Publicado em 25 de agosto de 2025 às 11:25
Quando Yoshio, um paulista de 80 anos e filho de imigrantes japoneses, precisou deixar o trabalho em uma fábrica no Japão por causa da idade, acreditou que viveria seus últimos anos com tranquilidade. Chegara ao país aos 44 anos e trabalhou por mais de três décadas, até os 75. >
Mas tudo mudou depois de um acidente de trânsito.>
"Andava de bicicleta quando fui atropelado por um carro. O motorista fugiu. Tive que arcar com tudo", conta. >
Em apenas seis meses, todas as economias de uma vida desapareceram com os custos hospitalares.>
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Sem familiares por perto e sem acesso à aposentadoria — já que nunca havia contribuído para o sistema de Seguro Social japonês, que inclui seguro de saúde e pensão —, viu-se completamente desamparado. >
"Só pensava: o que vai ser da minha vida depois do hospital?">
Foi então que recorreu ao Seikatsu Hogo, um programa de assistência social do governo japonês destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade — como idosos sem renda, pessoas com deficiência ou doenças graves. >
Um benefício semelhante ao Bolsa Família, no Brasil. >
"Me senti envergonhado, mas não tive escolha.">
O Japão envelhece rapidamente e depende cada vez mais de trabalhadores estrangeiros para manter sua economia funcionando. Mesmo assim, a concessão de assistência social a não japoneses continua sendo alvo de xenofobia e desinformação.>
Muitos beneficiários estrangeiros evitam entrevistas, com medo de represálias e ataques nas redes sociais — onde circulam acusações infundadas de que "estrangeiros estão abusando do sistema".>
A hostilidade aumentou especialmente durante as eleições para a Câmara Alta do Parlamento, em julho. Diversos candidatos alegaram, de forma falsa, que 33% dos beneficiários do Seikatsu Hogo seriam estrangeiros. A informação viralizou em plataformas como o X (antigo Twitter), alimentando discursos de ódio.>
Mas os números oficiais desmentem essa narrativa: segundo o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão, em 2023 havia cerca de 1,65 milhão de domicílios recebendo o benefício — apenas 2,9% (ou 45.973 famílias) eram de estrangeiros.>
Alguns grupos apresentam taxas de dependência mais elevadas por razões históricas e sociais. É o caso dos zainichi, descendentes de coreanos que migraram ao Japão antes da Segunda Guerra Mundial e permaneceram no país. >
Muitos envelheceram sem rede de apoio ou acesso à aposentadoria.>
Apesar de sua contribuição à sociedade, esses grupos seguem sendo responsabilizados pelos custos crescentes da assistência social, em um país onde mais de 30% da população já tem mais de 65 anos.>
"É essencial discutir as questões sociais do Japão com base em dados confiáveis — não em fake news", afirma o professor Edson Urano, do programa de pós-graduação em Políticas Públicas Internacionais da Universidade de Tsukuba. >
"A disseminação de informações distorcidas apenas alimenta a xenofobia, transformando os estrangeiros em bodes expiatórios de décadas de estagnação social e econômica.">
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Nos últimos anos, o número de estrangeiros vivendo no Japão ultrapassou 3 milhões, impulsionado por políticas migratórias que atraem mão de obra para setores como construção civil, enfermagem e agricultura.>
Os brasileiros, que começaram a chegar em massa nos anos 1990, hoje representam cerca de 5,6% da população estrangeira no país. Muitos se aproximam da aposentadoria, mas grande parte nunca contribuiu para o sistema previdenciário local — o que os deixa fora da rede oficial de proteção social.>
O acordo previdenciário entre Brasil e Japão, em vigor desde 2010, permite a soma do tempo de contribuição nos dois países. Mas muitos trabalhadores brasileiros não ingressaram em nenhum dos sistemas, por falta de informação ou orientação.>
Outros grupos, como os peruanos, aguardam há anos por um acordo semelhante. Mas mesmo que esse acordo venha, já será tarde demais para casos como o de Antonio, de 78 anos. >
"Trabalhei quase 30 anos em fábricas e nunca soube dos meus direitos trabalhistas", conta. >
Ao completar 70, teve que parar. >
"Não devo nada a ninguém. Sempre paguei todos os impostos. Só não sabia do Seguro Social", lamenta.>
Ele e a esposa, uma colombiana de 69 anos, conseguiram abrigo no segundo andar de um prédio cedido por uma igreja em Ota, província de Gunma. >
Após várias entrevistas, conseguiram se mudar para um imóvel público e receber o Seikatsu Hogo, que gira em torno de 100 mil ienes por mês (equivalente a pouco mais de dois salários mínimos no Brasil). Mas o valor não acompanha a inflação. >
"Cortamos tudo o que podemos. Por sorte, ainda temos a comunidade que nos ajuda", diz a esposa.>
Uma dessas redes é a NPO Smile Arigato, uma organização que desde 2022 atua como banco de alimentos, atendendo sobretudo estrangeiros na região metropolitana de Tóquio. >
Todos os sábados, voluntários distribuem alimentos e produtos de higiene para idosos e mães solteiras em situação de vulnerabilidade. São cerca de 450 famílias atendidas por mês, 70% delas brasileiras.>
"Todos são pré-cadastrados. Verificamos se podem receber ajuda, já que alguns municípios proíbem apoio extra ou descontam o valor de quem já recebe o Seikatsu Hogo", explica Akimi Inatomi, voluntária da organização.>
"Trabalhamos em fábricas durante a semana, e aos sábados estamos aqui, fazendo o que dá", diz a brasileira, enquanto carrega caixas de alimentos no depósito da organização, em Oizumi, província de Gunma. >
O conteúdo varia conforme as doações, e é geralmente de produtos secos e às vezes alguns congelados.>
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Para muitos estrangeiros, o paradoxo é evidente: o Japão os recebe como força de trabalho, mas reluta em integrá-los como parte da sociedade. >
"Quando eu trabalhava 12 horas por dia, ninguém reclamava. Agora que estou velho, dizem que estou explorando o país", desabafa Antonio.>
O governador de Shizuoka, Yasutomo Suzuki, defende uma mudança de postura. >
"Precisamos reconhecer os estrangeiros não apenas como força de trabalho, mas como membros das comunidades locais.">
Na Assembleia Nacional de Governadores, em julho, Suzuki propôs que o governo central assuma a responsabilidade por políticas de inclusão. Antes de ser governador, ele foi prefeito de Hamamatsu, cidade com a maior população brasileira do Japão, onde implementou políticas para reduzir a evasão escolar entre filhos de imigrantes.>
Mesmo assim, a proposta enfrentou resistência. Em poucos dias, o governo de Shizuoka recebeu cerca de 200 e-mails e ligações contra a ideia. Entre os argumentos mais repetidos: "É um absurdo usar impostos para apoiar estrangeiros" e "isso é injusto com os japoneses".>
Enquanto o debate se acirra, histórias como a de Yoshio, Antonio e sua esposa seguem invisíveis. A casa que sonhavam construir para envelhecer com dignidade ficou pelo caminho. Os sonhos que os trouxeram ao Japão há três décadas viraram lembranças. >
Hoje, vivem discretamente, com a ajuda da comunidade e da assistência social. Pedem apenas para não serem esquecidos.>
*Os nomes dos entrevistados foram alterados a pedido dos mesmos.>
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