Publicado em 4 de março de 2026 às 00:08
A Europa sabia que isso poderia acontecer. >
Por semanas, líderes e autoridades europeias acompanharam o reforço militar dos Estados Unidos no Oriente Médio e ouviram as ameaças do governo de Donald Trump a Teerã: abandonar qualquer ambição nuclear — ou enfrentar as consequências.>
Mas, desde o início dos ataques conduzidos pelos EUA e Israel contra o Irã, três dias atrás, o continente parece descoordenado — quando não fragmentado e claramente sem influência — diante da rápida escalada dos acontecimentos.>
Cada país europeu está, compreensivelmente, preocupado com seus cidadãos na região e com a possibilidade de ter que evacuar dezenas de milhares de pessoas. >
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Os governos europeus também se preocupam com o impacto que a crise no Oriente Médio pode ter sobre os consumidores em seus países, principalmente nos preços da energia e alimentos. >
Os preços do gás na Europa dispararam a níveis nunca vistos desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022.>
Politicamente, a Europa claramente enfrenta dificuldades para adotar uma posição unificada diante dos acontecimentos no Oriente Médio.>
As três principais potências do continente — França, Alemanha e Reino Unido — conseguiram divulgar uma declaração conjunta no fim de semana, alertando o Irã de que eles estavam prontos para tomar "medidas defensivas" para destruir sua capacidade de lançar mísseis e drones, caso Teerã não interrompesse seus "ataques indiscriminados".>
Desde então, o Reino Unido atendeu a um pedido dos EUA para usar duas bases militares britânicas para ataques "defensivos" contra instalações de mísseis iranianas — embora o presidente Donald Trump tenha criticado Londres por não ser mais ativa. >
A França reforçou sua presença no Oriente Médio após um ataque iraniano atingir uma base francesa nos Emirados Árabes Unidos, enquanto a Alemanha afirmou que seus soldados continuam prontos para "medidas defensivas" caso sejam atacados, mas nada além disso está sendo planejado.>
Os três países não chegaram a questionar a legalidade dos ataques conjuntos EUA-Israel sob o direito internacional. >
Também chamou atenção a ausência de questionamentos a Washington em uma série de publicações feitas pela chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas.>
Uma das principais preocupações de todos esses líderes europeus é não se indispor com Donald Trump. >
Eles esperam desesperadamente que os acontecimentos no Oriente Médio não se tornem mais uma distração para o presidente americano, impedindo-o — mais uma vez — de se empenhar na busca de uma solução duradoura para outro conflito, este no próprio continente europeu: a Ucrânia.>
Mas será que a postura evasiva de algumas das principais potências europeias em relação à legalidade das recentes ações dos EUA no Irã ou na Venezuela, por exemplo, não complica ainda mais a situação? >
Elas costumam dizendo que esta é uma Europa de valores comuns, que respeita uma ordem internacional baseada em regras. Mas quais são exatamente essas regras?>
O primeiro-ministro da Espanha afirma que sua posição é clara. Pedro Sánchez foi às redes sociais para dizer: "Pode-se ser contra um regime odioso, como é o caso do regime iraniano… e, ao mesmo tempo, ser contra uma intervenção militar injustificada e perigosa, fora do direito internacional".>
Várias aeronaves americanas deixaram a Espanha na segunda-feira, após Madri afirmar que suas bases não poderiam ser usadas para ataques contra o Irã.>
Essa recusa fez com que, nesta terça-feira, o presidente Trump anunciasse que iria "cortar todo o comércio" com a Espanha.>
Enquanto isso, a União Europeia parece totalmente descoordenada. >
Uma declaração conjunta dos ministros das Relações Exteriores dos Estados-membros evitou defender uma mudança de regime no Irã, enquanto a presidente da Comissão Europeia, principal órgão executivo do bloco, fez exatamente isso no domingo. >
"Uma transição crível no Irã é urgentemente necessária", afirmou Ursula von der Leyen em uma publicação nas redes sociais.>
Isso esteve longe de ser uma demonstração de unidade.>
