Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 16:12
Após a detenção de Nicolás Maduro, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos vão "administrar" a Venezuela até uma transição "segura" e prometeu tirar proveito das reservas de petróleo do país.>
Trump também quer que empresas petrolíferas norte-americanas invistam bilhões de dólares no país sul-americano, e disse ter negociado a entrega de até 50 milhões de barris de petróleo venezuelanos ao seu país.>
A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo bruto do planeta, com reservas estimadas em 303 bilhões de barris.>
Essa riqueza natural, porém, é considerada, ao mesmo tempo, "a bênção" e "a maldição" da Venezuela. Isso porque o país foi de um símbolo de prosperidade na América Latina nos anos 1970 para palco de uma profunda crise econômica e social, com hiperinflação e escassez de bens básicos, na última década.>
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Entenda, a seguir, qual foi o papel do petróleo na trajetória venezuelana — e o quanto o "ouro negro" deve ainda influenciar o futuro do país diante da ação americana no 3 de janeiro.>
A história do país tomou novos rumos quando, em 1914, foi descoberto um imenso campo produtivo de petróleo no lago de Maracaibo. >
Em 1922, houve um novo achado na região: um poço quatro vezes mais produtivo.>
Rapidamente, o país se tornou um dos maiores produtores do mundo, com muitos novos contratos e investimentos estrangeiros.>
Pelas seis décadas seguintes, a Venezuela passou a ser a "Arábia Saudita das Américas". Expandiu sua produção de 300 mil barris por dia no final dos anos 1920 para mais de 3,5 milhões de barris por dia em 1970.>
O país chegou a ser o mais rico da América do Sul e a ter um Produto Interno Buto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos) per capita maior do que países como França, Itália e Alemanha nos anos 1950, segundo o Maddison Project Database, conceituado banco de dados desenvolvido por um economista britânico para comparar crescimento econômico e níveis de renda a longo prazo.>
Em 1976, o país nacionalizou sua indústria de petróleo e criou a estatal PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A), assumindo controle total de suas reservas.>
O dinheiro do petróleo permitiu investimentos sociais, educação mais ampla, salários mais altos e uma imagem de modernidade para a Venezuela. >
A renda petrolífera financiava grande parte do orçamento do Estado venezuelano, possibilitando subsidiar bens e serviços.>
Entre 1959 e 1983, o desemprego no país se manteve na marca de 10%. >
No mesmo período, o crescimento médio do país foi de 4,3% por ano — a inflação também era menor do que a registrada em outros países da América Latina.>
A estabilidade da moeda local, o bolívar, permitia que muitos venezuelanos conseguissem sair do país para temporadas de férias, principalmente com destino a Miami, nos Estados Unidos, vista como um paraíso do consumo.>
Nos anos 1970, os venezuelanos tinham o maior poder de compra entre os países América Latina — quase três vezes maior que o dos brasileiros —, segundo um índice da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). >
Esse cenário durou até a década de 1990.>
Historiadores e pessoas que vivenciaram esse momento contam muitas anedotas sobre como era viver na Venezuela daquela época.>
No país, alguns costumavam dizer que "éramos felizes e não sabíamos". Outra piada da época era a seguinte: "Isso está barato, então me dê dois". >
Outras pessoas costumavam se orgulhar em dizer que pagavam mais barato pelo litro de gasolina do que pelo de água.>
Caracas se tornou símbolo de uma elite sofisticada e luxuosa. Na cidade, os prédios eram altos e modernos para a época. As rodovias, largas. >
Os hotéis eram considerados um "luxo em um paraíso tropical". E os venezuelanos tinham o título de maiores consumidores de uísque do mundo.>
A Venezuela também investiu em cultura, criando importantes teatros, centros culturais, museus e editoras de livros.>
Apesar de tudo isso, a desigualdade ainda era grande.>
"A desigualdade era muito marcada entre cidade e campo. Os grandes centros urbanos e áreas ao redor dos poços de petróleo se desenvolveram, mas quem ficou no campo empobreceu", explica Carolina Pedroso, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).>
"Apesar disso, as pessoas sentiam que o país estava caminhando, porque se conseguiu aproveitar parte desses petrodólares para investir na infraestrutura.">
