Publicado em 11 de março de 2026 às 10:09
A estrada parece comum. O asfalto é novo. As faixas foram repintadas. Postes de luz se alinham ao longo da pista.>
Mas quase não há carros.>
Estou voltando a Fukushima quinze anos depois da tríplice catástrofe de 11 de março de 2011 — o terremoto, o tsunami e o acidente na usina de Fukushima Daiichi, o pior acidente nuclear depois de Chernobyl.>
Fui convidado pelo governo japonês, por meio do Ministério do Meio Ambiente, para participar de um tour com jornalistas de diferentes partes do mundo. A proposta era mostrar o que mudou desde então — os projetos de reconstrução, as cidades que tentam voltar à vida e as iniciativas para recuperar uma região que, por anos, se tornou sinônimo de desastre.>
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Para mim, porém, a viagem tem outro significado. Acompanhei essa história desde o começo.>
Na tarde de 2011 em que um terremoto de magnitude 9.0 sacudiu o nordeste do Japão, eu estava no país. Vi, como milhões de pessoas, as imagens do tsunami avançando sobre cidades inteiras. Cheguei à região destruída dois dias depois.>
Nos anos seguintes voltei várias vezes ao nordeste do país para reportar sobre as consequências do desastre.>
Estive aqui também quando a tragédia completou dez anos.>
Agora retorno pela primeira vez poucos dias antes do aniversário de quinze anos. E voltar provoca uma sensação difícil de explicar.>
Parte de mim quer observar os sinais de reconstrução que o Japão tenta mostrar ao mundo. Outra quer revisitar os lugares onde a história parece ter ficado suspensa.>
Esta reportagem é uma tentativa de entender como duas forças diferentes — o mar e a radiação — redesenharam a mesma região. Em Fukushima, o tsunami destruiu cidades inteiras em minutos. O acidente nuclear, porém, criou algo diferente: lugares onde nada parece ter acontecido, mas onde ninguém voltou a viver.>
O carro segue por uma estrada quase vazia em direção à área mais próxima da usina nuclear. Entrar aqui exige autorização especial.>
Depois do acidente nuclear, grande parte das terras nessa região foi comprada pelo governo japonês. Durante anos, ninguém pôde voltar.>
A paisagem começa a mudar.>
Casas aparecem entre árvores que cresceram sem controle. Estacionamentos vazios. Carros abandonados.>
O que falta aqui não são prédios. São pessoas.>
Quinze anos depois do desastre, muitas casas continuam exatamente como estavam no dia em que seus moradores foram obrigados a sair.>
Em um quintal, uma bicicleta enferrujada ainda está encostada contra a parede.>
Em outro, um carro permanece estacionado na garagem aberta, coberto por uma camada espessa de poeira e folhas secas.>
Em frente a um galpão, uma empilhadeira enferrujada se degrada lentamente com o tempo. Ninguém voltou para buscá-la.>
Passamos por um centro de cuidados para idosos. O prédio permanece de pé, silencioso.>
Ali, contam os guias, funcionários tiveram de retirar os pacientes às pressas nos dias seguintes ao acidente nuclear. Não houve tempo para organizar nada.>
Hoje, olhando pelas janelas empoeiradas, ainda é possível ver cadeiras e equipamentos abandonados.>
Há algo profundamente inquietante nesse tipo de abandono. Cidades destruídas por guerras ou terremotos costumam carregar marcas visíveis de violência — paredes quebradas, ruas rasgadas, montanhas de escombros.>
Aqui não. Aqui tudo parece intacto.>
E talvez seja exatamente isso que torna a paisagem tão perturbadora. O desastre não destruiu a cidade.>
Ele simplesmente expulsou as pessoas.>
A poucos quilômetros dali encontro outro tipo de memória. Em Namie, perto do litoral, uma escola permanece de pé como um memorial silencioso da tarde em que o mar avançou sobre a cidade.>
A Escola Primária Ukedo fica a cerca de 300 metros do oceano. Antes do desastre, era a única escola primária do distrito de Ukedo — um prédio relativamente novo, reconstruído em 1998.>
No dia 11 de março de 2011 havia 93 alunos matriculados ali. Às 14h46, quando o terremoto começou, as salas de aula ainda estavam cheias.>
O tremor foi tão violento que as mesas deslizaram pelo chão. Algumas se moveram dezenas de centímetros enquanto as crianças se protegiam debaixo delas.>
