Publicado em 22 de fevereiro de 2026 às 07:12
Aviso: Este artigo contém detalhes sobre abuso sexual.>
O investigador especializado em crimes online Greg Squire havia esbarrado em um beco sem saída no seu esforço para resgatar uma menina vítima de abusos sexuais — apelidada por sua equipe de "Lucy".>
Imagens perturbadoras dela estavam sendo compartilhadas na dark web — uma parte criptografada da internet acessível apenas por meio de softwares especiais projetados para tornar seus usuários digitalmente impossíveis de serem rastreados.>
Mesmo com esse nível de sigilo, o abusador fazia questão de tentar apagar seus rastros, cortando ou alterando quaisquer características que pudessem levar até ele, diz Squire. Era impossível descobrir quem era Lucy ou onde ela estava.>
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Mas Squire logo percebeu que a maior pista para localizar a menina de 12 anos estava ali, diante de seus olhos.>
Squire trabalha para o Departamento de Segurança Interna dos EUA em uma unidade de elite que tenta identificar crianças que aparecem em material de abuso sexual.>
Uma equipe da BBC — incluindo o repórter João Fellet da BBC News Brasil — passou cinco anos registrando o trabalho de Squire e de outras unidades de investigação no Brasil, Portugal e Rússia. >
Os jornalistas filmaram os investigadores resolvendo casos como o de uma menina de 7 anos sequestrada na Rússia e que era dada como morta.>
Outro caso é o de um brasileiro responsável por cinco dos maiores fóruns de abuso infantil na dark web. Ele foi capturado e condenado a 266 anos de prisão.>
Essas histórias são narradas em Infiltrados na dark web, um documentário da BBC News Brasil com a BBC Eye, equipe de investigações da BBC. Assista aqui.>
O acesso inédito da BBC mostra como esses casos são solucionados muitas vezes não por meio de tecnologia de ponta, mas por detalhes reveladores em imagens ou fóruns de bate-papo.>
Squire cita o caso de Lucy, que ele abordou no início de sua carreira, como a inspiração para sua dedicação ao trabalho de vários anos.>
Ele achou especialmente perturbador que Lucy tivesse quase a mesma idade que sua própria filha. Novas fotos dela sendo agredida, aparentemente em seu quarto, apareciam constantemente.>
Squire e sua equipe puderam ver, pelo tipo de interruptores e tomadas elétricas visíveis nas imagens, que Lucy estava na América do Norte. Mas era só isso que eles sabiam.>
Eles entraram em contato com o Facebook, que na época dominava as mídias sociais, pedindo ajuda para vasculhar fotos de usuários na plataforma e ver se Lucy estava em alguma delas. Mas a empresa, apesar de ter tecnologia de reconhecimento facial, disse que "não tinha as ferramentas" para ajudar.>
Squire e seus colegas analisaram então tudo o que conseguiam ver no quarto de Lucy: a colcha, suas roupas, seus bichos de pelúcia. Sempre procurando por qualquer elemento que pudesse ajuda a encontrá-la.>
Até que finalmente tiveram um pequeno avanço. A equipe descobriu que um sofá visto em algumas das imagens era vendido apenas em uma região dos Estados Unidos e não nacionalmente e que, portanto, tinha uma base de clientes mais limitada. Mas isso ainda representava cerca de 40 mil pessoas.>
"Naquele ponto da investigação, ainda estávamos analisando 29 Estados aqui nos Estados Unidos. Quer dizer, estamos falando de dezenas de milhares de endereços, e essa é uma tarefa muito, muito difícil", diz Squire.>
A equipe ainda procurava mais pistas. E foi então que perceberam que uma parede de tijolos aparentes no quarto de Lucy poderia ser uma pista.>
"Comecei a pesquisar tijolos no Google e não demorou muito para encontrar a Associação da Indústria de Tijolos", diz Squire.>
"E a mulher ao telefone foi incrível. Ela perguntou: 'Como a indústria de tijolos pode ajudar?'.">
Ela se ofereceu para compartilhar a foto com especialistas em tijolos de todo o país. A resposta foi quase imediata, diz o agente.>
Uma das pessoas que entrou em contato foi John Harp, que trabalhava com vendas de tijolos desde 1981.>
"Notei que o tijolo era de um tom rosado intenso e tinha uma leve camada de cor carvão. Era um tijolo modular de 20 cm e tinha bordas quadradas", diz Squire. "Quando vi isso, soube exatamente qual era o tijolo.">
Era um "Flaming Alamo", disse o especialista: "[Nossa empresa] fabricou esse tijolo do final dos anos 1960 até meados dos anos 1980, e eu vendi milhões de tijolos dessa fábrica".>
Inicialmente, Squire ficou entusiasmado, esperando que os investigadores pudessem acessar uma lista de clientes digitalizada. Mas Harp revelou que os registros de vendas eram apenas uma "pilha de anotações" que remontavam a décadas.>
No entanto, ele revelou um detalhe crucial sobre os tijolos, conta Squire. "Ele disse: 'Tijolos são pesados.' E acrescentou: 'E tijolos pesados não vão muito longe.'">
