Publicado em 9 de julho de 2023 às 17:51
A maioria das pessoas sabe que os fatores de risco para doenças cardíacas são pressão alta, tabagismo, colesterol alto e excesso de peso.>
No entanto, muitas pessoas que sofrem um ataque cardíaco não apresentam nenhum desses fatores de risco tradicionais.>
Pesquisas revelam que condições como gota, psoríase, doença inflamatória intestinal e artrite reumatoide também são fatores de risco para doenças cardíacas. O que esses pacientes têm em comum é a inflamação crônica.>
Na verdade, alguns pesquisadores passaram a repaginar a doença cardiovascular como uma doença inflamatória crônica das artérias. Os cientistas às vezes se referem ela como a hipótese inflamatória da doença aterosclerótica cardiovascular (DASCV o, na sigla em inglês, ASCVD).>
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A aterosclerose ocorre quando placas de gordura se desenvolvem nas paredes de nossas artérias, tornando-as rígidas. Quando isso acontece nas artérias que fornecem sangue oxigenado ao coração, chamamos de doença arterial coronariana.>
Ela pode causar ataques cardíacos, nos quais quantidade insuficiente de sangue é fornecida ao coração, e derrames isquêmicos, nos quais quantidade insuficiente de sangue chega ao cérebro. Para entender por que a aterosclerose é uma condição inflamatória, devemos considerar como esse processo começa.>
Acredita-se que o primeiro estágio do desenvolvimento da aterosclerose seja algum tipo de lesão no endotélio, a única camada de células que reveste as artérias. Isso pode ser causado por altos níveis de colesterol de lipoproteína de baixa densidade (LDL), às vezes chamado de "colesterol ruim".>
As toxinas dos cigarros também podem irritar o revestimento das artérias, causando essa lesão inicial. Quando as células endoteliais são lesadas, elas liberam mensagens químicas que atraem glóbulos brancos, um importante componente do sistema imunológico, para o local.>
Esses glóbulos brancos entram na parede da artéria e causam inflamação nela. Os glóbulos brancos também consomem o colesterol nas paredes delas, levando à formação de "estrias de gordura", um dos primeiros sinais visíveis de aterosclerose.>
Estrias de gordura começam a se formar em uma idade jovem. Quando chegamos aos 20 anos, a maioria de nós tem alguma evidência de estrias gordurosas em nossas artérias.>
Esse processo de dano às células endoteliais, infiltração de glóbulos brancos e inflamação crônica pode continuar silenciosamente ao longo dos anos, eventualmente levando ao acúmulo de placas nas artérias.>
Isso também pode explicar por que pessoas com condições inflamatórias crônicas correm maior risco de doença cardiovascular.>
A inflamação de longo prazo das artérias que irrigam o coração e o cérebro pode levar a ataques cardíacos e derrames.>
Um ataque cardíaco ocorre quando uma placa na artéria que irriga o coração se torna instável. Isso pode levar à ruptura (estouro) da placa, levando à formação de um coágulo na artéria e à interrupção do fornecimento de sangue ao músculo cardíaco.>
As pessoas que sofrem um ataque cardíaco geralmente apresentam níveis aumentados de inflamação e instabilidade da placa nos dias e semanas que antecedem o evento. O eventual "ataque cardíaco" e o dano resultante ao músculo cardíaco podem ser vistos como esse processo inflamatório instável atingindo seu ápice.>
Como esse processo inflamatório crônico ocorre sem sintomas, muitos pacientes sem fatores de risco tradicionais para doenças cardíacas não percebem que estão em risco aumentado para doenças cardíacas.>
Felizmente, existe uma maneira de medir a inflamação no corpo. Uma maneira de fazer isso é com um exame de sangue chamado teste de proteína C-reativa de alta sensibilidade (PCR-as).>
Pessoas com níveis elevados de PCR-as correm maior risco de ataques cardíacos e derrames. Níveis elevados de colesterol LDL também são um fator de risco para a aterosclerose.>
Vários estudos já mostraram que pessoas com colesterol LDL alto e PCR-as parecem ter maior risco de doença cardiovascular.>
Um grande ensaio clínico chamado Cantos testou a hipótese inflamatória da doença cardiovascular ao tratar pacientes pós-ataque cardíaco com altos níveis de PCR-us com um anti-inflamatório chamado canaquinumabe.>
O uso dessa droga antiinflamatória reduziu os níveis de PCR-as e resultou em uma redução pequena, mas estatisticamente significativa, no número de ataques cardíacos experimentados por esses pacientes. Infelizmente, também parecia haver um risco aumentado de infecções no grupo que recebeu o medicamento.>
Esse risco, juntamente com o alto custo do medicamento, significa que não é provável que comecemos a usar canaquinumabe para tratar a aterosclerose tão cedo.>
No entanto, o estudo foi considerado inovador porque sustentou a hipótese de que a inflamação desempenha um papel importante na aterosclerose e que abordar a inflamação pode ser útil na redução do risco de eventos cardiovasculares recorrentes.>
Mudar a maneira como pensamos sobre os fatores de risco de aterosclerose pode nos permitir identificar melhor os pacientes com risco de ataques cardíacos e derrames.>
Além disso, isso pode nos permitir focar no tratamento da inflamação para reduzir o risco cardiovascular. Vários estudos já estão analisando o uso de anti-inflamatórios mais baratos, como colchicina e metotrexato, para reduzir a inflamação e prevenir a progressão de doenças cardiovasculares.>
Felizmente, é possível reduzir a inflamação em nosso corpo sem recorrer a medicamentos. Podemos pensar em tudo o que fazemos em nossas vidas como pró-inflamatório ou anti-inflamatório.>
Fumar é pró-inflamatório, pois as toxinas dos cigarros irritam o corpo. Níveis elevados de colesterol no sangue e uma dieta rica em alimentos ultraprocessados também podem levar à inflamação crônica em nossas artérias.>
Por outro lado, acredita-se que uma dieta rica em frutas, vegetais, grãos integrais e peixes oleosos seja anti-inflamatória.>
O exercício também reduz os níveis de inflamação no corpo. A obesidade, particularmente o excesso de peso ao redor da cintura, parece causar inflamação crônica. Perder peso ao redor da barriga ajudará a reduzir essa inflamação.>
O estresse também pode induzir uma resposta inflamatória crônica de baixo grau no corpo, e é importante tentar administrar nossos níveis de estresse. Também é vital manter a pressão sanguínea, o colesterol e o índice de massa corporal saudáveis, marcadores tradicionais do risco de doenças cardíacas.>
Ao escolher opções anti-inflamatórias e levar um estilo de vida saudável, todos podemos reduzir nossas chances de desenvolver doenças cardíacas e melhorar nossa qualidade de vida.>
*Robert Byrne é Diretor de Pesquisa Cardiovascular na RCSI University of Medicine and Health Sciences na Irlanda. JJ Coughlan é pesquisador em cardiologia interventiva na RCSI University of Medicine and Health Sciences na Irlanda.>
*Este artigo foi publicado no The Conversation e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons. Clique aqui para ler a versão original (em inglês).>
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