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Doutor e professor em Engenharia Florestal, Ananias Francisco Dias Júnior
Ananias Francisco Dias Junior

“A pesquisa beneficia toda a sociedade”

O professor e pesquisador Ananias Francisco Dias Junior promove pesquisas e projetos de sustentabilidade para levar a ciência dos laboratórios para a vida cotidiana

Doutor e professor em Engenharia Florestal, Ananias Francisco Dias Júnior
Publicado em 30/03/2020 às 15h16
Atualizado em 18/05/2020 às 13h59

Há dois anos na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), no campus de Jerônimo Monteiro, o professor e pesquisador Ananias Francisco Dias Júnior desenvolve junto a seus alunos projetos de sustentabilidade para transformar resíduos plásticos e outros materiais em soluções inteligentes. À primeira vista, as pesquisas científicas parecem estar distante do cotidiano das pessoas, mas imagine, por exemplo, poder reflorestar áreas quase desertas, de difícil acesso, por meio da dispersão de cápsulas.

É com projetos como esse que os pesquisadores do Departamento de Ciências Florestais e da Madeira da Universidade Federal do Espírito Santo em Jeronimo Monteiro trabalham há dois anos.

“Hoje, somos dependentes dos derivados do petróleo para combustíveis. E se tivesse outro, como o do líquido pirolenhoso da madeira? A nossa malha transportadora é terrestre, usa muito petróleo. Poderíamos ter tudo bem mais barato! Imagine o país sem ‘lixões’, sem aterros. Tudo virando matéria-prima renovável para estruturas biológicas, para uso no solo?”, indaga o professor.

Reconhecido por diversas propostas de melhorias em sistemas produtivos energéticos de base florestal, Ananias Francisco Dias Júnior é o responsável por identificar compostos potencialmente cancerígenos no carvão vegetal utilizado, por exemplo, para o churrasco. Ele também coordena um grupo de pesquisa da Ufes que tem como objetivo gerar oportunidades e melhorias na qualidade de vida do povo capixaba. Nesta entrevista, o professor comenta os desafios da ciência na utilização de resíduos urbanos para a produção de produtos de maior valor agregado.

Como surgiu a iniciativa da pesquisa que poderá transformar resíduos plásticos e outros materiais em soluções inteligentes?

Eu trabalho com pesquisa desde a graduação, quando iniciei o curso de Engenharia Florestal no Rio de Janeiro. Hoje, como coordenador de Laboratório da Ufes, juntamente com os estudantes, tentamos ao máximo responder questões básicas do cotidiano. Acreditamos que ciência é propor ações gerais com aplicações e interesse em diversas partes do mundo. As nossas experiências começaram com resíduos madeireiros de origem urbana, ou seja, todos os resíduos de madeira encontrados em lixões e aterros, como resíduos de podas de árvores, de móveis, paletes, caixotes e muitos outros. Fizemos diversos ensaios e detectamos que o material tinha potencial para gerar diversos produtos, mas principalmente energia, por meio da queima direta, como em uma fogueira, entende? Pensamos: por que não podemos transformar isso em carvão vegetal e utilizar em diversas formas? O carvão vegetal, além do tradicional churrasco, é usado como carvão ativado para descontaminar água e solos contaminados, para melhorar o solo da horta, em máscaras protetoras, em materiais renováveis, pastas de dentes, cosméticos, entre diversas aplicações. Temos bastante experiência com a transformação de resíduos de madeira em carvão vegetal. Assim, pensamos em adicionar materiais residuais de garrafas pet (polietileno tereftalato) para elevar a quantidade de carvão vegetal produzido e, ao mesmo tempo, incrementar algumas propriedades do líquido pirolenhoso que também pode ser obtido no processo produtivo do carvão. Assim, teríamos dois produtos resultantes da mistura dos resíduos de madeira urbana e dos resíduos pet: carvão vegetal e líquido pirolenhoso para serem estudados em diversas formas de uso.

Quais são as frentes de trabalho da pesquisa?

