Publicado em 17 de março de 2026 às 06:36
Na terceira semana de guerra dos Estados Unidos-Israel contra o Irã, Donald Trump se vê diante de decisões que podem definir o restante de sua presidência. >
Embora o presidente americano esteja lidando com um conflito que corre risco de sair do controle, essas preocupações não aparecem em público.>
Na segunda-feira (16/03), durante mais de uma hora de declarações públicas na Casa Branca, Trump falou sobre o que pensa do andamento da guerra — mas também sobre reformas no Kennedy Center, planos de construção de um salão de festas na Casa Branca, a Copa do Mundo deste ano, a saúde de um congressista republicano e vários outros assuntos sem relação direta entre si. >
Foi o Trump de sempre: falando de forma improvisada e abordando uma grande variedade de assuntos. >
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No último fim de semana, ele jogou golfe em seu resort na Flórida. E, na plataforma Truth Social, dedicou quase tanto tempo criticando a Suprema Corte quanto falando sobre a guerra no Irã.>
Embora Trump possa estar interessado em outros assuntos, ele se vê diante de uma lição que presidentes americanos anteriores aprenderam da maneira mais difícil: a de que uma guerra pode acabar dominando toda a presidência, querendo eles ou não.>
E continuam surgindo sinais de que a guerra que Trump havia dito anteriormente estar "praticamente vencida" e "muito bem resolvida" agora pode se estender por semanas — ou até mais.>
Na tarde de segunda-feira, o presidente americano anunciou que os EUA solicitaram o adiamento, por cerca de um mês, de uma viagem presidencial planejada à China no início de abril, por causa do conflito.>
"A principal responsabilidade do presidente neste momento é garantir o sucesso contínuo da Operação Epic Fury [Fúria Épica, na tradução livre para o português]", afirmou a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, referindo-se ao nome dado à guerra contra o Irã.>
Durante o fim de semana, o presidente publicou na rede social que ele estava reunindo uma coalizão de forças para ajudar a proteger o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, que tem sido ameaçado por ataques iranianos. >
"Esperamos que a China, França, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e outros países afetados por essa restrição artificial enviem navios", escreveu. >
"De um jeito ou de outro, em breve teremos o Estreito de Ormuz ABERTO, SEGURO e LIVRE!">
Desde esse apelo, contudo, vários países — incluindo Japão, Austrália e várias potências europeias — indicaram que não têm interesse em se juntar a essa coalizão.>
"Não seremos arrastados para uma guerra mais ampla", afirmou o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, na segunda-feira, acrescentando que está aberto a um "plano coletivo viável" para lidar com a situação no estreito.>
Isso deixa Trump diante de uma decisão difícil: se deve ou não comprometer plenamente a Marinha dos Estados Unidos na missão de garantir a segurança do estreito, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo. >
Na segunda-feira, ele afirmou que os EUA estão destruindo os navios iranianos usados para lançar minas marítimas — que representam um grande risco para a navegação no estreito —, mas ressaltou que "basta apenas um".>
"É um pouco injusto", disse. "Você vence uma guerra, mas eles não têm o direito de fazer o que estão fazendo.">
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Há alguns indícios de que os EUA estão se movimentando para manter suas opções militares em aberto. >
Na última sexta-feira, a mídia americana noticiou que o presidente ordenou o envio de uma unidade anfíbia de fuzileiros navais, composta por 5 mil soldados e marinheiros, do Japão para o Oriente Médio.>
Se Trump decidir agir, isso pode colocar as forças americanas em maior risco, devido à proximidade com o Irã.>
Se não agir — e optar por anunciar que os Estados Unidos já atingiram seu objetivo de enfraquecer significativamente o poder militar iraniano e encerrar a campanha militar americana — o Irã poderia continuar representando uma ameaça ao tráfego marítimo, e o preço do petróleo permaneceria elevado. >
Nesse segundo cenário, os EUA podem ter gasto dezenas de bilhões de dólares sem alterar de forma decisiva o equilíbrio de poder no Oriente Médio.>
De acordo com Clifford Young, presidente de assuntos públicos e insights estratégicos da empresa de pesquisas Ipsos, uma alta prolongada nos preços de energia representaria uma ameaça política muito real para um presidente que já enfrenta uma situação delicada com a opinião pública americana.>
Por enquanto, segundo ele, as pesquisas indicam que a base de apoio de Trump continua ao lado do presidente, mesmo que parte desses eleitores tenha dúvidas sobre a operação no Irã e sobre outros temas centrais, como imigração e tarifas. >
A perda de apoio tem ocorrido mais nas margens, entre republicanos moderados e eleitores independentes.>
Embora a popularidade do presidente — com índices de aprovação na faixa dos 40% — deva preocupar os republicanos, ainda há poucos sinais de que a guerra com o Irã esteja prejudicando Trump de forma significativa.>
Isso, porém, pode mudar se o conflito começar a afetar aquilo que os americanos dizem mais se preocupar nas pesquisas: o custo de vida e o poder de compra.>
Os preços, especialmente de moradia, alimentos e bens de consumo, continuam altos, mesmo com a queda da inflação geral ao longo do primeiro ano da presidência de Donald Trump.>
No mínimo, a guerra no Irã desvia a atenção de Trump e de seu governo dos esforços para convencer a população de que o presidente está atento às suas preocupações econômicas. >
E se o preço da gasolina nos postos — motivo de orgulho para Trump até recentemente — continuar alto, isso pode ter consequências sérias para sua posição política.>
O preço médio atual de um galão de gasolina nos EUA, segundo a American Automobile Association, é de US$ 3,72, um aumento expressivo em relação à média de US$ 2,94 registrada um mês atrás. >
"Isso simplesmente bagunça tudo", disse Young. "A agenda de tornar a vida do americano mais acessível financeiramente acaba sendo sabotada do ponto de vista republicano.">
Do outro lado da equação de riscos para o presidente está o perigo muito real que acompanha a decisão de expandir as operações dos Estados Unidos no Oriente Médio.>
Com milhares de fuzileiros navais supostamente a caminho da região, Trump poderia empregar forças terrestres americanas para garantir a segurança do Estreito de Ormuz, controlar os terminais de exportação de petróleo do Irã ou localizar e desmantelar de forma mais completa partes do programa nuclear do país.>
Qualquer uso de tropas americanas, porém, corre o risco de provocar uma reação mais forte da maioria da opinião pública dos Estados Unidos, que vê com desconfiança mais um possível envolvimento militar prolongado do país — inclusive entre muitos que acreditaram nas promessas de campanha de Donald Trump de evitar guerras no exterior.>
"Existe um cansaço com guerras sem fim", disse Clifford Young. "Se colocarmos tropas em solo, isso representa um risco totalmente novo para o governo. Isso muda tudo.">
Se o envolvimento dos EUA no Irã continuar limitado a uma campanha aérea, no entanto, Trump ainda terá tempo para recuperar sua posição política. >
Embora os americanos possam ser rápidos em culpar o presidente pelos aumentos no preço da gasolina, essa irritação geralmente não dura muito se os preços voltam a cair.>
As eleições legislativas de meio de mandato em novembro ainda estão a mais de sete meses, o que dá ao presidente tempo para buscar uma solução que evite uma crise econômica interna.>
"Não precisamos de ninguém", disse Trump na segunda-feira. "Somos a nação mais forte do mundo.">
O desafio para Trump, contudo, é que — com ou sem ajuda — nenhuma das opções que ele tem hoje está livre de riscos, e as chances de uma solução rápida e simples diminuem a cada dia.>
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