pergunto a ela por que alguém deveria sair de casa para assistir Hamlet no teatro.>
Rushe ri com gosto, talvez porque, para ela, a pergunta pareça quase uma provocação. E tenta explicar qual é, de verdade, o grande barato de Shakespeare.>
"Bem, quando Shakespeare é bem feito, e o verso é compreendido e realmente incorporado (pelo ator), ele soa tão claro, tão fala de gente, é difícil de acreditar", diz Sinéad Rushe. "Ele soa rico, cheio de nuances, engraçado, inteligente e incrivelmente contemporâneo.">
"É como povo falando.">
Ela acrescenta:>
"Além disso, tem tantas frases e imagens dessa peça na consciência coletiva, é maravilhoso ouvi-las no seu contexto.">
"Nosso desafio", conclui a diretora, "é fazer com que elas soem frescas, como se nunca tivessem sido ouvidas antes.">
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