Publicado em 11 de março de 2026 às 12:09
O Irã escolheu seu novo líder supremo.>
Mojtaba Khamenei sucederá seu pai, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026), morto durante os ataques coordenados dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, no sábado, 28 de fevereiro.>
O novo líder terá poder absoluto e se transformará na referência máxima, política e religiosa, do país que seu pai liderou por quase quatro décadas, desde 1989.>
Mojtaba Khamenei controlará uma nação em que a religião determina a política e quase todos os aspectos da vida dos seus habitantes.>
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Com sua eleição, começa um novo capítulo, no qual o regime iraniano aparentemente permanece intacto, mas ainda é cedo para projetar o alcance deste conflito e suas consequências.>
O Irã nem sempre foi uma teocracia — um regime no qual a autoridade máxima é atribuída a Deus e exercida por autoridades religiosas. Sua força é explicada por elementos históricos e teológicos, mas também por fatores políticos.>
A capacidade do regime de sustentar o sistema institucional que o mantém é vital para sua sobrevivência. Mas é igualmente fundamental sua sistemática dedicação para evitar o surgimento de eventuais opositores, segundo diversos especialistas.>
A teocracia iraniana é única.>
O país tem Parlamento e presidente eleitos pelo povo, mas todo o poder se concentra em uma figura, que é o líder supremo. Seu poder quase não tem contrapeso.>
O líder supremo pode vetar e exercer influência decisiva sobre as principais políticas públicas do país. E, além de ser o chefe de Estado, é também a autoridade máxima política e religiosa do Irã.>
Ele atua como comandante-chefe das Forças Armadas e todas as nomeações militares de alto escalão dependem da sua decisão.>
O líder supremo também nomeia o chefe do Poder Judiciário e o diretor da rádio e TV estatal, que mantém o monopólio do setor no país.>
"É como ter outro rei, mas um rei religioso", define o jornalista Siavash Ardalan, da BBC News Persa.>
O Conselho de Guardiães e a Assembleia de Peritos são os dois outros pilares teocráticos do sistema iraniano.>
O Conselho tem como principal função revisar a legislação parlamentar. Todas as leis aprovadas pelo Parlamento devem receber sua aprovação antes de entrar em vigor.>
"O Conselho também desempenha papel de filtro nos processos eleitorais, avaliando todos os candidatos para as eleições parlamentares, presidenciais e a Assembleia de Peritos", explica o especialista em teologia política islâmica Naser Ghobadzadeh, professor de Política e Relações Internacionais da Universidade Americana da Bulgária.>
Já a Assembleia de Peritos, que teve a missão de escolher Mojtaba Khamenei como novo líder supremo, é um organismo composto por 88 membros.>
Seus integrantes são eleitos por votação popular, mas todos eles devem ser homens e possuir o nível de mojtahed. Por isso, a Assembleia é composta exclusivamente por clérigos.>
Uma das suas principais funções é escolher a autoridade máxima e supervisionar seu desempenho — papel que, na prática, não é cumprido.>
O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) é outro elemento fundamental para a proteção do regime teocrático do país. Ele foi criado como exército paralelo para defender a Revolução Iraniana de 1979 e se manteve leal ao regime desde então.>
A força da teocracia iraniana é expressa muito além da sua estrutura institucional.>
Ela também é sentida nas ruas, onde as mulheres são obrigadas a usar o hijab e, se não cumprirem as regras impostas pelo aiatolá, podem ser detidas pela polícia da moralidade.>
Foi o que aconteceu com Mahsa Amini (1999-2022), uma jovem iraniana de origem curda que morreu nas mãos daquele organismo aos 22 anos de idade, ao ser presa em 2022. Sua morte gerou protestos em massa no país.>
Mas como este regime se instalou no Irã?>
O regime teocrático dos aiatolás surgiu na Revolução Iraniana de 1979. Até então, o Irã era uma monarquia, onde o clero tinha poder limitado.>
