Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 19:10
Os grandes salões internos do Titanic vão, aos poucos, sendo tomados pela água. Vídeos projetados no piso, no teto e nas paredes de um galpão no sul de Londres mostram móveis e estruturas desaparecendo sob as ondas.>
Essa é uma das atrações centrais de The Legend of the Titanic: The Immersive Exhibition (A Lenda do Titanic: A Exposição Imersiva, em tradução livre), criada para fazer com que o público se sinta a bordo do transatlântico que naufragou em 1912.>
A exposição busca fazer essa imersão com projeções de vídeo e trechos de realidade virtual (VR, na sigla em inglês). Os visitantes usam óculos especiais.>
Na loja da exibição, há apitos para chamar atenção e cartões-postais do navio afundando cercado por icebergs. >
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Casais formam fila para posar diante de um fundo verde e recriar a famosa cena protagonizada por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet no filme Titanic (1997), dirigido por James Cameron, na proa da embarcação. >
Outros jogam videogames de "desvie do iceberg", em que é preciso conduzir o navio entre obstáculos de gelo, ou tomam prosecco no bar.>
São de fato envolventes os recursos de realidade virtual, que permitem caminhar pelo convés sob o sol, percorrer os interiores luxuosos do navio e até descer em um submersível até os destroços. >
Já a parte da experiência em que o visitante fica cercado por projeções em 360 graus do navio se enchendo de água parece de mau gosto e mais "voyeurística" do que educativa ou emocional.>
A exposição é bem avaliada no site TripAdvisor, com nota 4,2, e visitantes elogiam a tecnologia de realidade virtual, os painéis informativos e as narrativas apresentadas. >
Julie Akhtar, de Virginia Water, no condado de Surrey (Reino Unido), afirmou ter se sentido transportada "desde o momento em que atravessamos as portas" e disse que o uso de VR a fez "se sentir parte" da vida a bordo do navio. >
Sua única crítica foi o preço dos ingressos (£32 por adulto, cerca de R$ 237) e a sensação de que "tirar uma foto posando como Kate Winslet e Leonardo DiCaprio pareceu um pouco comercial". >
Sarah Mattock, de Brighton (Reino Unido), também ficou impressionada. >
"Eu já sabia que seria um pouco brega, mas sempre fui intrigada pelo Titanic desde jovem.">
Essa é uma de pelo menos três experiências imersivas sobre o Titanic em cartaz no Reino Unido no momento. >
Em Titanic: Echoes from the Past (Titanic: Ecos do Passado, em tradução livre), outra atração do gênero localizada no bairro de Camden, no norte de Londres, o público presencia o momento em que o navio colide com o iceberg. >
Diferentemente de The Legend of the Titanic, trata-se de uma experiência apenas com realidade virtual.>
Com meus óculos posicionados, fico frente a frente com membros da tripulação. >
Mais adiante, caminho em direção à proa, até que a experiência me leva àquela noite fatídica. >
A música orquestral cresce à medida que o navio se aproxima lentamente do iceberg, até que o impacto arremessa trabalhadores ao chão. >
A tripulação repete "vamos lá, vamos conseguir". Em seguida, ouve-se o gelo raspando ao longo do casco.>
A história do Titanic é apenas um dos muitos episódios históricos que hoje podem ser revisitados em formato imersivo. >
Outra atração em cartaz na capital britânica aborda uma das erupções vulcânicas mais destrutivas da história.>
A experiência The Last Days of Pompeii (Os Últimos Dias de Pompeia, em tradução livre), exibida no leste de Londres, recria a aniquilação da cidade romana pela atividade do Monte Vesúvio em 79 d.C.>
Uma projeção de oito metros de altura mostra a cidade em chamas, fazendo com que o público se sinta cercado por cinzas e brasas queimando. >
Com o recurso da realidade virtual, visitantes fazem um passeio de biga (tipo de veículo puxado por cavalos) por uma arena repleta de espectadores; em outro momento, circulam pela casa de uma família na noite do desastre.>