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Mas o modelo econômico também criou uma dependência profunda: o país passou a viver quase exclusivamente do petróleo, deixando agricultura, manufatura e setores como indústria praticamente estagnados — um fenômeno econômico conhecido como "doença holandesa".>
Esse processo começa sempre com a descoberta ou boom de um recurso natural, que leva à valorização da moeda local, tornando outros setores menos competitivos, causando desindustrialização e dependência excessiva de commodities.>
Foi o que aconteceu na Holanda com o gás natural nos anos 1960, por isso o nome.>
No caso da Venezuela, a dependência não acontecia apenas porque não havia outras bases produtivas para além do petróleo, mas também porque o país desenvolveu muito pouco a sua indústria petroquímica, se tornando dependente das refinarias estrangeiras, especialmente dos Estados Unidos.>
"Esse é um ponto que até hoje é muito problemático, porque o petróleo venezuelano é muito denso, cru e pesado", diz Pedroso. >
"Para ele ter realmente valor no mercado internacional, precisa passar por uma série de processos petroquímicos que são custosos", explica a professora da Unifesp.>
Quando os preços internacionais do petróleo começaram a cair nos anos 1980, a economia venezuelana sentiu os efeitos rapidamente. Os dólares do petróleo que garantiam a estabilidade econômica e política diminuíram. Com isso, aumentou o descontentamento da população com o governo e com a política tradicional.>
O episódio conhecido como "Caracaço" é considerado o estopim dessa crise.>
Em 1989, poucos dias após tomar posse para seu segundo mandato, o então presidente Carlos Andrés Pérez anunciou um programa de ajustes para tentar superar a crise.>
Entre as medidas propostas estava o aumento da passagem no transporte público, como resultado do ajuste no preço da gasolina.>
O anúncio provocou grande revolta e a população saiu em massa às ruas.>
Em pouco tempo, o que havia se iniciado como um protesto contra o aumento das passagens se converteu em uma revolta popular.>
Em reação, o governo decretou a imposição da lei marcial e a suspensão de uma série de garantias constitucionais e direitos civis. As Forças Armadas também foram mobilizadas e a repressão acabou resultando em um verdadeiro massacre.>
O saldo oficial foi de mais de 300 mortos, mas estimativas de organizações independentes apontam até 10 mil vítimas.>
Segundo especialistas, o trauma gerado pelo episódio e o descontentamento geral da população com a política tradicional abriu as portas para a eleição de Hugo Chávez.>
O tenente-coronel foi responsável por organizar, ao lado de outros militares de baixa patente, uma tentativa de golpe de Estado em 1992. O plano fracassou e os envolvidos acabaram presos.>
Mas em 1994, Chávez foi anistiado e, em 1999, chegou ao poder prometendo redistribuir a renda petrolífera e diminuir os níveis de pobreza>
Durante seu governo, a desigualdade na Venezuela caiu gradualmente e muitos programas de assistência aos pobres, combate ao analfabetismo e mortalidade infantil foram implementados.>
No campo econômico, Chávez estabeleceu o domínio do Estado venezuelano sobre os combustíveis fósseis e um limite para a propriedade privada em atividades para a extração de petróleo e gás.>
O país ainda se beneficiou, a partir de 2003, de uma enorme valorização inesperada do preço do petróleo.>
Mas a dependência econômica do petróleo persistia.>
O hidrocarboneto também teve papel importante no que é visto como um endurecimento do estilo autoritário de Chávez.>
Em 2002, ele sofreu uma tentativa de golpe envolvendo vários setores da oposição, após uma greve geral. Membros da direção da PDVSA foram acusados de envolvimento e parte da cúpula foi demitida.>
"Houve entre 2002 e 2003 uma defasagem gigantesca em termos de recursos humanos especializados em petróleo. Paralelamente a isso, com o boom petroleiro e com esse ímpeto de resolver rapidamente os problemas sociais, o governo venezuelano não manteve a regularidade de reinvestimento que esse setor necessita, basicamente revertendo toda renda petroleira para a política e não para a própria empresa ou para a estrutura de exploração", explica Carolina Pedroso.>
Segundo a professora da Unifesp, a expropriação de algumas empresas, especialmente norte-americanas, também colaborou para defasar o setor petroleiro em termos de investimento e modernização.>