O levante contra o xá Mohammad Reza Pahlavi (1919-1980) ocorreu quando diversos setores do país concordaram em se opor ao regime da época.>
A modernização autoritária impulsionada pelo xá ao longo dos anos era vista pelo mundo islâmico como submissão ao Ocidente, particularmente aos Estados Unidos.>
E, embora originalmente a revolução não fosse apenas religiosa, a consolidação da liderança do aiatolá Ruhollah Khomeini (1902-1989) foi fundamental para a instalação da teocracia no Irã.>
Khomeini era um líder carismático e erudito religioso. No exílio, ele promoveu a ideia que hoje está no centro do regime iraniano: que o clero deveria ter o poder de tutelar diretamente o poder político.>
Trata-se de uma reinterpretação radical do conceito de velayat-e faqih (tutela do jurista islâmico). Esta nova definição rompeu totalmente com a leitura tradicional do mundo xiita — o ramo do Islã que passou a ser a religião oficial do Irã durante a dinastia dos safávidas (1501-1736).>
Até a reinterpretação de Khomeini, os xiitas entendiam este conceito como a influência necessária dos clérigos sobre os temas da vida pública, mas não como participação direta nas estruturas governamentais.>
A doutrina original provém de uma crença fundamental do islamismo xiita, particularmente do seu ramo duodecimano. Seus seguidores acreditam que os sucessores espirituais do profeta Maomé (c.570-632) são doze imãs, considerados guias espirituais com autoridade para interpretar o Islã.>
Eles professam que o décimo-segundo imã não morreu, mas sim entrou em ocultação. E, algum dia, ele irá regressar para instaurar a ordem prometida.>
Durante séculos, muitos clérigos defenderam que, enquanto esse líder espiritual permanecer oculto, nenhuma figura política poderia assumir plena legitimidade em seu nome.>
Mas, como seu ocultamento se prolongou, a ideia de que um erudito em jurisprudência islâmica poderia administrar os assuntos da comunidade muçulmana acabou se consolidando.>
"O islamismo xiita nunca foi apolítico", explica Ghobadzadeh. "O que ele evitou historicamente foi a tomada direta das instituições estatais, ou seja, a estrutura formal de governo.">
Com esta premissa e durante séculos, o poder político e religioso do Irã permaneceram vinculados, embora relativamente separados. Até que Ruhollah Khomeini elevou para outro nível o conceito da tutela do jurista islâmico.>
"Com sua teoria do velayat-e faqih, Khomeini rompeu fundamentalmente com esta tradição", destaca Ghobadzadeh.>
"Ele defendeu que a ocultação havia se prolongado por muito tempo e uma parte importante da lei islâmica tem dimensões sociais e políticas", explica o professor.>
"Exatamente por isso, os clérigos não só estavam autorizados, mas sim obrigados a assumir o governo em nome do imã ausente, para aplicar essas leis.">
Frente à crescente impopularidade do xá, mesmo com a classe clerical dividida em relação à reinterpretação de Khomeini, o clima antimonarquista acabou sendo propício para gerar apoio à sua ideia.>
Após a queda da monarquia, os iranianos aprovaram por referendo a criação da República Islâmica baseada nesta interpretação do velayat-e faqih, que foi institucionalizada na Constituição do país, com Khomeini como seu primeiro líder supremo.>
Os especialistas concordam que a supremacia constitucional das instituições do regime, particularmente os amplos poderes formais outorgados ao líder supremo, foram fundamentais para sua consolidação.>
A religião por si própria e a imagem pública de incorruptibilidade do clero após a revolução desempenharam papel decisivo neste sentido.>
"Nos anos imediatamente posteriores à revolução, essa popularidade e credibilidade se traduziram, por meio de processos eleitorais, em um domínio quase inconteste das instituições sendo formadas", relembra o professor.>
Ghobadzadeh destaca que as eleições para a Assembleia de Peritos — para redigir a Constituição — foram simbólicas. Embora seus membros fossem eleitos em concorrência aberta, um alto percentual das vagas ficou nas mãos dos clérigos.>
