Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 14:09
Há 92 anos, Santa Catarina adquiriu notoriedade por ser berço do primeiro deputado federal a subir à tribuna da Câmara para se declarar comunista.>
O gesto contrasta com a conjuntura política atual do Estado, apontado como bastião da direita, tendo atraído até dois filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — o vereador de Camboriu Jair Renan Bolsonaro e o candidato a deputado federal Carlos Bolsonaro —, que escolheram o solo catarinense como domicílio eleitoral.>
Ao se declarar comunista, em 1934, quando o próprio Partido Comunista do Brasil (PCB) estava na ilegalidade, o estivador Alvaro Soares Ventura (1893-1989) assegurou um lugar na história.>
A atitude, porém, é quase uma nota de rodapé na trajetória desse descendente de portugueses natural de Coqueiros, então distrito de São José, na Grande Florianópolis.>
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Em seus 96 anos, Ventura dirigiu greves, animou comícios, organizou sindicatos e cumpriu inúmeras temporadas atrás das grades.>
Mesmo sem corresponder ao estereótipo de militante disciplinado, chegou a ocupar o posto de secretário-geral do PCB durante a ditadura do Estado Novo, quando o titular do posto, Luiz Carlos Prestes, estava na prisão.>
Numa época em que a maioria da direção partidária era constituída de intelectuais, Ventura ganhava a vida como trabalhador braçal.>
"Ele era baixo, do tipo retaco forte, e tinha uma mão imensa, com dedos muito grossos, de quem tinha trabalhado muito pesado", afirma à BBC News Brasil o jornalista e editor Nelson Rolim de Moura. >
Ao lado do também jornalista Laudelino José Sardá, ele entrevistou Ventura, então com 86 anos, para o jornal O Estado, de Florianópolis, em 1979.>
O encontro ocorreu na residência de Ventura, uma casa de madeira na Praia da Armação, na região sul da ilha de Santa Catarina.>
"Ele [Ventura] abriu a porta para nos receber, colocou um banquinho na entrada da casa porque no interior estava muito frio e ali fora, mesmo sendo inverno, estava um pouco mais quente. Usava boné, tinha os olhos azuis, muito miudinhos.">
Alvaro Ventura nasceu em setembro de 1893, filho do marítimo Bernardino Soares da Ventura e de Jesuína Rosa da Conceição, mulher "forte e braba", de acordo com relato do ex-deputado ao biógrafo Celso Martins, autor de Os comunas: Álvaro Ventura e o PCB catarinense (Paralelo 27, Fundação Franklin Cascaes, 1995).>
O pai, anarquista, embarcou para Cuba ("onde havia uma revolução", ainda segundo o depoimento a Martins) e nunca mais voltou.>
Assim como quase todos os homens entre os 12 filhos registrados do casal, Alvaro ganhou a vida como estivador.>
Antes, foi tropeiro, carpinteiro, marceneiro, latoeiro, pedreiro, alfaiate, padeiro e encanador.>
A primeira prisão ocorreu por volta de 1910, quando animava uma manifestação pela jornada de trabalho de oito horas, em Florianópolis.>
Seus primeiros contatos políticos foram com a geração fundadora do anarquismo e do socialismo pré-marxista no Brasil: intelectuais e operários como Edgard Leuenroth, José Oiticica, Astrogildo Pereira, Everardo Dias e Benjamin Mota.>
Durante uma greve de padeiros dirigida por anarquistas, opôs-se à instalação de bombas em padarias, isolou-se dos demais líderes (seu filho João Ventura disse a Martins que os anarquistas "entregaram-no para a polícia") e acabou enviado preso para Mato Grosso, onde trabalhou nas obras da ferrovia Madeira-Mamoré.>
De lá, retornou, já casado, a Santa Catarina, onde ligou-se ao Partido Republicano Catarinense (PRC), agremiação dominante no Estado durante a República Velha, e manteve os primeiros contatos com o jovem PCB.>
Diferentemente do PCB, que via na chamada Revolução de 1930 um simples conflito de oligarquias, Ventura apoiou a derrubada do presidente Washington Luís e exigiu o cumprimento, pelo novo regime de Getúlio Vargas, do programa da Aliança Liberal.>
Também em desacordo com seu futuro partido, ligou-se às organizações sindicais existentes, independentemente de quem os dirigisse, num período em que o PCB pregava a criação de "sindicatos vermelhos".>
Ventura era católico praticante e irmão da Irmandade do Senhor dos Passos do Hospital de Caridade de Florianópolis, da qual foi desligado ao se declarar comunista.>
"Minha vida foi marcada por certos desencontros com o Partido Comunista", afirmou Ventura a Martins, explicando que a direção partidária nos anos 1920 e 1930 estava nas mãos de "pequeno-burgueses".>
Foi essa orientação política, paradoxalmente, que lhe garantiu a eleição à Câmara na chamada bancada classista.>
A legislação instituída pelo regime de Getúlio Vargas destinou uma parcela das cadeiras do Congresso Constituinte eleito em 1933 para representantes dos trabalhadores e seus partidos, ainda que organizações marxistas fossem ilegais.>
Ventura compôs a lista do Partido Operário Socialista, de São Francisco do Sul, e foi eleito suplente de Antônio Penaforte, também estivador.>
Em 27 de agosto de 1934, Penaforte foi assassinado com cinco tiros no Rio de Janeiro por uma mulher que supostamente assediara.>
Informado no dia seguinte, Ventura embarcou para a capital no dia 30 em um navio da companhia Lloyd Brasileiro a fim de assumir a cadeira de deputado.>
"Senhores deputados burgueses. Senhores deputados feudais.">
