> >
Professor da Unicamp e crítico da Faria Lima: a aposta de Lula para posição estratégica no Banco Central

Professor da Unicamp e crítico da Faria Lima: a aposta de Lula para posição estratégica no Banco Central

Heterodoxo e contrário à alta dos juros, Guilherme Mello pode ocupar diretoria considerada 'o coração da política monetária' do BC.

Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 14:09

Imagem BBC Brasil
Mello faz parte do grupo dos 'economistas da Unicamp', que defende a participação ativa do Estado na economia Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

O economista e sociólogo Guilherme Mello, atual secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, pode ser o próximo diretor do Banco Central (BC).

Fontes do Palácio confirmaram à BBC News Brasil que o nome de Mello está na mesa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como possível indicado para o cargo de diretor de Política Econômica do BC.

O cargo, uma das oito diretorias do BC, é tido como estratégico.

"A direção de Política Econômica é o coração da política monetária", diz o economista Carlos Kwall, ex-secretário do Tesouro Nacional e atualmente sócio da Oriz Partners.

"Ela tem o papel de formulação, de modelagem, pesquisa, produção de relatórios e estudos. É essa diretoria que dá o tom da condução da política monetária. Claro que as decisões são colegiadas, mas essa diretoria tem um peso importante", diz.

Procurados, o Banco Central e o Ministério da Fazenda não confirmaram o nome de Mello como indicado. Ainda assim, a notícia foi veiculada por alguns jornais atrelada a uma certa "apreensão" do mercado com o nome de Mello.

Aos 42 anos, Mello é professor licenciado do Instituto de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp) e doutor em Ciência Econômica, um currículo que difere dos demais sete diretores e do presidente da autarquia, Gabriel Galípolo.

Ali, todos são, ou servidores públicos de carreira, ou têm passagem pelo mercado financeiro, como Diogo Abry Guillen, que ocupava o cargo para o qual Mello foi indicado, e o próprio Galípolo.

Filiado ao PT desde a adolescência, Mello faz parte do grupo conhecido como "economistas da Unicamp". Vistos como plurais — ou heterodoxos — não se alinham às escolas tradicionais e a teses comuns no mercado financeiro. Pelo contrário: defendem um papel ativo do Estado na economia e são críticos da Faria Lima.

A formação de Mello é um dos fatores para a preocupação do mercado, de acordo com Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

"Ele é um professor de economia de perfil heterodoxo, sempre teve esse viés, publicou muitos estudos contrários à política do Banco Central e isso tende a causar um ruído", afirma. "Talvez não fosse o nome mais adequado."

Já para o professor de economia José Francisco de Lima Gonçalves, da Universidade de São Paulo (USP), a apreensão do mercado não tem tanta relação com a formação de Mello.

"A maior parte dos participantes do mercado financeiro tem uma visão crítica da formação do Guilherme", diz. "Mas qualquer pessoa indicada que não fosse oriunda do mercado financeiro seria criticada".

Caso Lula aposte de fato em Mello, isso poderia reafirmar, por um lado, a crítica do governo sobre a política conduzida por Galípolo de subida da taxa de juros, a Selic, atualmente em 15%.

E, embora os especialistas afirmem que a mudança não deva causar grandes solavancos — já que a diretoria é composta por oito membros — ela ocorre em um momento delicado para o Banco Central.

Sob os holofotes desde a eclosão do escândalo do banco Master, ainda pesa sobre a instituição um distanciamento entre Galípolo e o Planalto.

Pessoas próximas ao presidente Lula e ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), disseram em caráter reservado à BBC News Brasil que a escolha de Mello pode ser uma forma de colocar alguém "verdadeiramente de confiança" no Banco Central.

Publicamente, no entanto, o governo não diz isso.

"Eu tenho 100% de confiança no companheiro Galípolo", disse Lula na última entrevista coletiva que deu à imprensa em 2025. Mas em seguida, Lula lembrou o presidente do BC da sua demanda.

"Da mesma forma que tem gente que sente cheio de chuva, eu sinto o cheiro de que a taxa de juros daqui a pouco vai baixar. Eu espero que Galípolo sinta o mesmo cheiro que eu."

Alinhado com o presidente e com Haddad, Mello tem defendido, em consonância com o governo, a redução da Selic.

Nos últimos meses, chegou a dizer até que a taxa baixaria "em breve". "Se não no final deste ano, no início do ano que vem", afirmou em outubro do ano passado, em evento da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc).

Se confirmado, Mello pode ocupar o lugar de um dos últimos dois diretores nomeados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — Diogo Guillen, de Política Econômica, e Renato Gomes, de Organização do Sistema Financeiro — cujos mandatosterminaram no fim de dezembro.

Isso porque a diretoria do BC é formada por oito diretores divididos em grupos de dois. Todos têm mandatos de quatro anos, e, assim como o presidente, têm a possibilidade de apenas uma recondução.

A cada ano, o presidente da República indica dois diretores. Todos devem ser referendados posteriormente pelo Senado.

Imagem BBC Brasil
Galípolo (D) também é do grupo dos 'economistas da Unicamp' Crédito: BBC

Marx, Keynes e 'os economistas da Unicamp'

Embora Mello e Galípolo tenham trajetórias diferentes, é justamente o grupo dos "economistas da Unicamp" o elo entre ambos.

Isso porque fazem parte do grupo os economistas Luiz Gonzaga Belluzo e Frederico Mazzucchelli — ambos muito próximos também de Galípolo —, além de Luciano Coutinho (ex-presidente do BNDES). Maria da Conceição Tavares e Carlos Lessa também fizeram parte do grupo.

