Publicado em 17 de março de 2026 às 06:36
O engenheiro João Carlos Natalini passou a última década tentando provar que a morte da filha não foi uma fatalidade.>
Desde setembro de 2015, quando a adolescente Victoria Mafra Natalini, então com 17 anos, desapareceu durante uma atividade escolar em Itatiba, no interior de São Paulo, ele assumiu um papel duplo: de pai e de investigador.>
No início deste mês, a 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu, por unanimidade, condenar a escola Waldorf Rudolf Steiner, na capital paulista, a pagar indenização por danos morais de R$ 1 milhão para o pai de Victoria.>
O STJ reverteu a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), que havia reduzido a indenização para R$ 400 mil. Em primeira instância, o valor fixado havia sido de R$ 1 milhão.>
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Isso representa, segundo ele, uma virada não apenas jurídica, mas também na longa batalha travada pela família. >
"A gente nunca fica feliz em uma situação desse tipo. Mas a gente fica satisfeito que a sentença tenha sido feita da forma como foi, extremamente técnica, e porque foi confirmada a negligência da escola de forma cabal.">
Mas o caso não está encerrado. A expectativa da família agora se desloca para o campo criminal: a responsabilização dos envolvidos na organização da excursão e, principalmente, a identificação do autor do homicídio.>
Natalini afirma que continua movido por um compromisso pessoal. >
"É estafante demais. Isso acaba com a estrutura emocional e psicológica de qualquer pessoa", diz ele. >
"Quero, sim, cumprir meu dever como pai de trazer justiça para minha filha. E gostaria muito que isso fosse feito o quanto antes possível.">
A decisão do STJ, ele diz, retirou parte do peso carregado durante mais de uma década. Mas ele ainda espera o desfecho do caso. "Não é só questão de falta de paz", afirma. >
"Mas a sucessão de absurdos que aconteceu durante esses dez anos, a sucessão de falta de cuidado. Agora, estamos encaminhando para poder chegar em um resultado positivo com respeito a isso e encerrar esse caso que já é tão emblemático.">
Victoria tinha 17 anos quando desapareceu na fazenda Pereiras e foi encontrada morta no dia seguinte.>
Em 11 de setembro de 2015, um ônibus com estudantes da Escola Waldorf Rudolf Steiner, em São Paulo, seguiu em direção à fazenda no interior paulista. Os jovens passariam uma semana ali. >
Segundo o pai de Victoria, a atividade não era opcional. A participação dos estudantes era obrigatória. "Chamavam de excursão, mas eu não gosto desse termo", afirma. "Era um trabalho valendo nota. Não havia possibilidade de o aluno simplesmente não participar.">
A viagem tinha o objetivo de fazer estudos práticos sobre matemática e topografia. Eles fariam um mapeamento detalhado da propriedade rural. Era uma atividade tradicional na escola. >
Tudo parecia bem até o quinto dia da excursão, quando os alunos foram divididos em grupos para mapear diferentes áreas da fazenda. >
Por volta das 14h30 daquele dia, segundo a polícia, Victoria avisou aos colegas de grupo que iria ao banheiro. Ela seguiu por uma trilha em direção à sede do local, a cerca de 500 metros em linha reta. Segundo Natalini, porém, o trajeto real por estrada de terra exigia uma caminhada de 800 a 1.000 metros.>
Essa foi a última vez em que a jovem foi vista com vida, segundo a investigação policial. Cerca de duas horas depois, os colegas de grupo estranharam que ela não havia retornado e procuraram os professores para perguntar se eles sabiam do paradeiro da adolescente.>
Não havia lesão aparente ou qualquer outro indício evidente de que Victoria havia sido vítima de um crime. No começo, a morte dela foi considerada como suspeita, mas a principal possibilidade cogitada era de que tivesse acontecido por causas naturais.>
Após viver os primeiros dias de luto intenso, Natalini começou a questionar o que poderia ter acontecido com a filha. Na época, chegaram a noticiar que a garota tinha histórico de convulsões, o que foi negado pela família.>
Natalini conta que a filha era saudável, se alimentava bem e praticava esportes. Em razão disso, ele achava pouco provável que Victoria tivesse morrido por problemas de saúde.>
O primeiro laudo do Instituto Médico Legal (IML) de Jundiaí apontou "causa indeterminada, sugestiva de morte natural". Autoridades passaram a levantar a hipótese de convulsão ou problema de saúde súbito.>
Mas a família imediatamente rejeitou a tese. "Eu zelava muito pela saúde da minha filha. Então só isso já destoava da realidade", diz Natalini.>
Nos meses seguintes ao enterro, ele afirma ter mergulhado em uma depressão profunda. "Fiquei muito chocado e deprimido. Essa é a palavra técnica mesmo. Nos primeiros meses, fiquei bastante incapacitado.">
Mas a insistência das autoridades na hipótese de morte natural acabou provocando um movimento que mudaria o rumo do caso.>
Diante da percepção de que a investigação não avançava, a família decidiu contratar peritos independentes e reconstruir, por conta própria, a dinâmica da morte. >
"Foi quando percebemos que teríamos que assumir um papel que deveria ser do Estado. A gente teve que investigar sem ter poder de polícia.">
A análise da geografia do local reforçou as dúvidas. A versão inicial da polícia de que ela teria sofrido um mal súbito a caminho do banheiro foi questionada devido ao fato do corpo ter sido encontrado a 1.200 metros de distância, em uma direção completamente oposta à sede da fazenda.>
