Publicado em 4 de março de 2026 às 06:08
Distante mais de 10 mil quilômetros de Teerã, a capital do Irã, o Brasil pode se transformar em um dos potenciais "beneficiários" do conflito iniciado no Oriente Médio depois que os Estados Unidos e Israel realizaram ataques ao Irã, no sábado (28/2).>
Segundo analistas ouvidos pela BBC News Brasil, isso aconteceria porque, na segunda-feira (2/03), o Irã anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde estima-se que passe aproximadamente 20% da produção global de petróleo.>
Neste cenário, países da Europa e da Ásia, entre eles a China, Índia e Japão, teriam que buscar novas fontes de petróleo bruto para suprir a queda no fluxo do produto represado no Golfo Pérsico e isso poderia alavancar as exportações de petróleo do Brasil, que desde 2024 se tornou o principal item da pauta de exportação do Brasil, superando a soja e o minério de ferro.>
Os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que o Brasil estaria bem posicionado para atender uma eventual demanda resultante do agravamento da crise no Oriente Médio, uma vez que o Brasil já tem uma rede estruturada de portos e oleodutos voltados para a exportação de petróleo e porque a rota entre o país e esses mercados não passa por pontos sensíveis como o Estreito de Ormuz.>
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Eles avaliam, no entanto, que o Brasil só deverá se beneficiar desse cenário se a situação se prolongar pelas próximas quatro semanas ou mais e se o Brasil conseguir ampliar sua produção para além dos patamares atuais.>
A atual crise no Oriente Médio começou no sábado (28/2), depois que os Estados Unidos e Israel iniciaram uma série de ataques a alvos iranianos. >
Os ataques atingiram prédios oficiais e alvos civis e mataram o então líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Além dele, pelo menos outros três oficiais do alto comando do governo iraniano também teriam sido mortos.>
O presidente norte-americano, Donald Trump, alegou que os ataques tinham o objetivo de eliminar "ameaças iminentes do regime iraniano", que o Irã teria tentado reconstruir o seu programa nuclear e continuaria a desenvolver um programa de mísseis de longo alcance capaz de ameaçar países europeus e, futuramente, os Estados Unidos.>
O regime iraniano rebate essas acusações e afirma que seu programa nuclear tinha fins pacíficos.>
Em resposta aos ataques dos Estados Unidos e Israel, o Irã disparou uma série de mísseis em direção a Israel e a instalações norte-americanas localizadas em países do Golfo Pérsico como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar e Kuwait.>
Na tarde de segunda-feira, um porta-voz da Guarda Revolucionária do Irã anunciou que o país fecharia o fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz.>
Essa passagem tem cerca de 33 quilômetros de largura e recebe um fluxo intenso de navios petroleiros que transportam o óleo produzido por diversos países árabes, além do Iraque e do Irã.>
Matt Smith é consultor da empresa Kpler, uma das maiores firmas de análise de dados de navegação do mundo.>
Ele diz à BBC News Brasil que os maiores compradores do petróleo que passa pelo Estreito de Ormuz são os países asiáticos como China, Índia e Japão.>
"A China, sozinha, consome metade de todo o petróleo produzido no Oriente Médio e uma parte significativa disso é escoada pelo Estreito de Ormuz. Se a situação se prolongar, a China, por mais que tenha estoques, vai ter que procurar alternativas de suprimento. E o Brasil está bem posicionado para atender essa nova demanda e pode se tornar uma opção viável", explica.>
Dados do governo brasileiro apontam que a China já é o principal destino do petróleo exportado pelo Brasil. Em 2025, o Brasil exportou US$ 44 bilhões em petróleo bruto para o mundo todo. Desse total, US$ 20 bilhões (45%) foram para a China.>
O presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), Roberto Ardenghy, diz à BBC News Brasil que ainda é cedo para estimar se a crise no Irã vai beneficiar a indústria do petróleo brasileira.>
Ele afirma, porém, que se o cenário se agravar ou se mantiver nos níveis atuais, a tendência é de que o Brasil, possa, sim, ser um dos potenciais beneficiados.>
"Nós não sabemos quanto tempo durarão os estoques estratégicos dos principais países. Calculamos algo em torno de três ou quatro meses. Se as coisas continuarem assim, com a queda dos estoques, países como o Brasil, Argentina, Nigéria e Guiné Equatorial vão despontar como fornecedores alternativos para o petróleo represado do Golfo Pérsico", diz Ardenghy.>
Smith afirma que outros países também poderiam procurar o Brasil buscando substituir, ao menos temporariamente, o petróleo que passa por Ormuz.>