Isso mudou tudo. A equipe voltou à lista de clientes do sofá e a restringiu apenas aos clientes que moravam em um raio de 160 km da fábrica de tijolos de Harp, no sudoeste dos Estados Unidos.>
A partir dessa lista de algo entre 40 e 50 pessoas, foi fácil encontrar e vasculhar suas redes sociais. E foi então que encontraram uma foto de Lucy no Facebook com uma mulher adulta que parecia próxima da menina — possivelmente, uma parente.>
Eles descobriram o endereço da mulher e, em seguida, usaram essa informação para encontrar todos os outros endereços ligados a essa pessoa e todos os outros com quem ela já havia morado.>
Isso restringiu ainda mais o possível endereço de Lucy, mas eles não queriam ir de porta em porta fazendo perguntas. Se errassem o endereço, corriam o risco de o suspeito ser alertado de que estava no radar das autoridades.>
Então, Squire e seus colegas começaram a enviar fotos dessas casas para John Harp, o especialista em tijolos.>
Os tijolos Flaming Alamo não eram visíveis na parte externa de nenhuma das casas, porque as propriedades eram revestidas com outros materiais. Mas a equipe pediu a Harp que avaliasse — observando o estilo e o exterior — se essas propriedades haviam sido construídas durante um período em que os tijolos Flaming Alamo estavam à venda.>
"Basicamente, fazíamos uma captura de tela de uma casa e enviávamos para John, perguntando: 'Esta casa teria esses tijolos por dentro?'", diz Squire.>
Finalmente, eles fizeram uma descoberta: encontraram um endereço que Harp acreditava provavelmente ter uma parede de tijolos Flaming Alamo e que constava na lista de clientes do sofá.>
"Então, restringimos a busca a esse endereço e começamos o processo de confirmação de quem morava lá por meio de registros estaduais, carteira de motorista, informações sobre escolas", diz Squire.>
A equipe percebeu que Lucy havia morado na mesma casa que o namorado de sua mãe — um criminoso sexual que já havia sido condenado no passado.>
Em poucas horas, agentes locais da Segurança Interna dos Estados Unidos prenderam o criminoso, que vinha estuprando Lucy havia seis anos. Ele foi posteriormente condenado a mais de 70 anos de prisão.>
Harp, o especialista em construção civil, ficou muito feliz em saber que Lucy estava segura, especialmente considerando sua própria experiência como pai adotivo.>
"Já acolhemos mais de 150 crianças diferentes em nossa casa. Adotamos três. Então, ao longo desses anos, tivemos muitas crianças em casa que sofreram abusos [anteriormente]", disse ele.>
"O que [a equipe de Squire] faz diariamente e o que eles veem é algo muito maior do que já vi ou tive que enfrentar.">
Há alguns anos, a pressão que Squire sofreu em seu trabalho começou a afetar seriamente sua saúde mental. Ele próprio admite que, quando não estava trabalhando, "o álcool era uma parte maior da minha vida do que deveria ser".>
"Naquela época, meus filhos já eram um pouco mais velhos... E, sabe, isso quase te permite se envolver mais. Tipo... 'Aposto que se eu levantar às 3h, posso pegar [um criminoso] online.'", diz o agente.>
"Mas, enquanto isso, na minha vida pessoal... 'Quem é Greg?' Eu nem sei o que ele gosta de fazer.'">
Pouco tempo depois, seu casamento acabou, e ele diz que começou a ter pensamentos suicidas. Foi seu colega Pete Manning quem o encorajou a procurar ajuda.>
"É difícil quando aquilo que lhe dá tanta energia e motivação é também aquilo que o está destruindo lentamente", diz Manning.>
Squire afirma que expor suas vulnerabilidades foi o primeiro passo para melhorar e continuar fazendo um trabalho do qual se orgulha.>
"Me sinto honrado por fazer parte da equipe que conseguiu fazer a diferença, em vez de assistir pela TV ou só ouvir falar sobre o assunto... Prefiro estar lá na luta, tentando impedir que isso aconteça.">
No ano passado, Greg conheceu Lucy, agora uma mulher de 20 e poucos anos, pela primeira vez.>
Ela disse que ser capaz de finalmente falar sobre o que aconteceu é uma prova do apoio que tem ao seu redor.>
"Tenho mais estabilidade. Consigo ter energia para conversar com as pessoas [sobre o abuso], o que eu não conseguiria fazer... Nem mesmo há alguns anos.">
Ela conta que, na época em que o Departamento de Segurança Interna prendeu o criminoso, ela "rezava para que tudo terminasse". "Sem querer soar clichê, mas foi uma oração atendida.">
Squire disse a ela que gostaria de ter podido avisar que estava a caminho. "A gente queria ter telepatia e poder entrar em contato e dizer: 'Escuta, estamos chegando'.">
A BBC perguntou ao Facebook por que não usou sua tecnologia de reconhecimento facial para ajudar na busca por Lucy. A resposta foi: "Para proteger a privacidade do usuário, é importante que sigamos o processo legal apropriado, mas trabalhamos para apoiar as autoridades policiais o máximo possível".>
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