Publicado em 22 de fevereiro de 2026 às 08:12
Cinza, chuvoso e frio. As previsões indicam que este domingo não deve ser animador para a maioria dos britânicos. Para uma comitiva de artistas brasileiros que está em Londres, porém, o dia pode ter um desfecho mais luminoso caso seu filme seja premiado no Bafta, a principal distinção do cinema no Reino Unido, que entrega seus troféus nesta noite.>
O Agente Secreto, protagonizado por Wagner Moura, disputa em duas categorias — Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Roteiro. Outros dois brasileiros também concorrem: Adolpho Veloso, pela fotografia de Sonhos de Trem, e Petra Costa, pelo documentário Apocalipse nos Trópicos, ambas produções da Netflix.>
Mas, se os brasileiros voltarem de mãos vazias, não há motivo para preocupação em relação ao Oscar. Não são apenas o clima e o sotaque, afinal, que diferenciam o júri da premiação realizada em Londres daquele que se reunirá em Los Angeles no dia 15 de março.>
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que o Bafta está longe de ser um termômetro do Oscar — e décadas de histórico sustentam essa avaliação, inclusive em anos em que brasileiros estiveram na disputa.>
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Para começar, a corrida americana é mais ampla: além de Melhor Filme Internacional, O Agente Secreto aparece nas categorias de Melhor Filme, Melhor Direção de Elenco e Melhor Ator, para Wagner Moura. Costa não está na disputa, mas Veloso concorre.>
Ser indicado, premiado ou esnobado pelo Bafta diz pouco sobre as chances de um filme no Oscar, já que o corpo de votantes de cada premiação é diferente.>
Na temporada passada, Ainda Estou Aqui— drama de Walter Salles protagonizado por Fernanda Torres — deu ao Brasil seu primeiro Oscar, mas não teve o mesmo desempenho no Bafta.>
A premiação britânica chegou a indicar o longa — sobre o deputado Rubens Paiva, morto pela ditadura militar —, mas deu o troféu de Melhor Filme em Língua Estrangeira a Emilia Pérez.>
O inverso também já aconteceu. Em 1999, Central do Brasil, outro título de Salles, este com Fernanda Montenegro, venceu o Bafta na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, mas não teve o mesmo destino no Oscar, concorrendo na mesma categoria.>
Em 2003, algo semelhante ocorreu com Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund: o filme ganhou o Bafta de Melhor Edição, pelo trabalho de Daniel Rezende, mas saiu sem estatuetas da cerimônia americana.>
A diferença entre as premiações pode ser observada até em fenômenos globais. A franquia Harry Potter, uma das mais bem-sucedidas da história do cinema, é um exemplo.>
O quarto filme da série, O Cálice de Fogo, venceu o Bafta de Melhor Design de Produção, pelo trabalho de Stuart Craig, responsável por levar às telas o universo criado por J. K. Rowling. O capítulo derradeiro (As Relíquias da Morte – Parte 2), conquistou o troféu de Melhores Efeitos Visuais.>
Mas no Oscar Harry Potter nunca foi premiado, apesar de ter conquistado uma série de indicações. Isso só mudaria com um derivado da franquia, Animais Fantásticos e Onde Habitam, ambientado em Nova York e protagonizado por bruxos americanos.>
Embora o longa-metragem tenha seguido a tradição de ser filmado nos arredores de Londres, o cenário e os personagens americanos foram suficientes para a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas conceder à saga o seu primeiro Oscar — o de Melhor Figurino, para Colleen Atwood, também americana.>
O caso de Harry Potter não é isolado, e isso se deve à formação de cada academia, cujas escolhas seguem critérios de raiz psicológica, afirma Nik Steffens, professor de psicologia da Universidade de Queensland, na Austrália, e autor de um estudo sobre as diferenças entre as premiações a partir da identidade de seus votantes.>
Junto a pesquisadores da Inglaterra e da Holanda, Steffens analisou cerca de mil indicações e prêmios de ambas as láureas na categoria de atuação e identificou alguns padrões.>
O principal foi que atores americanos tinham mais do que o dobro de chances de ganhar o Oscar, ao passo que os britânicos apresentavam a mesma proporção de favoritismo no Bafta.>
"Ambos os prêmios dizem celebrar a 'melhor atuação'. Mas a psicologia nos mostra que 'melhor' nunca é algo compreendido em um vácuo social. É moldado por grupos que fazem avaliações de acordo com seu senso de pertencimento ao mundo", diz Steffens.>