Ainda assim, a ambição declarada das nações europeias, dentro e fora da União Europeia, incluindo o Reino Unido — neste novo e turbulento cenário de política entre grandes potências — é trabalhar de forma mais coordenada em áreas de interesse comum, primeiro e antes de tudo no campo da segurança e da defesa.>
Mas a questão é: os países europeus são realmente capazes de fazer isso?>
O ano de 2026 tem sido marcado por turbulências: Venezuela, Groenlândia e Irã. >
A Europa enfrenta uma Rússia expansionista à sua porta, uma China economicamente agressiva e um aliado cada vez mais imprevisível em Washington.>
Na segunda-feira, o presidente Emmanuel Macron anunciou que a França mudará sua doutrina nuclear e aumentará seu número de ogivas nucleares porque, segundo ele, "nossos concorrentes evoluíram, assim como nossos parceiros".>
A Rússia possui o maior arsenal nuclear do mundo, a China está expandindo rapidamente suas capacidades e, embora os Estados Unidos — a segunda maior potência nuclear global, atrás apenas da Rússia — tenham fornecido por décadas um "guarda-chuva nuclear" à Europa, as mudanças de prioridades em Washington deixaram os europeus apreensivos.>
Suécia, Alemanha e Polônia procuraram diretamente a França para pedir uma proteção europeia mais ampla, além da já oferecida aos aliados da Otan pelo Reino Unido, a única outra potência nuclear do continente.>
O presidente Emmanuel Macron encontra-se agora na posição de poder dizer "eu avisei", após anos defendendo que a Europa se tornasse mais estrategicamente autônoma na área de defesa — incluindo um forte investimento no setor espacial, com satélites de uso duplo, por exemplo, por meio da Agência Espacial Europeia, da qual o Reino Unido também é membro.>
Ainda assim, a coordenação entre países continua sendo um enorme desafio. >
A aquisição de armamentos é um exemplo evidente. Enquanto os Estados Unidos utilizam cerca de 30 sistemas de armas diferentes, a Europa dispõe de 178, muitas vezes duplicados. >
"Ineficiente, caro e lento", foi a conclusão contundente da presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, na semana passada. >
A Otan está tentando mitigar esse problema buscando gerenciar as decisões de aquisição entre seus 32 membros, mas o entrave é que as diretrizes da aliança de defesa são apenas voluntárias. >
Todos os integrantes da Otan (com exceção da Espanha) cederam à pressão de Donald Trump no ano passado e concordaram em aumentar os gastos com defesa.>
Mas tão importante quanto elevar o orçamento é garantir que esses recursos sejam utilizados de forma eficaz.>
O instinto da maioria dos governos é proteger suas próprias indústrias de defesa, mesmo que isso ocorra em detrimento dos vizinhos. A França, com frequência, é alvo desse tipo de acusação.>
À medida que os acontecimentos no Oriente Médio se desenrolam, fica evidente que cada país europeu tem suas próprias prioridades, forças e fragilidades, moldadas por sua história e pelas preocupações de seus eleitores.>
O fato da Alemanha ter sentido a necessidade, nesta semana, de deixar muito claro que não pretende ampliar sua presença militar no Oriente Médio — muito menos participar de qualquer ação ofensiva — está ligado à forte aversão da sociedade alemã a conflitos armados, em grande parte devido ao passado do país.>
Lembre-se de como a Alemanha foi inicialmente ridicularizada e criticada internacionalmente por demorar a enviar tanques à Ucrânia após o início da invasão em larga escala pela Rússia, há quatro anos. >
O então chanceler alemão, Olaf Scholz, não ficou incomodado ao receber da imprensa o apelido de "Friedenskanzler" (chanceler da paz). >
Inicialmente, uma parcela significativa da sociedade alemã se mostrou profundamente desconfortável com a ideia de que armamentos alemães pudessem voltar a ser usados contra russos, como ocorreu nas duas guerras mundiais do século passado.>
Ainda atento a essas sensibilidades nacionais, o novo governo alemão de Friedrich Merz segue agora uma direção bastante diferente. O país tornou-se o maior doador individual de ajuda militar à Ucrânia.>