"Quem é vítima de um mal súbito não vai terminar os seus momentos deitado de bruços, como se estivesse dormindo. A pessoa vai ficar encolhida, vai ficar numa posição a tentar reduzir esse mal-estar", afirma Natalini. "Não era o que aparecia naquela cena de crime, que precisava ser bem investigada.">
A pressão da família levou à transferência do caso da polícia de Itatiba para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), em São Paulo.>
Em 2016, um novo laudo mudou completamente a narrativa: Victoria morreu por asfixia mecânica, por sufocação direta — provavelmente causada por alguém que tapou sua boca e seu nariz com as mãos.>
A morte passou oficialmente a ser tratada como homicídio.>
Paralelamente à investigação criminal, a família moveu ação civil contra a escola. A discussão percorreu mais de uma década no Judiciário até chegar ao STJ. Segundo Natalini, a decisão consolidou tecnicamente pontos que a família sustentava desde o início. >
"Foi confirmada a falta de estrutura, a inexistência de plano de contingência e o fato de que os professores que deveriam estar acompanhando os alunos estavam confortavelmente na sede da fazenda", afirma.>
O tribunal também destacou, segundo ele, que Victoria permaneceu desaparecida durante horas sem que educadores percebessem.>
Outro ponto citado foi a sequência de decisões tomadas pelos educadores após o desaparecimento, como, por exemplo, o fato de os professores terem colocado os próprios alunos para procurar a adolescente na mata. "Foram atitudes descabidas que colocaram outros alunos potencialmente em risco", diz.>
O aumento da indenização pelo STJ, que havia sido reduzida para R$ 400 mil pelo TJ-SP, foi interpretado pelo pai como medida pedagógica. "Quer queira quer não, isso vai coibir que aconteça com outras crianças e jovens em situação semelhante.">
Apesar da decisão judicial, Natalini afirma que versões equivocadas sobre a morte da filha continuam circulando. "Até hoje, existem pais dentro da escola que acreditam que minha filha morreu de mal súbito", afirma. >
"Circularam todos os tipos de história que manchavam a memória dela.">
Para ele, a decisão do STJ representa também uma reparação simbólica. "Agora fica cabal e claro que foi um homicídio.">
A escola afirmou à BBC News Brasil, por meio de nota, que "a trágica perda de Victoria" é "sentida até hoje por todos que trabalham, estudam ou prestam serviço" à instituição.>
A escola afirmou que, desde o início, esteve à disposição das autoridades para contribuir com a investigação e que a excursão à fazenda ocorria desde 2005 sem nenhuma intercorrência. >
Por fim, a instituição disse que já foi responsabilizada civilmente pela morte de Victoria e que lamenta profundamente que as circunstâncias do falecimento da aluna ainda não tenham sido esclarecidas.>
O inquérito policial foi desmembrado em duas frentes. A primeira investiga a responsabilidade de professores e gestores pelo possível crime de abandono de incapaz com resultado morte. Já a segunda busca identificar quem matou Victoria.>
"Os gestores que organizaram aquele trabalho precisam ser responsabilizados", afirma Natalini. >
"Não havia monitores suficientes, não havia controle dos alunos, não havia comunicação por rádio nem plano de emergência. Era uma estrutura extremamente amadora para uma atividade com 34 adolescentes.">
A investigação sobre o autor do homicídio chegou a ser arquivada por falta de suspeitos — decisão revertida em junho 2025 pela própria polícia, após insistência da família. O entendimento foi que o caso, que tramita em segredo de Justiça, deixou de ouvir testemunhas importantes e ainda tinha diligências pendentes.>
Hoje, Natalini diz acompanhar regularmente o andamento das diligências no DHPP. "As investigações estão em fase final de apuração. Para quem conhece o inquérito, está tudo lá para apontar suspeitos.">
Ele afirma acreditar que o caso se aproxima de uma conclusão. "Confio muito na equipe atual do DHPP e espero que finalmente possamos ter paz, depois de tanto tempo.">
Por trás de laudos periciais, decisões judiciais e volumes processuais, permanece o vazio deixado pela adolescente. Quando fala da filha, o discurso técnico do engenheiro muda de tom.>
"Minha filha foi uma das melhores pessoas que eu conheci em termos de coração, delicadeza e gentileza", diz.>
A música envolve as lembranças do pai desde a infância de Victoria. "Eu colocava música clássica no escuro e ficava dançando com ela no colo até dormir.">
"Um dia, indo para a escola, ela disse: 'Pai, hoje quero ouvir música de criança'. Perguntei qual era. Ela respondeu: Scorpions e Beatles.">
Poucos dias após a excursão escolar, a família viajaria a Porto Alegre para assistir a um show do Queen. Passagens, hotel e ingressos já estavam comprados.>
Victoria também começava a desenhar planos para o futuro. Perto do vestibular, descobriu o interesse pela gastronomia. "Ela começou a cozinhar em casa, principalmente doces, e falou: 'Pai, quero ser chef de cozinha'. Era o sonho dela.">
Sem respostas definitivas após mais de uma década, o pai decidiu transformar a busca por justiça também em mobilização pública.>
Um abaixo-assinado online reúne dezenas de milhares de assinaturas pedindo avanço nas investigações. Nas redes sociais, páginas criadas pela família divulgam atualizações e pressionam autoridades.>
"A gente percebeu que essa dor não é só nossa. Existe muita gente passando por situações semelhantes.">
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