Temos diversas pesquisas em andamento. Uma delas é o desenvolvimento de cápsulas de carvão vegetal a partir de resíduos de madeira para uso em solos da agricultura. Essa pesquisa é conduzida pelo graduado em Engenharia Florestal e mestrando em Ciências Florestais Álison Moreira da Silva. É uma pesquisa bem legal que já teve repercussão no Brasil e fora dele. Imagine uma moeda de R$ 1,00, só que na espessura de um dedo. Imagine que ela seja feita de finos de carvão vegetal prensado e que dentro dela tenha sementes de árvores. É comprovado que o carvão vegetal melhora a fertilidade do solo, as pesquisas mostram isso, os nossos avós e pais já faziam isso. Assim, nós temos uma semente em um substrato que nutre o solo. Você, andando pelo Estado do Espírito Santo, já deve ter visto morros e montanhas descampadas, sem mato nem árvores. Nós vamos possibilitar que os produtores rurais e interessados recomponham áreas de difícil acesso somente jogando as cápsulas, sem precisar subir ou escalar montanhas. Outra frente de trabalho é com as garrafas pet. Adicionamos ela a resíduos de madeira para produzir carvão vegetal e líquido pirolenhoso. Quando produzimos carvão, podemos condensar alguns gases e obter o famoso líquido com cheiro de “barbecue”. Esse líquido possui mais de 800 compostos químicos, muito deles desconhecidos. Porém, tem um que nos interessa, que é o metanol, que pode ser usado para compor biocombustíveis renováveis. Pensamos que se adicionarmos resíduos pet a resíduos de madeira, poderíamos ter mais carvão e mais metanol no líquido. Em testes piloto, tivemos resultados muito positivos. Aumentamos a produção do líquido e do metanol, como pensamos no início. Agora estamos estudando formas de separar o metanol do líquido da melhor maneira possível. Mais adiante, poderemos responder o potencial do líquido pirolenhoso de resíduos de madeira e pet compor biocombustíveis de forma isolada ou em composições com outros combustíveis. Diversos produtores de carvão vegetal têm nos indagado para saber como anda a pesquisa. A nível de curiosidade, o Brasil é o maior produtor de carvão vegetal do mundo, o único a produzir em escala industrial. Esta pesquisa é feita em parceria com o maior centro de pesquisa nacional do Brasil, o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) do governo federal. Ela envolve diversos estudantes de Engenharia Florestal e Engenharia Industrial Madeireira da Ufes. A terceira área de trabalho é a adição de carvão vegetal nanoestruturado para a produção de biocompósitos. Imagina que eu passo carvão vegetal em um moinho e ele fica muito fino, mais fino que talco. Ele fica em uma escala nano. Isso mesmo, os nanomateriais. A nova tendência. Como o carvão vegetal é resultante de resíduos de madeira, ele é um produto “bio”, renovável, sustentável. Logo, ele é benéfico para a natureza, ele ajuda no solo, em água e outros meios. A nossa ideia é inseri-lo em materiais à base de poliuretano, poliéster, PVC e outros para produzir os biocompósitos.Queremos inseri-lo em funções biológicas, como junções de dentaduras, de estruturas ósseas, ou seja, em meios que ele seja biocompatível. Produzimos os biocompósitos e eles estão sendo testados. Já temos resultados interessantes, mas estão ainda em sigilo.

A ideia é colocar essas produções à disposição da sociedade? Quem deve ser beneficiado com esses resultados?

Nosso foco é sempre impactar a tomada de decisão na sociedade, principalmente aos mais necessitados. Sabemos o quanto é difícil. Ganha quem investir, pois são pesquisas com elevada visibilidade e com aplicações cotidianas. Ganha a população de forma geral, pois pode ser beneficiada com trabalho e renda nos segmentos produtivos que forem instaurados. O principal, ganham a sustentabilidade e conservação da natureza, diante do benefício de fazer com que o material considerado lixo se transforme e passe a ser uma excelente matéria-prima. O nosso grupo procura impactar a tomada de decisão na sociedade. Assim, eu cobro dos meus estudantes, orientandos, que busquem sempre investigar hipóteses com aplicações práticas. Isso se torna difícil por diversos aspectos. Primeiro, porque para eu fazer ciência aplicada, eu preciso fazer ciência básica, ou seja, preciso responder o porquê dos porquês. Feito isso, precisamos de boas ideias, de observar profundamente o mundo que nos cerca para identificar os principais gargalos e necessidades. Em seguida, precisamos de apoio, de investimento. As pessoas não sabem o que fazemos e o quanto trabalhamos. Falta investimento de forma geral nas universidades, maiores responsáveis pela pesquisa no país. Muitas vezes o setor privado quer se beneficiar da pesquisa, pois tem dinheiro, mas o nosso compromisso é com o povo. Gostaríamos que a população entrasse com maior frequência nas universidades, nos laboratórios.

Vivemos num mundo cada vez mais consumidor de materiais plásticos. Como mudar a consciência das pessoas?

Hoje somos dependentes dos derivados do petróleo para combustíveis. E se tivesse outro, como do líquido pirolenhoso da madeira? A nossa malha transportadora é terrestre, usa muito petróleo. Poderíamos ter tudo bem mais barato! Imagine o país sem “lixões”, sem aterros. Tudo virando matéria-prima renovável para estruturas biológicas, para uso no solo, para energia! Eu tenho um filho pequenino, e quero um mundo melhor para ele.

Em sua opinião, faltam incentivos a pesquisa científica para projetos como este no país?

Nós trabalhamos com alguns pesquisadores da França e do Japão. O Espírito Santo tem investido muito em pesquisa, por meio da Fapes. O Japão tem uma população enorme, precisa produzir alimentos em lugares montanhosos. Assim, eles nos auxiliam com ideias sobre o uso das cápsulas em áreas declivosas. Eles usam o líquido pirolenhoso de diversas formas. Com pesquisadores da França contamos com o apoio em materiais, nos biocompósitos. Além disso, a interação com pesquisadores de outros países possibilita internacionalizar o que fazemos, colocar os estudantes em contato, dar visibilidade ao Laboratório, à universidade e ao Estado. É uma cadeia em que todos são beneficiados. Além de pesquisas, também precisamos formar bons profissionais, de elevada competência para continuar impulsionando e transformando a vida das pessoas.

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