Também fui convidado a ficar em pé e olhar para uma câmera instalada no teto para posar para uma foto, disponível para compra, na qual minha imagem aparecia sobreposta a um fundo de lava derretida — dando a impressão de que eu emergia do topo do monte Vesúvio.>
Essas novas experiências imersivas estão bombando. >
O mercado global do entretenimento imersivo foi estimado em mais de US$ 114 bilhões (aproximadamente R$ 631,71 bilhões) em 2025.>
Projeções indicam que o valor pode chegar a US$ 412 bilhões (cerca de R$ 2,28 trilhões) até 2030.>
No Reino Unido, as buscas pelo termo "experiência imersiva" na plataforma de eventos Eventbrite cresceram 83% no último ano, segundo um porta-voz ouvido pela BBC.>
Formas tradicionais e "passivas" de mídia e de performances estão "estagnadas ou em declínio", enquanto "experiências centradas no engajamento e na interatividade dos participantes continuam a crescer", diz o relatório "Evolving Immersive: The 2025 Immersive Entertainment & Culture Industry Report", publicado pelos institutos Gensler Research Institute e pelo Immersive Experience Institute.>
Experiências imersivas sobre o Titanic estão em cartaz também em São Paulo, Los Angeles, Cincinnati, Hamburgo, Singapura, Copenhague e muitas outras cidades ao redor do mundo.>
O navio com destino trágico se consolidou como um dos temas mais populares desse tipo de atração. >
Alguns fatores explicam esse fascínio. >
O enorme transatlântico era considerado inafundável, e o fato de sua viagem fatídica ter vitimado algumas das pessoas mais ricas do planeta, justamente aquelas que raramente enfrentam dificuldades, chama atenção por si só.>
"É uma das tragédias mais emblemáticas, um símbolo da fragilidade da humanidade diante do imenso poder da natureza", afirmou Tim Maltin, historiador e pesquisador do Titanic. >
"Uma das frases citadas [em Echoes from the Past] é 'todos nós somos passageiros do Titanic', e isso é verdade em certa medida. A história fala da própria condição humana.">
Não falta público interessado em embarcar nessa viagem. >
Desde a inauguração, em fevereiro, mais de 45.000 pessoas colocaram os óculos de realidade virtual para vivenciar Echoes from the Past, segundo os organizadores, em informações repassadas à BBC. >
Ainda assim, há quem critique esse tipo de experiência imersiva centrada em desastres, alegando que ela explora tragédias históricas reais ao transformá-las em entretenimento.>
Críticas desse tipo não são novidade. No passado, elas já foram dirigidas a produções que vão do próprio filme Titanic a videogames como a série Call of Duty, que permite aos jogadores participar de conflitos históricos. >
O caráter profundamente imersivo dessas novas experiências, no entanto, pode intensificar o debate sobre a adequação desse tipo de atração.>
Em sua resenha de duas estrelas da exposição The Legend of the Titanic, Anna Moloney, do jornal londrino City AM, fez críticas à ética da atração. >
Em entrevista à BBC, ela afirmou que a exibição se coloca no "território entre a educação e o entretenimento".>
"Mas, de jogos de 'desvie do iceberg' a sessões de fotos sorridentes diante da câmera, fica claro qual dos dois é priorizado. Nenhuma exposição sobre uma tragédia deveria ser divertida; passar por uma pedra solene que exibe os nomes de todos os que perderam a vida na tragédia para, em seguida, ser conduzido a uma loja que vende apitos de emergência como lembrança beira o grotesco", avalia Moloney.>
Os criadores de The Legend of the Titanic não estavam disponíveis para falar com a BBC. >
Karl Blake Garcia, diretor do espaço de Titanic: Echoes from the Past, reconhece que há questões sérias na forma de contar histórias sobre tragédias reais. >