"Quanto mais a crise se prolongar, mais preocupados os consumidores da Ásia e da Europa vão ficar e eles terão que procurar novas alternativas. O Brasil, portanto, não se beneficiaria apenas vendendo para a China, mas também para a Europa".>
Ardenghy alerta para um outro fator que pode limitar o quanto o Brasil pode se beneficiar ou não de uma mudança, ainda que temporária, da cadeia global de petróleo: a capacidade de produção brasileira.>
Segundo ele, o Brasil produz, em média, 3,6 milhões de barris de petróleo por dia e exporta 1,6 milhão. O restante, é consumido pelo próprio mercado interno.>
Ele estima que, até 2029, o Brasil conseguiria aumentar sua produção para 4,2 milhões de barris apenas com base nos projetos em andamento, o que poderia levar o Brasil a chegar ao posto de sexto maior produtor mundial de petróleo.>
Ardenghy pondera, no entanto, que na atual conjuntura, o Brasil teria dificuldades para suprir demandas adicionais de petróleo imediatamente.>
"Não tem como aumentar a exportação no curto prazo. A curva de crescimento da produção é gradual, podendo levar alguns meses ou anos para que tenhamos mais produção e um impacto positivo sobre a exportação", diz.>
O potencial aumento do preço e da procura por petróleo brasileiro já se refletiu nos valores das ações da Petrobras e de outras petroleiras brasileiras.>
As ações preferenciais da Petrobras, por exemplo, subiram 3,57% entre sexta-feira e terça-feira, acompanhando movimentos similares de petroleiras ao redor do mundo.>
A expectativa entre os investidores é de que o aumento do preço do petróleo no mercado internacional eleve as margens de lucro dessas companhias.>
Os analistas e o governo brasileiro avaliam que a crise no Irã e o seu impacto sobre a indústria do petróleo podem gerar efeitos mistos sobre o Brasil.>
Para o governo, por um lado, o aumento no preço do petróleo pode aumentar a quantidade de dividendos que ele recebe da Petrobras, já que o governo federal é o principal acionista da companhia.>
Em 2024 (último ano cujos dados estão disponíveis), o governo recebeu R$ 28,8 bilhões em dividendos pagos pela companhia, um valor que ajudou a fechar as contas públicas.>
Além disso, o aumento no preço ou nas exportações de petróleo pode aumentar, também, a arrecadação de tributos.>
"O governo vai passar a arrecadar mais dinheiro por conta do pagamento de royalties do petróleo, participações especiais e com a própria arrecadação de tributos", explica Ardenghy.>
Ao portal UOL, o secretário do Tesouro, Rogério Ceron, disse que a crise no Irã pode ter esse efeito positivo sobre a economia brasileira.>
Ele porém, avalia que esse aumento no preço do petróleo pode ter efeitos negativos como pressão inflacionária.>
Roberto Ardenghy, do IBP, explica como o prolongamento da crise pode afetar o Brasil negativamente.>
"O Brasil exporta petróleo, mas importa gasolina e diesel. Quando você tem uma mudança no patamar do preço do petróleo, isso afeta a cadeia petroquímica. Isso vai fazer com que a refinaria aumente o preço dos seus produtos e isso pode ter um impacto sobre outros setores da economia", afirma.>
Tanto Smith quanto Ardenghy ponderam que o aumento da procura pelo petróleo brasileiro só deverá se concretizar se a crise no Oriente Médio demorar a ser solucionada.>
"É preciso que a instabilidade se mantenha por pelo menos quatro semanas para que a gente veja uma mudança no fluxo de compra do petróleo. Se o Estreito de Ormuz, por exemplo, for reaberto logo, talvez a gente não veja essa busca por parceiros alternativos neste momento", diz Smith.>
O analista diz, ainda, que o fechamento de Ormuz pode ser visto como um movimento de desespero do governo iraniano, mas que, no longo prazo, tende a prejudicar o próprio país.>
"A maior parte das exportações de petróleo do Irã também passa por lá. Fechar o Estreito de Ormuz acaba prejudicando a economia do Irã, cuja principal fonte de renda é, justamente, o petróleo".>
Ele destaca que mesmo em meio à instabilidade da região, do ponto de vista logístico, o petróleo do Oriente Médio é mais competitivo que o brasileiro por conta da distância. Em média, um petroleiro pode levar um mês e meio para chegar à China, enquanto um navio leva em torno de 20 dias para sair do Golfo Pérsico e chegar ao país asiático.>
Ardenghy diz, também, que um fechamento do Estreito de Ormuz por muito tempo é uma situação sem precedentes e que não ocorrerá sem reações ou pressões geopolíticas.>
"Há um interesse estratégico das superpotências para manter a navegabilidade do Estreito de Ormuz e um dos principais interessados é a China que vai exercer algum tipo de pressão para que a situação se resolva", diz.>
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