Quando o chão finalmente parou de sacudir, os professores fizeram a chamada e ordenaram que todos saíssem para o pátio.>
Minutos depois veio o alerta de tsunami. Os professores tomaram uma decisão simples — e decisiva: não esperar. Levar as crianças para um lugar alto.>
Os alunos foram organizados rapidamente e começaram a correr em direção ao Monte Ohira, a cerca de um quilômetro e meio da escola.>
Eles correram sem mochilas. Sem casacos. Alguns ainda vestindo apenas o uniforme leve da escola.>
Os alunos mais velhos lideravam o grupo. Os menores vinham logo atrás.>
Enquanto subiam a montanha, um barulho estranho começou a surgir do lado do mar — um som profundo, crescente, como se a própria terra estivesse se movendo.>
Minutos depois, o tsunami atingiu a cidade. A água avançou pelas ruas, arrastando carros, casas e barcos.>
Quando chegou à escola, subiu até o segundo andar do prédio. Do alto da montanha, professores e alunos viram algo difícil de compreender. O lugar onde ficava a cidade havia se transformado em água.>
Mas todos estavam vivos.>
Dos 93 alunos matriculados, 82 estavam na escola naquele momento — e escaparam com seus professores. Nenhuma criança morreu ali.>
Hoje o prédio permanece como memorial. Caminhar pelos corredores da escola é como entrar em um edifício que ainda está tentando entender o que aconteceu ali.>
As salas de aula foram transformadas em espaços de memória. As cadeiras estão alinhadas, como se aguardassem alunos que nunca mais voltarão. Um quadro negro ainda ocupa a parede.>
No fundo da sala, grandes janelas deixam entrar a luz do Pacífico — o mesmo mar que, naquele dia, avançou sobre a cidade.>
Do lado de fora, o oceano parece tranquilo. Dentro do prédio, porém, o desastre ainda está presente em cada detalhe.>
No ginásio da escola, o chão de madeira está rasgado como se tivesse sido levantado por uma força invisível. Tábuas quebradas se curvam para cima, revelando a estrutura por baixo.>
No teto, placas inteiras desapareceram, deixando vigas metálicas expostas e cabos pendendo no ar.>
Em um corredor lateral encontro uma sala onde a água entrou com violência suficiente para arrancar paredes e arrastar móveis.>
Um armário metálico permanece tombado no chão, coberto por uma camada de poeira e ferrugem.>
Em outra parte do prédio, fileiras de torneiras para crianças estão presas a uma longa pia amarela. A água já não corre ali há anos. As torneiras estão manchadas de verde, corroídas pelo tempo e pelo sal que o mar trouxe até aqui.>
Cada espaço parece contar uma parte diferente da mesma história. A da água chegando com força suficiente para transformar uma escola inteira em destroços.>
No centro de uma das salas, dentro de uma vitrine de vidro, está o que restou do relógio que ficava no prédio. O impacto do tsunami o deformou completamente.>
O metal está retorcido, como uma folha amassada. Os números ainda são visíveis. Mas o tempo ali deixou de existir.>
Fico alguns minutos olhando para aquele objeto distorcido. Penso que essa escola conta duas histórias ao mesmo tempo. A da destruição. E a da decisão que salvou dezenas de crianças. Porque naquele dia alguém entendeu algo essencial: não havia tempo para esperar. Era preciso correr. Subir a montanha.>
Ao deixar a escola e voltar para a estrada, a paisagem muda novamente. As ruas voltam a ficar vazias. As casas voltam a aparecer abandonadas. Aqui não há marcas de água nas paredes. Não há janelas quebradas. Não há escombros.>
A cidade parece intacta. E, ainda assim, está vazia.>
Quinze anos depois da tragédia, Fukushima guarda duas paisagens diferentes do desastre.>
Uma onde a destruição é visível — gravada nas paredes de uma escola, nas estruturas rasgadas pelo mar, nas marcas deixadas pela água. E outra onde o desastre permanece invisível.>
Uma cidade que não foi destruída. Apenas abandonada.>
O tsunami levou casas.>
A radiação levou embora as pessoas.>
Entre uma paisagem e outra, Fukushima ainda tenta responder a uma pergunta difícil: como reconstruir uma comunidade onde o tempo parou?>
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