"Não estou aqui para desqualificar nenhuma outra experiência", afirmou, "mas consigo identificar qualidade quando a vejo… Echoes from the Past não é sobre truques ou sobre sensacionalizar uma tragédia. De vez em quando, algum visitante pergunta: 'Ah, eu queria ver o navio afundar', mas achamos [essa ideia] um pouco de mau gosto. É possível vivenciar o impacto do iceberg, mas não vamos mostrar o navio afundando e centenas de pessoas perdendo a vida. Simplesmente não é isso que queremos fazer.">
O acadêmico Adam Heardman, autor do artigo "Against Immersion" ("Contra a Imersão", em tradução livre), publicado na revista Art Monthly, mostra-se cético quanto ao valor das experiências imersivas em geral. >
Em entrevista à BBC, ele afirmou que a ascensão desse tipo de atração representa "um desenvolvimento sinistro na paisagem cultural urbana". >
Para Heardman, essas exibições estão mais ligadas a uma lógica de "geração de dinheiro agressiva" do que à oferta de uma experiência cultural valiosa. >
Sobre as experiências relacionadas ao Titanic, em particular, ele diz que "não é difícil entender por que transformar a morte trágica de mais de mil pessoas no mar em uma atração turística de grande apelo pode ser um pouco exploratório".>
Mas nem todos os críticos concordam com essa avaliação. >
Andrzej Lukowski, editor de teatro da revista Time Out, afirma que a exposição The Legend of the Titanic é bem-sucedida por ser "simplesmente grande, barulhenta e tecnológica, e tratar de um tema que fascina as pessoas há um século".>
E existe o argumento de que as pessoas sempre foram atraídas, de forma sombria, por tragédias. >
No livro Morbidly Curious (Curiosidade Mórbida, em tradução livre), o psicólogo Coltan Scrivner sustenta que a tecnologia apenas criou novas maneiras de satisfazer esse fascínio. >
"Podemos criar simulações imersivas e envolventes de desastres que atraiam milhões de pessoas", disse à BBC. >
"Isso não significa que hoje as pessoas estejam mais interessadas no macabro; apenas que esse interesse se tornou mais acessível. Minhas pesquisas indicam que a curiosidade mórbida é um traço perfeitamente normal, comum e variável entre as pessoas, como qualquer outro traço de personalidade." >
Sob essa perspectiva, ele considera que experiências imersivas sobre desastres "não são antiéticas".>
Outra questão, completamente distinta, é a da precisão. >
Informações exibidas em painéis da exposição The Legend of the Titanic apresentam diversos erros de digitação e de espaçamento, além de "fatos" questionáveis — como um texto que afirma que "para os passageiros mais jovens e também para os solteiros, a principal diversão a bordo do Titanic, e de todos os transatlânticos, era flertar". >
Pessoas nas redes sociais também têm apontado imprecisões. >
O material promocional de The Legend of the Titanic mostra o navio colidindo com o iceberg pelo lado de bombordo, em uma noite nublada e com o mar relativamente agitado. >
"Chamem-me de pedante", escreveu um usuário no Facebook, "mas o Titanic raspou o iceberg pelo lado de estibordo, não pelo bombordo, como retratado na arte de vocês. Ah, sim, e estava escuro, com o céu limpo".>
Representantes da exposição não responderam ao pedido de comentário da BBC Culture sobre essas questões de precisão.>
Richard Parry, diretor-executivo da Experience UK, entidade setorial encarregada de impulsionar a chamada "economia da experiência" no país, afirma não ter conhecimento de iniciativas para estabelecer diretrizes éticas para exposições imersivas históricas, como aquelas que existem para museus — seja em relação à qualidade, seja à adequação do conteúdo. >
Para ele, o próprio mercado acabará por "se autorregular" quanto ao que é ou não uma fonte apropriada de material.>
Em meio aos questionamentos sobre o valor dessas experiências, uma coisa parece certa: elas devem se tornar cada vez mais presentes no cenário cultural. >
Como resume Parry, "não há limite para o que pode ser reproduzido se houver demanda".>
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