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Partidos de centro e centro-esquerda dominam cidades do ES desde 1988

Dados das eleições municipais de 1966 a 2020 mostram qual é a preferência do eleitor de cada cidade do Estado ao escolher seus prefeitos. No período democrático, maioria dos prefeitos é de siglas de centro e centro-esquerda

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 05/04/2021 às 02h00
Atualizado em 05/04/2021 às 02h04
Mapa ideológico mostra como o eleitor de cada cidade do ES se posicionou ao escolher seus prefeitos
Mapa ideológico mostra como o eleitor de cada cidade do ES se posicionou ao escolher seus prefeitos. Crédito: A Gazeta

Desde 1988, quando as eleições municipais passaram a seguir o sistema pluripartidarista nos moldes atuais, o Espírito Santo elegeu na maioria das vezes prefeitos de centro e centro-esquerda. Entre as 682 disputas municipais que aconteceram no período, partidos de centro levaram a melhor 196 vezes, enquanto siglas de centro-esquerda foram as mais votadas em 183 oportunidades. Os capixabas escolheram 146 prefeitos de partidos de direita, além de 127 de centro-direita e só 30 vezes preferiram líderes de esquerda nas prefeituras.

No mapa ideológico capixaba (veja abaixo), a Grande Vitória é onde há maior preferência por prefeitos de centro-esquerda, escolhidos em 21 vezes. A Região Serrana tem histórico mais conservador e, em 35 eleições locais, votou em partidos de direita. Já no Sul, no Norte e no Noroeste, quem são os mais escolhidos são os candidatos de centro. No geral, o MDB é o partido que elegeu mais prefeitos em 24 cidades e o que venceu mais vezes em todo o Estado, com 144 vitórias nas prefeituras. O PSDB fica em segundo lugar, com 90 eleições municipais ganhas, e o PSB em terceiro, com 79 prefeitos eleitos.

Por outro lado, se forem contabilizadas as eleições de 1966 a 1976, durante a ditadura militar, quando o sistema eleitoral permitia apenas dois partidos em disputa, os candidatos da Arena, legenda que apoiava os militares, foram escolhidos em 194 pleitos municipais. Já o MDB, de oposição ao regime, foi vitorioso 63 vezes no período. Vitória, como era Capital, não tinha eleições e os prefeitos eram nomeados pela ditadura.

Em 1982, na transição para o regime democrático, apesar de o sistema eleitoral já permitir a existência de outros partidos, a eleição foi por voto vinculado, em que o eleitor deveria votar em um mesmo partido para todos os cargos, de presidente a prefeito, o que favoreceu que apenas o PDS (originado da Arena) e o MDB pudessem eleger seus candidatos no Estado.

O levantamento, feito por A Gazeta, considera os dados das eleições municipais já digitalizados pela Justiça Eleitoral e usa o critério da Brazilian Legislative Survey (BLS), pesquisa elaborada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria com a Universidade de Oxford, para definir o espectro ideológico dos partidos ao longo de cada eleição (a metodologia está no box abaixo).

É claro que nem sempre os prefeitos eleitos seguem a linha ideológica de seus partidos, sem contar os candidatos que migram, de uma eleição para outra, para siglas com outras vertentes. No entanto, o mapa dá um panorama de como o eleitor capixaba vota em cada cidade e como muda de preferência a cada novo pleito.

Para o cientista político Antônio Carlos de Medeiros,  há que se considerar que a eleição municipal obedece a uma lógica própria, em que muitas vezes a disputa de poder é entre os grupos locais, ou seja, são mais um conflito por espaço do que uma batalha ideológica, sobretudo no interior.

Antônio Carlos de Medeiros

Cientista político

"Em termos gerais, somente nas eleições estaduais ou nas disputas das cidades maiores, com maior população, é que o eleitor presta atenção no partido que está votando"
Integralistas se reúnem em Vitória, durante o primeiro congresso do movimento, em 1934
Integralistas se reúnem em Vitória, durante o primeiro congresso do movimento, em 1934. Crédito: Arquivo Público do Espírito Santo

CONSERVADORISMO NO ES É UMA HERANÇA DO INTEGRALISMO

Não é por acaso que a região Serrana é pintada no mapa, predominantemente, de azul mais escuro. As montanhas capixabas, cujas cidades são em sua maioria formadas por descendentes de italianos e alemães, também foram os locais onde houve mais apoiadores do integralismo, ideologia criada na década de 1930 no Brasil inspirada por partidos fascistas da Europa. O Estado chegou a contabilizar mais de 20 mil membros da Ação Integralista Brasileira (AIB).

