Desde o início do ano, os profissionais da área de segurança pleiteiam prioridade na fila de vacinação contra a Covid-19. Mas a categoria, que é parte da base eleitoral do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), não foi incluída entre os primeiros da lista do Plano Nacional de Imunização.
Em contrapartida, em um aceno ao grupo, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou, na última semana, que iria adiantar a vacinação para policiais em todo o Estado. A decisão foi seguida por governadores de Goiás, Pará, Distrito Federal, Amazonas e também do Espírito Santo, onde os profissionais de segurança vão começar a ser vacinados a partir do dia 15 de abril.
O movimento realizado pelos Estados gerou mal-estar no governo federal e aumentou o descontentamento dos policiais com o presidente da República porque esperavam que a decisão viesse do chefe do Planalto.
Como desdobramento, o Ministério da Saúde informou, nesta terça-feira (30), que vai antecipar a imunização de profissionais das forças de segurança e salvamento e de membros das Forças Armadas, mas apenas dos que atuam em conjunto com equipes de saúde no combate à Covid-19.
Na opinião de especialistas ouvidos pela reportagem, o movimento dos governadores poderia angariar prestígio com a categoria e, ao mesmo tempo, enfraquecer a relação dos policiais com Bolsonaro. Apesar disso, eles avaliam que os conflitos não devem levar à perda generalizada de apoio.
Os profissionais de segurança são considerados trabalhadores essenciais e as atividades nas ruas foram mantidas desde o início da pandemia de Covid-19. Por esse motivo, o grupo que engloba policiais militares, civis, federais e bombeiros tem pedido ao longo da campanha de vacinação prioridade na lista.
“Os policiais têm exposição constante ao vírus e correm risco de levar a contaminação para dentro de casa. Estamos trabalhando no enfrentamento da criminalidade e em apoio à saúde no controle da Covid, na fiscalização do cumprimento dos decretos. Deveríamos ter prioridade na vacinação desde o início”, argumentou o presidente da Associação dos Oficiais Militares do Espírito Santo, coronel Marcos Aurélio Capita, ainda antes da mais recente decisão do Ministério da Saúde.
A ausência de gestos de Bolsonaro nesse sentido contribuiu para a insatisfação dos policiais que, desde o ano passado, têm vivido conflitos com o chefe do Palácio do Planalto. Recentemente, a aprovação da PEC Emergencial desencadeou a irritação da categoria contra o presidente.
“A aprovação de alterações legislativas que nos prejudicam tem gerado várias manifestações e muita insatisfação”, afirmou o presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Espírito Santo, Aloísio Fajardo.
"O sentimento é de que policiais não estão sendo vistos como prioridade"
Inicialmente, a PEC Emergencial – alteração da Constituição que prevê recursos para a volta do auxílio emergencial – , estabelecia o congelamento dos salários e promoção de servidores públicos sempre que as despesas do governo federal e de Estados e municípios ultrapassarem determinado limite de despesas (a partir de 85% da receita).
Pelo menos 24 entidades policiais se reuniram em Brasília para protestar contra a PEC. Bolsonaro chegou a ser chamado de traidor por alguns grupos, que afirmaram que estavam sendo tratados com desprezo.
Temendo perda de apoio, o governo federal fez um acordo com a base na Câmara dos Deputados e o trecho que impediria promoções e progressões na carreira de servidores públicos foi excluído da proposta.
Para o cientista político Antonio Lucena, uma “sucessão de erros” tem feito com que Bolsonaro perca a popularidade no grupo, que acreditava que ele traria “privilégios” para a categoria.
“Alguns policiais se sentem traídos por não verem políticas direcionadas para a categoria, porque foi algo prometido que não aconteceu. Bolsonaro ainda tem um apoio importante, mas de uma categoria que tem perdido benefícios, que vem insatisfeita com as decisões dele à frente do governo”, declarou.
O diretor da Associação Nacional de Delegados da Polícia Federal no Espírito Santo Lorenzo Esposito, ouvido por A Gazeta antes do anúncio do Ministério da Saúde quanto à vacinação dos profissionais de segurança que atuam diretamente no combate à Covid-19, confirma que há uma insatisfação geral com a postura do presidente, que aumentou durante a pandemia.
"O tratamento do governo federal não está de acordo com o que a gente esperava. Nos impressiona o descaso com a categoria desde o início da pandemia"
GOVERNO DO ES VAI ANTECIPAR VACINAÇÃO DE POLICIAIS
Dias depois do governador João Doria anunciar que priorizaria a vacinação de policiais em São Paulo, o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), informou que profissionais de educação e segurança vão ser vacinados a partir do dia 15 de abril e 5% dos lotes da vacina vão ser reservados para esses profissionais.
Apesar de recomendado, os Estados não são obrigados a seguir o Plano Nacional de Imunização, ou seja, eles podem estabelecer regras próprias de prioridade.
A decisão foi anunciada no mesmo dia em que Casagrande ampliou regras de isolamento no Estado, com medidas consideradas impopulares.
Para o cientista político Rodrigo Prando, a medida é importante, mas também deve ser interpretada como um aceno dos governantes ao grupo.
“Vejo como uma decisão correta por parte dos governadores vacinar este grupo, independentemente de qualquer questão política, porque os policiais também estão na linha de frente. Mas é claro que há uma tentativa de ganhar prestígio, principalmente nas polícias estaduais que são controladas pelo Estado, mas são base de apoio de Bolsonaro”, analisou.
Apesar de apontar rusgas entre Bolsonaro e os profissionais de segurança, Prando destacou que o presidente ainda tem uma base forte de apoiadores nas polícias.
"Bolsonaro sempre teve uma postura corporativista e, por mais que o número de apoiadores na área de segurança tenha diminuído, a base bolsonarista tem se mostrado muito fiel e resiliente ao longo do tempo dentro dessa categoria, principalmente entre os policiais de baixa e média patente"
Ainda que pressionado, Bolsonaro tem feito alguns gestos para reverter a insatisfação dos profissionais de segurança. Na última sexta-feira (25), dias depois de Doria anunciar que iria antecipar a vacinação de policiais, a Advocacia-Geral da União (AGU) encaminhou ao STF pedido de inclusão das forças de segurança entre as prioridades do plano de vacinação, ao lado dos profissionais da saúde.
Nesta segunda-feira (28), o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que cabe ao Ministério da Saúde analisar o pedido do governo para que os agentes de segurança do país sejam incluídos no grupo prioritário de vacinação contra Covid-19.
PROFISSIONAIS DA SEGURANÇA ENVOLVIDOS NO COMBATE À COVID VÃO SER VACINADOS
Nesta terça (30), Francieli Fontana, coordenadora do Programa Nacional de Imunizações, afirmou que, após reunião com secretários estaduais e municipais de Saúde, o Ministério vai antecipar a imunização de profissionais das forças de segurança e salvamento e de membros das Forças Armadas que atuem em conjunto com equipes de saúde.
No primeiro grupo, alvo da antecipação, entram aqueles que atuam 1) no atendimento ou transporte de pacientes contra a Covid, 2) no resgate e atendimento pré-hospitalar, 3) na ações de vacinação e 4) na vigilância de medidas de distanciamento, "principalmente na vigilância das unidades básicas de saúde e outras unidades", diz.
No segundo grupo, que deve seguir a ordem do plano de vacinação, entram membros das forças de segurança que atuam em ações de apoio logístico à vacinação (mas que não ficam diretamente em contato com a população), que atuam no transporte de insumos para áreas de risco e aqueles que trabalham na vigilância de fronteiras, espaço aéreo, marítimo, além dos demais militares.