Eles utilizaram essa maioria com habilidade. E, quando sua popularidade caiu, não perderam sua posição.>
"A Constituição que eles mesmos haviam redigido garantiu que seu domínio institucional sobrevivesse até mesmo à perda do seu prestígio público", segundo Ghobadzadeh. "A opinião pública mudou, mas a arquitetura do poder, não.">
"Tanto Khomeini como Khamenei exploraram ao máximo estas prerrogativas", prossegue o professor.>
"E, em diversas ocasiões, eles chegaram a ir além das suas amplas atribuições constitucionais, para garantir a sobrevivência do sistema e seu próprio controle sobre ele.">
Mas também houve fatores externos ao regime que permitiram seu fortalecimento.>
Pouco tempo depois da revolução, o Iraque de Saddam Hussein (1937-2006) declarou guerra contra o Irã. Khomeini aproveitou o conflito, que se estendeu por quase oito anos, para consolidar o novo regime e solidificar suas estruturas de poder.>
A narrativa do regime iraniano sobre a guerra se baseou na ideia de "defesa sagrada". E, no plano político, ela serviu para silenciar a oposição.>
Após a morte de Khomeini em 1989 e a ascensão de Ali Khamenei, o sistema aprofundou sua onipresença.>
Durante o mandato de Ali Khamenei, a institucionalidade teocrática passou por ampla expansão.>
Se, com Khomeini, o escritório do líder supremo era uma estrutura relativamente pequena, com Khamenei ele se expandiu exponencialmente.>
Isso permitiu que o líder, após a chegada do movimento reformista dentro da própria revolução, desmantelasse a oposição de diferentes formas.>
"O regime marginalizou todos os grupos de oposição desde o princípio", segundo o jornalista Siavash Ardalan, da BBC News Persa.>
"A revolução teve sucesso graças a todos os grupos — nacionalistas, comunistas, socialistas e sociais-democratas. Mas, quando os religiosos formaram o governo, expulsaram todos os demais.">
"Houve também divisões entre eles próprios", prossegue Ardalan. "Alguns se tornaram setores linha-dura e outros passaram a ser moderados e reformistas dentro da classe religiosa. E estes, novamente, foram expulsos pelos setores linha-dura.">
"Foi simplesmente um processo de radicalização e eliminação de todos os opositores", conclui o jornalista.>
Mas o autoritarismo do regime também se mostrou nas ruas. E uma amostra recente foi a repressão aos protestos de janeiro deste ano.>
Diversas estimativas indicam que, durante os protestos, morreram milhares de iranianos que saíram às ruas para manifestar seu descontentamento com a situação econômica vivida pelo país de quase 90 milhões de habitantes.>
A estrutura institucional fortalecida pelo regime ao longo de décadas e empregada como arma para perpetuar seu poder não é o único fator que explica sua resistência ao colapso.>
Outro motivo é o fato de que, atualmente, não existe uma alternativa clara para sua substituição.>
"Uma das conquistas mais importantes da República Islâmica foi a supressão sistemática de qualquer alternativa viável a ela mesma", explica Ghobadzadeh.>
"A oposição, especialmente a que opera fora do Irã, não produziu uma figura, nem um movimento que seja capaz de reunir amplo apoio popular dentro do país.">
A única figura proeminente que surgiu é o filho do antigo xá, o príncipe Reza Pahlavi. Ele ganhou visibilidade sobretudo entre a diáspora iraniana e alguns setores do país, mas ainda não se sabe ao certo se sua figura poderia aglutinar apoio suficiente.>
Em contraste com a perda de apoio popular do regime, especialistas também destacam a existência de um amplo grupo de iranianos com interesses econômicos pela sua continuidade.>
Mas o início do conflito se deu há pouco mais de dez dias e os especialistas concordam que ainda é muito cedo para concluir se o sistema poderá manter seu atual equilíbrio a longo prazo. E a guerra será decisiva para isso.>
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