Para o historiador e cientista político João Gualberto Vasconcelos, mesmo que o partido tenha durado pouco tempo (foi extinto por Vargas em 1937), deixou uma herança significativa nessas regiões, onde ainda há uma preferência conservadora.

João Gualberto Vasconcellos

Historiador e cientista político

"Foi uma ideologia muito forte entre as comunidades italianas católicas na região das montanhas. Até hoje, cidades como Castelo, Conceição do Castelo e Venda Nova do Imigrante, por exemplo, são politicamente conservadoras e, inclusive, é onde o bolsonarismo predomina no Estado"

A preferência por políticos mais conservadores, lembra o cientista político Antônio Carlos de Medeiros, também pode ser observada entre os governadores eleitos entre a Era Vargas e a Ditadura Militar. Carlos Lindenberg (PSD), eleito em 1947 e em 1959, e Jones dos Santos Neves (PSD), eleito em 1951, eram considerados políticos mais conservadores e liberais. Francisco Lacerda de Aguiar (PTB), o Chiquinho, era mais moderado e seguia o populismo de Vargas, porém não era visto como alguém de esquerda.

"É nesse período pré-ditadura militar que está a coluna vertebral do conservadorismo no Espírito Santo, formada entre os integralistas. Ao mesmo tempo, é preciso observar que após a ditadura todos os governadores eleitos no Estado são de partidos de centro-esquerda ou que tiveram suas origens em partidos de esquerda, como o ex-governador Paulo Hartung, que fez parte do PCB durante a ditadura; Vitor Buaiz, eleito pelo PT; e o próprio Max Mauro, que era de uma ala mais progressista do MDB", aponta.

Do mesmo modo, há também um fator histórico que explica uma bolha de eleições de partidos de esquerda no Noroeste do Estado. Apesar de ser minoritário o número de prefeitos esquerdistas na região, é lá onde PT e PCdoB tiveram 11 vitórias, quase um terço dos chefes do Executivo municipal já eleitos no Espírito Santo.

"Como aquele é um território onde houve muitos conflitos de terras no passado, há um sindicalismo rural muito forte, de produtores rurais que acabaram se unindo. Com a eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2002, essa onda vermelha acaba tendo uma presença forte por lá", avalia Medeiros.

Na Grande Vitória e sobretudo na Capital, havia uma sequência de prefeitos de centro-esquerda eleitos na cidade. O primeiro, em 1988, foi Vitor Buaiz (PT). Depois foram eleitos, pelo PSDB, Paulo Hartung, que apesar de percorrer por partidos hoje localizados no centro e na centro-direita se reconhece como um político de centro-esquerda – e Luiz Paulo Vellozo Lucas, por dois mandatos. Quem o sucedeu por duas vezes foi João Coser (PT), seguido de Luciano Rezende (Cidadania), eleito em 2012 e 2016. Lorenzo Pazolini (Republicanos) foi o primeiro prefeito conservador a assumir a Capital desde a Ditadura Militar. Para Medeiros, esse rompimento é mais uma questão de renovação política do que mudança ideológica.

"Não vi esse mudança como um corte ideológico. Até porque, Pazolini só entrou no Republicanos em abril. O voto dos eleitores de Vitória nele não foi por uma questão de identificação partidária, a meu ver. Acredito que tanto ele  quanto Arnaldinho Borgo (Podemos), em Vila Velha, foram um corte geracional. Uma opção por renovação política do eleitorado", aponta.

PARTIDO DOS GOVERNADORES SÃO FAVORITOS NAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS

A corrida partidária (como mostra o infográfico acima) aponta como os partidos dos governadores em exercício no Espírito Santo acabam levando vantagem nas eleições municipais. Desde a eleição de Gerson Camata, em 1982 pelo MDB, quase sempre quem estava pilotando a máquina do governo fez com que seu partido se saísse melhor que os demais. A única exceção é a eleição de 1996, quando Vitor Buaiz (PT) era governador.

João Gualberto Vasconcellos diz que o fenômeno não é particular do Espírito Santo e que, geralmente, os prefeitos não querem ser oposição ao governo estadual, que é quem pode levar mais obras e recursos para sua cidade.

João Gualberto Vasconcellos

Historiador e cientista político

"Ser oposição é uma tragédia na política brasileira. É uma herança que temos da época dos coroneis, quando valia a máxima ‘para os amigos tudo, para os inimigos a lei’"

João Gualberto acrescenta que, apesar dessa política de favorecimento aos aliados ter se modificado, ainda está presente. A presença do governador, além de atrair lideranças locais para o partido do governo, pode também promover vitórias de candidatos improváveis, que vencem só por terem o governador como aliado.

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