Belluzo e Mazzucchelli fizeram parte da banca examinadora da tese de doutorado defendida por Mello em 2013 (Os derivativos e a crise do subprime: o capitalismo em sua "quarta dimensão").

Mello recorre às ideias socialistas de Karl Marx, além do economista John Maynard Keynes, que defendia a ativa intervenção do Estado na economia para alcançar objetivos sociais e estabilizá-la.

No estudo, Mello defende que os juros "são resultado não apenas de uma relação jurídica contratual, mas também de uma relação de forças, portanto política, entre os diferentes grupos de classe".

"É exatamente essa preferência pela liquidez dos bancos, assim como a demanda por financiamento, que influencia diretamente a taxa de juros do financiamento. Se os bancos estiverem dispostos a ficarem mais ilíquidos, a pressão adicional por dinheiro gerada pelas novas decisões de investimento não afetará a taxa de juros. Caso contrário, as taxas de juros subirão conforme se elevar a preferência por liquidez dos bancos", escreve ele.

E faz um agradecimento nominal a Belluzzo: "o professor Belluzzo foi e continua sendo um dos maiores referenciais (não apenas como intelectual, mas como homem público) que eu, um jovem economista heterodoxo, posso almejar".

O grupo dos "economistas da Unicamp" foi um termo utilizado em tom crítico por Roberto Campos, em uma entrevista ao programa Roda Viva, na TV Cultura, em 1991.

Campos, um liberal que foi ministro da Fazenda durante a ditadura militar, era crítico ferrenho do modelo econômico intervencionista defendido pelos economistas da Universidade de Campinas.

"Ou o Brasil acaba com os economistas da Unicamp, ou os economistas da Unicamp acabam com o Brasil", disse Campos, na época, deputado federal pelo extinto PPR.

Em 2022, Mello escreveu um artigo com os economistas André Biancarelli e Pedro Rossi, ambos também da Unicamp, rebatendo a crítica.

"A chamada 'escola de Campinas' é um projeto intelectual que assombra o liberalismo tupiniquim desde sua origem."

Imagem BBC Brasil
Mercado também manifestou 'apreensão' com indicação do atual presidente do BC por Lula e Haddad Crédito: Evaristo Sa / AFP via Getty Images

Kawall lembra que quando Galípolo foi indicado para assumir a presidência do BC, também houve desconfiança de parte do mercado.

"Havia uma desconfiança enorme com relação à atuação do BC com a entrada do Galípolo na presidência, e [essa desconfiança] foi um erro", diz. "Vários dos críticos reconheceram que foi muito melhor do que esperavam".

Além disso, Luiz Fernando Figueiredo, diretor do Banco Central do Brasil entre 1999 e 2003, afirma que as nomeações feitas por Lula até o momento "foram boas."

"O Galípolo, que tinha menos experiência, ficou um ano e meio como diretor antes de virar presidente", recorda.

Galípolo entrou no Banco Central indicado por Haddad, pela mesma porta por onde Mello passa agora.

Em julho de 2023, depois de fazer parte da equipe de transição e de passar seis meses no ministério da Fazenda a convite de Haddad, Galípolo foi nomeado para a direção de Política Monetária do BC.

Vindo do mercado financeiro, diferentemente de Mello, Galípolo foi o grande articulador entre a Faria Lima e a campanha de Lula, e, em especial, Fernando Haddad.

Organizou jantares e articulou diálogos entre Haddad e nomes do mercado financeiro que, em geral, torcem o nariz para qualquer candidato petista.

Entre 2023 e 2024, enquanto esteve na Fazenda, Galípolo e o ministro se tornaram amigos muito próximos.

Mas ao assumir o Banco Central, acabaram se afastando. Nas palavras de uma pessoa próxima a Haddad, que falou reservadamente com a BBC News Brasil, Galípolo teria "mudado a rota" ao se sentar na cadeira de presidente do BC.

As sucessivas subidas na taxa de juros, regulada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, foram a causa do distanciamento entre os então amigos. A palavra "decepção" foi utilizada por duas fontes consultadas pela reportagem.

O Copom

A taxa Selic é a taxa básica de juros da economia. Ela influencia outras taxas de juros, como a de aplicações financeiras, financiamentos e empréstimos. É principalmente por meio dela que o BC controla a inflação.

Quem decide sobre a Selic é o Copom. Formado pelo presidente e os oito diretores do BC, o comitê se reúne a cada 45 dias para decidir sobre a taxa de juros. O comitê tem autonomia técnica e institucional para deliberar sobre a política de juros, graças à autonomia do Banco Central.

Em janeiro de 2024, quando o BC estava ainda sob comando de Roberto Campos Neto, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Mello afirmou, em entrevista à Globo News, que a expectativa do governo era pela redução da Selic.

"As condições estão colocadas para uma contínua queda na taxa de juros para trazer a taxa de juros brasileira para um patamar que a gente chama de mais neutro, hoje ela ainda é contracionista, ela segura a economia, puxa para baixo a economia. Nós esperamos que ao longo deste ano ela caminhe para o campo da neutralidade", afirmou.

Na época, vésperas da primeira reunião do Copom do ano, a Selic estava em 11,75%, chegando a 12,25%, quando Galípolo assumiu a presidência do BC, em janeiro de 2025.

Na primeira reunião do Copom sob Galípolo, a taxa subiu para 13,25%. E assim foi, sucessivamente, até chegar, em junho de 2025, ao atual patamar de 15%.

Arte por Caroline Souza, da Equipe de jornalismo visual da BBC News Brasil.

Este vídeo pode te interessar

  • Viu algum erro?
  • Fale com a redação

A Gazeta integra o

The Trust Project
Saiba mais