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Esquiva: "Já morei até embaixo da ponte e virei medalhista olímpico"

Lutador capixaba, que hoje é um dos principais nomes do boxe do Brasil, se divide entre Brasil, Estados Unidos e a vida de pastor evangélico

Publicado em 03/05/2019 às 16h47
Atualizado em 06/04/2020 às 17h24

Esquiva Falcão já morou embaixo da ponte, cresceu em periferia, aprendeu a dar soco em bananeira no quintal e comia feijão com farinha com mais 10 irmãos. Ainda jovem, foi tentar a vida como lutador em São Paulo graças ao pai, Touro Moreno, que separou parte do seu modesto salário para investir na joia que tinha em casa. Se deu certo?

Aos 29 anos, Esquiva hoje figura entre os principais nomes do boxe brasileiro na atualidade, está cada vez mais próximo do cinturão mundial e vive um novo desafio: o de ser pastor evangélico.

Qual balanço você faz desses quase seis anos de boxe profissional?

Eu me surpreendi. Eu achava que já disputaria o cinturão com uns três anos de boxe profissional, por conta da minha experiência no boxe amador, por ser medalhista olímpico, mas é muito diferente. Nos dois primeiros anos eu tive que aprender muita coisa. Eu não coloco 100%, porque ainda não consegui o cinturão mundial, mas vejo um aproveitamento de 90%. Afinal, são 23 lutas e 23 vitórias, sendo 15 nocautes, e sou o 5º ranqueado mundial.

O que mudou de lá para cá?

No boxe olímpico eu não era conhecido ainda, eu era apenas o Esquiva, filho do Touro Moreno. Hoje como profissional sou o Esquiva, o próximo campeão do mundo, já me veem como campeão. Hoje mesmo fui na rua correr e um vizinho já me cumprimentou, me chamou de campeão. Nas redes sociais também. Fico feliz pelo reconhecimento.

Você é muito ativo nas redes sociais. Como é essa relação virtual com os fãs?

Eu tenho uma assessoria, mas eu que invento as coisas (risos). Quando comecei a comentar coisas sobre futebol, as pessoas de outros times começaram a me ofender, aí a assessoria falou para eu dar uma maneirada porque seria ruim para a minha imagem. Mas eu gosto de fazer as minhas próprias montagens, o povo já olha e fala: “Está mal feito, foi o Esquiva que fez”. Eu acompanho, respondo todo mundo. Minha esposa fica até com ciúme, manda eu sair do celular.

Você já entrou em algumas polêmicas sobre Lula, preconceito, etc. Se arrepende de alguma coisa que disse?

Não me arrependo. Eu não faço por maldade, gosto muito de brincar, sou espontâneo. Algumas pessoas acabam levando a sério. No meu Twitter mesmo eu falo e não apago, eu deixo, mesmo que dê uma repercussão negativa. Vou para cima também, mas não xingo. Sou pastor, né? Tento transmitir o amor 100%. Já falei sobre a questão Lula, Bolsonaro, mas hoje fico na minha, porque já passou.

E como é a vida no exterior?

A gente mora em Los Angeles. Fico lá por três meses, aí depois da minha luta eu venho para o Brasil para ver meu pai, minha mãe, meus fãs, a família. Lá é bom, mas o Brasil é bom demais. Sinto falta da praia, de conversar com o brasileiro, é diferente. Aonde eu moro tem muito mexicano, então falo mais espanhol. Inglês é mais para pedir comida e etc, o básico. Quando venho para cá, gosto de curtir com a família em parque, em casa, pegar um cinema.

Quando olha para trás e lembra da infância, quais são as lembranças?

A gente morava em uma casinha de tijolo, não era rebocada. Eu não ganhei um centavo com a medalha olímpica, mas ela abriu portas para mim, meu pai ganhou uma casa, assinei com a Top Rank e com o dinheiro eu comprei essa casa para mim, um carro. O boxe profissional que me deu tudo e ainda está me dando. Consigo manter minha família, não falta nada e ainda guardo um dinheirinho para o futuro das crianças.

Passou por muita dificuldade?

Muita. A gente começou no boxe no quintal, na bananeira com meu pai. Melhorou um pouco quando ganhamos um saco de pancada, algumas luvas usadas e meu pai criou o ringue improvisado. Ele não ganhava dinheiro no boxe, até porque no Espírito Santo ninguém ajuda o boxe. Inclusive, estou há um mês procurando uma academia de boxe para treinar e não acho. Meu pai ganhava R$ 900 da aposentadoria para sustentar 11 filhos e tirou R$ 300 para levar eu e meu irmão (Yamaguchi) para tentar uma vida melhor em São Paulo. O esforço que ele fez por nós deu certo. Já moramos até embaixo da ponte porque fomos despejados e não tínhamos onde morar. Meu pai conta que ia em um mercadinho furtar comida para dar para a gente, o dono conhecia meu pai e fingia que não via. Meu pai voltou depois e acertou tudo com o cara, pediu desculpa, explicou a situação. Até hoje eles se conhecem. Meu pai nunca teve uma profissão, o sustento vinha das lutas, das aulas particulares, enquanto minha mãe era dona de casa.

Touro Moreno com os filhos na antiga casa da família em 2002. Crédito: Ricardo Medeiros
Touro Moreno com os filhos na antiga casa da família em 2002. Crédito: Ricardo Medeiros

Mas já chegaram a passar fome?