Com essa fórmula pouco protocolar, em mangas de camisa e com sapatos emprestados, Ventura saudou os 71 parlamentares que ouviam seu discurso de estreia na Câmara dos Deputados, no dia 6 de setembro de 1934 — e era apenas o começo.>
"Verifica-se atualmente em todo o país uma grande mobilização eleitoral", prosseguiu Ventura, referindo-se à movimentação de aliados e adversários do presidente Vargas.>
Em seguida, denunciou "os partidos e grupos feudal-burgueses, tanto os que estão no poder como os de oposição" e "todos os agentes das camarilhas dominantes nas fileiras do proletariado" e saudou o "único partido que luta verdadeiramente em defesa do proletariado e das massas populares": o PCB.>
A solução, vaticinou Ventura, era uma só: "O caminho da luta de classes revolucionária contra a fome, a guerra imperialista, os golpes armados, a reação e o fascismo – pelo pão, pela terra e pela liberdade".>
Mal conseguiu concluir o discurso: houve protestos, apartes, princípio de tumulto controlado a custo pelo presidente da Casa, Antonio Carlos, ex-governador de Minas Gerais.>
No dia seguinte, o jornal Correio da Manhã resumiu o discurso em uma nota intitulada "A estreia de um classista".>
"Seguiu-se com a palavra o classista Alvaro Ventura, que fez a sua estreia. Começou dizendo que estava substituindo um operário que não soubera honrar o mandato de deputado. Prosseguindo na leitura de seu discurso, declarou que nada tinha de comum com os classistas assentados na Câmara, definindo-se como partidário do comunismo", afirmou o jornal.>
Pela primeira vez na história da Câmara dos Deputados, um parlamentar declarava-se comunista.>
O gesto era insólito não apenas porque o PCB atravessava um de seus muitos momentos de ilegalidade.>
O próprio Ventura, apesar de professar a maior parte do credo oficial do partido, não pertencia a seus quadros, não se submetia à sua disciplina e criticava publicamente a direção partidária.>
Essa postura era suficiente para enquadrá-lo como inimigo aos olhos da ortodoxia comunista.>
Salvou-o a condição de operário de profissão e dirigente sindical.>
Durante a fase conhecida como de "proletarização", imposta ao PCB pela Internacional Comunista, o partido expurgou sua direção de intelectuais "não-proletários" e passou a promover militantes com base no critério de origem social operária.>
O secretário-geral de 1934 a 1935, Antônio Maciel Bonfim, o Miranda, era operário, embora a obediência à linha oficial tenha sido o fator decisivo para sua ascensão.>
Sob essa orientação, ainda como deputado, Ventura ingressou formalmente no partido.>
"Eleito deputado classista, atuou como representante do Partido Comunista do Brasil na Câmara", atestava uma publicação do PCB em 1945.>
Em 1935, após o fracassado levante militar promovido pelo PCB no Rio de Janeiro, em Recife e em Natal, o catarinense — que tinha se oposto à insurreição por não acreditar que houvesse condições para uma revolução no país — foi mais uma vez preso.>
"Não tínhamos condições de fazer uma revolução, e isso [a ideia do levante] foi levantado dentro do partido por pequenos-burgueses, e eu era contra", afirmou Ventura na entrevista de 1979 a Rolim e Sardá.>
Enviado para o presídio de Ilha Grande, conviveu com o escritor Graciliano Ramos, que registrou suas impressões dele em sua obra sobre o período, Memórias do Cárcere.>
"(...) me surpreendia o comportamento de Álvaro Ventura, meu parceiro de pôquer no cubículo 35 do pavilhão. Naquele tempo não revelava de nenhum modo se perdia ou ganhava; nunca vi tanta serenidade no jogo. Enquanto Sebastião Hora, um médico, se excedia, golpeava a mala que nos servia de mesa, Ventura, simples estivador, largava as fichas tranquilo, indiferente", escreve o autor de São Bernardo.>
Libertado em 1938 após o cumprimento da pena, o catarinense passou a viver de bicos, mas aproveitou os contatos na marinha mercante para viajar clandestinamente pelo país a fim de organizar os dispersos núcleos comunistas.>
Acabou ocupando a secretaria-geral do partido até 1943 — o historiador Leôncio Basbaum o considera "uma rosa a enfrentar um ramalhete de flores selvagens, sem flor nem cheiro" na alta direção partidária eleita em uma conferência clandestina na Serra da Mantiqueira naquele ano — e, depois de um intervalo de alguns meses, novamente até 1945, quando transmite o cargo a Prestes.>
Em 1945, ao lado de Prestes e outros, concorreu a deputado federal constituinte pelo Distrito Federal, mas não foi eleito.>
Na entrevista concedida em sua casa humilde da Praia da Armação, em 1979, Ventura faz um balanço de sua experiência como deputado.>
Cioso da linha partidária, procura temperar as próprias posições da época com a temática da união nacional que só se tornaria a tônica do PCB a partir de 1935.>
"Eu era comunista e estava ao lado do trabalhador, mas procurei dentro da Câmara unir todos em torno de um espírito nacionalista, buscando uma unidade nacional", sustentou.>
"O presidente da Câmara, Antônio Carlos, era um mineiro muito sério que fazia cumprir as leis. Foi um dos que fizeram cumprir o manifesto da Esplanada do Castelo [documento assinado por líderes da Revolução de 1930 em favor de reformas democráticas]. Foi um dos revolucionários que procuraram conter Getúlio [Vargas] no seu avanço à reação.">
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