Ele herdou os mesmos problemas envolvendo corrupção, inflação e crise econômica, que só se agravaram com o passar do tempo.>
A falta de investimento na infraestrutura petroleira ampliou o sucateamento dos equipamentos. Com isso, a queda na produção nas últimas décadas foi intensa.>
Para se ter uma ideia, quando Chávez assumiu o país pela primeira vez, em 1999, a produção era de mais de 3 milhões de barris por dia. >
No fim de 2025 estava em menos de 1 milhão por dia, segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).>
Em 2014, os preços do petróleo despencaram e desencadearam a terrível crise que até hoje assola os venezuelanos. O país perdeu 80% de seu PIB entre 2014 e 2021.>
A inflação anual chegou a mais de 800% em 2017 e uma escassez de alimentos atingiu o país. Em meio a tudo isso, Maduro também ampliou seu autoritarismo, com intervenções no Judiciário e perseguição de opositores.>
A economia ainda sofreu um importante golpe em 2017, quando os EUA ampliaram suas sanções contra o país.>
Hoje mais de 20 milhões de venezuelanos vivem em situação de pobreza multidimensional, sem acesso adequado a bens e serviços essenciais, incluindo alimentos e medicamentos.>
Diante da crise humanitária, cerca de 8 milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2014.>
O economista Diego Sánchez-Ancochea afirma que a dificuldade da Venezuela de sair dessa crise pode ser explicada por três grandes fatores. >
"O primeiro fator é a má gestão econômica. O fato de que, quando as coisas iam bem, o governo gastou demais e criou uma série de problemas que se tornaram totalmente insustentáveis quando as condições econômicas se complicaram", explica.>
O segundo fator são as sanções, diz Sánchez-Ancochea. >
Aquelas impostas pelos EUA, em particular, mas também pela União Europeia, que criaram problemas para o país e dificuldades para arrecadar dólares suficientes para financiar todas as importações necessárias.>
"E o terceiro fator são os próprios preços do petróleo. Quando os preços do petróleo caem, também se torna muito mais difícil manter as políticas anteriores.">
O especialista afirma ainda que a escassez de dólares para financiar as importações e a emissão monetária excessiva como resposta ao déficit público levaram a um ciclo completo de hiperinflação.>
Também não é difícil perceber o papel do petróleo no cenário atual na Venezuela.>
Depois da ação militar que levou à detenção de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores em 3 de janeiro, Donald Trump afirmou que empresas americanas recuperariam a infraestrutura petrolífera da Venezuela e começariam "a gerar dinheiro para o país".>
O presidente americano deu seu aval para que Delcy Rodríguez, vice-presidente da Venezuela enquanto Maduro era presidente, tomasse posse como presidente interina.>
Um dia depois, Trump anunciou que a Venezuela "entregará" até 50 milhões de barris de petróleo ao seu país.>
Mas segundo analistas, seriam necessárias dezenas de bilhões de dólares e até uma década para que o nível de produção que a Venezuela já teve seja restaurado.>
"O discurso do Trump simplifica coisas que são, na verdade, muito complexas", opina Carolina Pedroso.>
"A reconstrução de infraestrutura mencionada é necessária e verdadeira, mas diz respeito não apenas à infraestrutura de exploração do petróleo, mas a toda a infraestrutura colateral que é necessária para que a operação do petróleo seja mais eficiente – ou seja, infraestrutura de estradas, de logística e de energia.">
"É o tipo de investimento que não tem retorno rápido. E mesmo se essa injeção de recursos vier, por exemplo, do capital privado, o retorno também não vai ser rápido", complementa a especialista.>
Além disso, ainda não há clareza sobre como o setor vai funcionar daqui para frente.>
"É muito difícil prever [o que vai acontecer], porque é muito difícil entender exatamente o que Trump está fazendo e o que ele planeja fazer. É essa falta de planejamento que torna as coisas particularmente complicadas", aponta Diego Sánchez-Ancochea.>
Ainda segundo o especialista, tão importante quanto as declarações de Trump sobre o petróleo venezuelano, são as definições sobre o futuro das sanções impostas pelos EUA.>
"Se as sanções fossem reduzidas e a Venezuela pudesse voltar a exportar mais petróleo, a situação econômica poderia melhorar. No entanto, se Trump tentar obter o excedente gerado pelo petróleo sem reduzir as sanções, as condições piorariam ainda mais", avalia Sánchez-Ancochea.>
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