Assim como o restante da Europa, a Alemanha contou por décadas com os Estados Unidos para garantir sua segurança. >
Mas, com o governo de Donald Trump insistindo que a Europa assuma a maior parte da responsabilidade por sua própria defesa, Berlim planeja gastar, até 2029, mais em seu orçamento militar do que França e Reino Unido juntos, segundo a Otan.>
O país também quer construir o maior exército convencional da Europa — e, 80 anos após a Segunda Guerra Mundial, com a Alemanha firmemente integrada à Otan e à União Europeia, outras potências europeias têm recebido a iniciativa militar alemã com apoio, e não com desconfiança.>
Já a primeira-ministra da Itália tenta encontrar um equilíbrio entre a opinião dos eleitores italianos e o que ela considera ser do interesse de seu país e de sua própria posição no cenário internacional. >
Até o momento, Giorgia Meloni tem mantido um perfil discreto em relação aos ataques conduzidos pelos EUA e Israel contra o Irã. Ela é uma das poucas líderes na Europa a manter uma relação verdadeiramente próxima com Donald Trump.>
Como a terceira maior economia da Europa continental, era de se esperar que a Itália desempenhasse um papel de destaque na segurança do continente. >
No entanto, até recentemente, o país figurava entre os que menos investiam em defesa na Europa. Para entender o porquê, é preciso olhar para a história italiana.>
A Itália só foi unificada em 1861. Antes disso, era considerada um "campo de batalha da Europa", com potências estrangeiras explorando seus territórios. Os italianos aprenderam a confiar apenas em círculos muito restritos, em vez de depositar confiança no "Estado" para protegê-los.>
A Itália também se destacou na Europa Ocidental quando a Rússia lançou sua invasão em grande escala da Ucrânia. Foi o único país onde, desde o início, a maioria da população se opôs ao envio de armas para ajudar Kiev.>
Os italianos afirmavam simpatizar com os ucranianos, mas muitos questionavam o envolvimento da Itália no conflito. >
Havia desconfiança de que o governo fosse capaz de protegê-los de efeitos colaterais, como a alta dos preços da energia ou possíveis retaliações da Rússia.>
Quatro anos depois, apenas 15% dos italianos dizem acreditar que a União Europeia e os Estados Unidos deveriam continuar armando a Ucrânia até que as forças russas sejam expulsas, segundo o Instituto de Estudos de Política Internacional.>
É por isso que a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, firme defensora da Ucrânia, encontra-se em uma posição delicada. >
Seus compromissos assumidos perante aliados internacionais na área de defesa estão desalinhados com a opinião da maioria dos eleitores italianos. A maior parte da população também se opõe à promessa feita por Meloni a seu aliado na Casa Branca de aumentar significativamente os gastos com defesa.>
Ter consciência das tensões internas dos aliados e, portanto, saber até que ponto se pode ou não contar plenamente com cada um, é fundamental à medida que a Europa entra em uma era autodeclarada de cooperação mais estreita.>
As dificuldades de agir "como um só", como se vê novamente diante da crise no Oriente Médio, têm levado à formação de coalizões menores e ad hoc, criadas por conveniência mútua em torno de temas específicos: projetos conjuntos de aquisição de defesa, como o recente pacto de defesa entre o Reino Unido e a Noruega para monitorar submarinos russos no Atlântico Norte; ou a chamada Coalizão dos Dispostos para a Ucrânia, liderada pelo Reino Unido e pela França, por exemplo.>
Cada vez mais, essas alianças "europeias" ou ocidentais incluem países com ideias semelhantes de fora do continente, como o Canadá, além da Coreia do Sul e o Japão, que também costumam participar de exercícios militares da Otan. >
Sentindo-se pressionada pelo novo clima global onde a força prevalece, ou pelo menos a força assume o protagonismo, a família de nações para a cooperação europeia está se expandindo. Mas também aumenta o desafio de compreender o que motiva cada membro dessa família e se eles, de fato, conseguem trabalhar juntos de forma eficaz.>
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