O grupo também conduziu uma pesquisa voltada a premiações esportivas, e os resultados foram semelhantes. "Quando compartilhamos a mesma identidade — formada por elementos como nacionalidade, cultura e profissão —, percebemos nuances no trabalho das pessoas e somos mais propensos a interpretar fatores como ambiguidade como genialidade, em vez de algo estranho", explica o professor.>
Segundo o estudo, as diferenças identitárias são ainda mais relevantes na etapa de premiação do que na de indicação. Steffens acrescenta, no entanto, que essa influência é muitas vezes inconsciente e não significa que "os votantes sejam tendenciosos de forma grosseira".>
"Nossa identidade molda o que valorizamos e o que consideramos excepcional", ele diz. "As premiações funcionam como atos de celebração coletiva de quem somos e de quem queremos ser.">
Para além dos fatores psicológicos, há diferenças estruturais entre as academias, afirma o jornalista brasileiro e crítico de cinema Rodrigo Salem, que vive em Los Angeles e cobre as premiações há quase duas décadas.>
Parte dessas distinções, aliás, contribui para a percepção generalizada de que o prêmio americano é mais relevante do que o britânico. "O Bafta, há alguns anos, não era muito representativo. Era exclusivamente inglês, entregue após o Oscar, então ninguém nem dava muita bola. A mudança da data de entrega aumentou a visibilidade", diz Salem.>
O Oscar não tem inscrições abertas ao público para eleger seus votantes. A entrada é por convite.>
As regras variam de uma categoria para a outra — cada membro, afinal, pode votar apenas em seu próprio ramo de atuação —, mas todas exigem experiência significativa no cinema, apoio de integrantes que já façam parte da academia e, por fim, a aprovação de um comitê executivo de cada área. A exceção são os vencedores da estatueta, que passam automaticamente a ser considerados para ingresso.>
Já a academia do Bafta exige que o profissional atue na indústria do cinema, da TV ou dos jogos — sendo, portanto, mais aberta — e tenha cinco anos de experiência na área, independentemente da relevância de seus trabalhos. Há, porém, uma categoria mais simples, que não exige esse tempo mínimo, mas sim evidências de que o profissional está construindo uma carreira com potencial.>
Ambas as categorias, no entanto, permitem inscrição pública mediante o pagamento de uma taxa, que varia de £ 135 (R$ 942) a £ 606 (R$ 4.230) e pode variar de acordo com a residência do votante — quem mora em Londres ou nas proximidades da capital inglesa, por exemplo, paga menos.>
"A intersecção entre os corpos votantes do Bafta e do Oscar é mínima. Fazer parte da academia do Bafta não é algo muito exclusivo. Você paga a taxa, faz a inscrição pela internet e pronto", diz o crítico de cinema. "Há quem vote nos dois, mas o rigor de Hollywood e do Oscar é maior.">
Salem diz acreditar que o Oscar hoje seja mais receptivo a filmes estrangeiros, principalmente porque, na última década, a academia em Hollywood precisou abrir suas portas para profissionais de fora dos Estados Unidos após crises de credibilidade e audiência.>
"O Oscar tem mais brasileiros entre seus votantes e uma identidade cultural mais diversa. Não é mais como antigamente, quando eram americanos com alguns poucos intrusos de fora. Apesar de ter maioria americana, o prêmio se abriu desde 2019, quando começaram as críticas de que a academia era muito branca, masculina e americana", ele afirma.>
A visão de quem concorre ao Bafta não é muito diferente. O paulistano Adolpho Veloso, na disputa de Melhor Fotografia por Sonhos de Trem, diz não ver muitas chances na cerimônia deste domingo, mas afirma que, caso seja surpreendido, isso pode representar um impulso em sua corrida rumo ao Oscar.>
"É uma exposição, porque, a partir do momento em que você ganha o Bafta, mais pessoas que votam no Oscar e ainda não assistiram ao seu filme podem enfim dar uma chance." >
Veloso afirma que o reconhecimento pode ser relevante na campanha pelo prêmio americano porque, para produções independentes como Sonhos de Trem e O Agente Secreto, sem grandes estrelas internacionais diante ou atrás das câmeras, o maior desafio muitas vezes é fazer com que os votantes assistam ao filme — e não necessariamente que gostem dele. "Pode não ser um termômetro, mas é um empurrão para o Oscar.">
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