Lembro até hoje que mamãe fazia arroz, feijão e farinha para render e fazia o tutuzinho na mão. A gente só comia aquilo. Mas eu era muito pequeno, só queria ficar na rua brincando, nem lembrava que estava com fome, não tinha muita preocupação.

Tudo isso se torna uma motivação para você ser um espelho para os outros também?

Hoje as pessoas desistem por pouca coisa. Ouvem “Você não vai conseguir” e já desanimam. A minha história é de superação para muitos. Sai da favela, bati em bananeira e hoje sou medalhista olímpico. É uma inspiração para muitos jovens. Sempre falo isso nas redes sociais, às vezes uma pessoa está numa situação parecida e não pensa em desistir também.

Seus irmãos se inspiram em você e no seu irmão?

Eles veem a gente lá em cima, acham legal, mas a raiz de tudo é meu pai, ele que dá energia: “Está vendo como seus irmãos estão? Vocês também podem conseguir”. Ele veio me visitar esses dias, pegou o saco de pancada para me ensinar alguns golpes e batia forte. Eu fiquei impressionado. Ele quis ver o vídeo da minha última luta e corrigiu alguns erros. Ele sempre tem alguma coisa pra ensinar. Na minha luta no Rio, os meus treinadores viram o meu pai e se surpreenderam quando souberam que ele tem 80 anos. Ele levantou a camisa, mandou tocar na barriga dura dele (risos). É sobrenatural! Ele não toma remédio, não vai ao hospital, já tomou muita pancada do boxe e da vida também. Ele é nosso ídolo.

O pugilista capixaba Esquiva Falcão. Crédito: Vitor Jubini
O pugilista capixaba Esquiva Falcão. Crédito: Vitor Jubini

O sonho do cinturão traz uma certa ansiedade? Esse ano a chance vem?

No início eu ficava ansioso, agora estou tranquilo, já amadureci. Se for agora, ótimo. Se não for, vamos treinar, lutar e ver. Foi anunciada a revanche entre Ryota Murata e Rob Brant no Japão, no dia 12 de junho, e vou lutar na preliminar. Se eu ganhar, vou enfrentar o vencedor dessa luta pelo cinturão. Espero ganhar. Já estou em um nível que tanto faz o adversário. No início eu queria o Murata para ter a revanche da Olimpíada, mas ele correu tanto de mim que agora tanto faz. Vamos ver se dessa vez vai. O Brasil não é uma potência do boxe como México, Estados Unidos. Um mexicano, um americano, disputam cinturão rápido, com nove, dez lutas. O Brasil tem que ralar muito, trabalhar. Então estou ralando esperando pela oportunidade.

Qual foi a luta mais difícil até hoje?

A terceira luta, contra um coreano, na China. Ele era alto, tinha 1,90m, a viagem foi muito longa, cansei muito. Na época, eu viajei uma semana antes. Para essa próxima luta pretendo viajar 14 dias antes para descansar, treinar bem, me acostumar com clima, fuso horário.

Recentemente você deu uma declaração que se tornou pastor evangélico. Como isso aconteceu?

Nunca fui da igreja. Meu pai sempre foi de festa, farra, minha mãe também. Graças a Deus nenhum filho seguiu o caminho deles. E eu conheci a igreja pela minha pastorinha, a minha esposa. Ela nasceu em lar evangélico e fui batizado há uns dois anos. Foi aí que conheci Deus melhor. Independente de a gente não ter experiência na área, a nossa vida espiritual é muito forte com Deus. Aí abrimos uma igreja em Jardim Marilândia, mas como viajo muito e ela (esposa) ficava muito sozinha, fechamos a igreja. Continuamos na sede, na Igreja Pentecostal Abba Pai, em Cariacica. Se deixar vamos todos os dias, mas vamos na quinta e domingo no culto oficial. Ela já prega desde novinha, tem mais bagagem. Eu também prego, mas sou mais tímido (risos).

O pugilista capixaba Esquiva Falcão. Crédito: Vitor Jubini
O pugilista capixaba Esquiva Falcão. Crédito: Vitor Jubini

Você mudou muito depois que virou pastor?

Hoje não olho só pelo olhar da terra, mas pelo lado espiritual. Se a pessoa me xingou, antes eu xingava de volta. Agora eu penso, mando mensagem bíblica. Uma vez me chamaram de macaco, falei de Deus para a pessoa e ela pediu desculpas, falou que estava mal. Amor gera amor. Eu já orava antes da luta. Hoje eu oro mais e tem me ajudado muito. Só que muitas pessoas me criticam: “Você é pastor, pode lutar, bater no próximo?” Mas não podem confundir esporte com briga de rua. No final da luta a gente se abraça. Sempre oro para o meu adversário não se machucar ou tomar golpe que cause lesão. Não subo no ringue para matar, vou para ganhar de forma esportiva. Estou usando o dom que Deus me deu para cuidar da minha família.

Além do cinturão, você tem algum outro sonho?

O maior sonho que eu tinha era ter minha casa própria. Eu morava na casa dos meus pais até 2012, 2013 e queria ter minha casa, já estava velho (risos). Comprei e agora o que vier é lucro. Meu próximo objetivo é ser campeão mundial e as coisas vão melhorar, estabilizar, vou poder ter uma vida mais tranquila.

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