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"Não tenho compromisso nem com Lula nem com Bolsonaro", diz André Janones

Em entrevista para A Gazeta, deputado federal André Janones (Avante) descreve-se como um político moderno, sem amarras ideológicas, e adepto da boa política

Tempo de leitura: 2min
Vitória
Publicado em 11/03/2022 às 19h11

Fenômeno nas redes sociais, com engajamento que chega a superar ao do presidente Jair Bolsonaro (PL), o deputado federal André Janones (Avante-MG) quer ser o próximo presidente do Brasil. Parlamentar em primeiro mandato, ganhou fama em 2018 com a greve dos caminhoneiros. Naquele ano, foi eleito deputado federal de Minas Gerais com 178 mil votos.

A pré-candidatura à Presidência foi lançada pelo Avante em janeiro, com uma proposta que quebrar a polarização entre Bolsonaro e o ex-presidente Lula (PT) e fazer um governo "sem amarras ideológicas".

"A política focada em debates ideológicos é totalmente ultrapassada. A gente não pode ter na cadeira de presidente da República alguém que governe por questões meramente ideológicas", afirmou em entrevista para A Gazeta nesta sexta-feira (11).

André Janones, deputado federal pelo Avante MG, em entrevista para A Gazeta
Deputado federal André Janones (Avante- MG) é pré-candidato a presidente da República em 2022. Crédito: Fernando Madeira

Na corrida eleitoral, que até o momento conta com vários pré-candidatos, Janones se apresenta como um outsider, mas um "que não nega a política". Afasta qualquer comparação com o atual presidente, eleito em 2018 com um discurso de renovação.

André Janones (Avante)

Deputado federal e pré-candidato à Presidência

"O que eu sou difere totalmente do modelo de Bolsonaro de 2018, dos outsiders de 2018, que eram negação absoluta da boa política, da política do diálogo. Eu sou político, adepto da boa política."

Apesar de ainda ser pouco conhecido, o deputado mineiro aparece empatado tecnicamente nas pesquisas com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), com 2% das intenções de voto para as eleições presidenciais em 2022, de acordo com o Ipec. Desde então, tem percorrido o país e conversado com lideranças políticas. 

Nesta sexta-feira (11), André Janones esteve no Espírito Santo, onde participará de um evento do Avante em Vitória e de um encontro com o governador Renato Casagrande (PSB), candidato que, segundo ele, o partido deverá apoiar na eleição, caso opte por concorrer.

Confira abaixo a entrevista completa:

O senhor se destacou pela presença na internet. É um fenômeno hoje, com engajamento. Ao que o senhor atribuiu isso e de que forma isso o favorece politicamente?

Acredito que esse engajamento vem do fato de incluir o cidadão, o eleitor, o brasileiro, no exercício do mandato. Eu não acredito em uma democracia em que o eleitor concede uma carta em branco para que o político aja em seu nome, mas ele fica ali durante quatro anos afastado e, depois de quatro anos, volta para dizer se aquela pessoa deve ou não continuar representando-o em um mandato eletivo. Acredito em uma democracia participativa, em que o eleitor participa diretamente do exercício desse mandato e não apenas na hora do voto. E foi o que eu busquei introduzir no meu mandato de deputado federal, sempre com as pessoas opinando, sugerindo, discutindo problemas reais e comuns a todas as ideologias, como a alta do preço dos alimentos, valor do salário mínimo, auxílio emergencial. E isso tem um efeito colateral positivo, que é de você não se deslocar da realidade da maioria do povo brasileiro e não entrar em discussões que, por mais que pautem a imprensa, que pautem as discussões políticas dentro da Câmara dos Deputados, não pautam a realidade do povo brasileiro.

O senhor está no seu primeiro mandato e apareceu com 2% das intenções de voto da pesquisa do Ipec, empatado com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que é mais conhecido do que o senhor. Apesar disso, essa intenção de voto ainda é muito pequena. O que o faz levar essa pré-candidatura adiante?

A nossa candidatura nasce da lógica que deveria nascer todas as candidaturas, vinda das pessoas, de uma manifestação espontânea para o candidato se colocar, e não com o candidato ou o partido colocando o nome de uma pessoa, como acontece com a maioria das candidaturas. Uma parte relativamente significativa do eleitorado brasileiro nos colocou com 2% na pesquisa do Ipec sem que a gente jamais tivesse dito publicamente sobre a possibilidade de lançar uma pré-candidatura presidencial. Acredito que o meu mandato gerou uma identificação de parte do eleitorado brasileiro. Hoje, eu tenho 20% de taxa de conhecimento e 2 pontos nas pesquisas. Doria tem os mesmos 2 pontos, mas tem mais de 80% de conhecimento. Isso precisa ser levado em conta porque mostra que temos espaço para avançar. 

Existe a possibilidade de o senhor retirar a candidatura mais à frente e apoiar um outro candidato?

Nosso país precisa de união, e eu acho que essa eleição vai mostrar isso nas urnas. Não acredito, em nenhum momento, na possibilidade de vitória de nenhum discurso extremista, de nenhum dos polos que hoje promovem a polarização. Acredito que é uma falsa polarização, as pessoas não estão escolhendo quem elas querem, estão escolhendo o menos ruim, quem traz um menor prejuízo para o país. A nossa pré-candidatura avançando, a gente consegue romper isso de o brasileiro se ver refém dessa situação. Não há possibilidade de eu retirar minha candidatura. Independentemente do resultado eleitoral, que eu tenha 1% ou seja o próximo presidente, minha candidatura resolve um problema dos eleitores que é de votar num candidato X porque não têm opção. Esse argumento por falta de opção não vai existir, porque minha candidatura vai até o final e representará uma mudança para o povo brasileiro.

O senhor faz críticas a essa polarização atual de Bolsonaro e Lula, mas evita se posicionar diretamente contra eles. Isso é uma estratégia?

É uma estratégia de continuar do lado do povo, de não deixar de me seduzir pela solução mais fácil e simples. Seria fácil ficar atrelado com algum desses dois, mas eu optei pelo caminho da independência, que é mais difícil, mas me manter fiel a quem me colocou na Câmara dos Deputados. Não tenho compromisso com Lula nem com Bolsonaro. Tenho compromisso com o povo brasileiro. Na maneira de atuar no meu gabinete, sempre que vou votar um projeto, eu peço meu assessor para tirar do cabeçalho o autor do projeto. Eu não quero saber se foi mandado pelo presidente Bolsonaro, se é de autoria do PT, eu analiso a ideia, e se aquilo é bom para o país, eu voto favoravelmente. 

André Janones (Avante)

Deputado federal e pré-candidato a presidente da República 

"Não tenho compromisso com Lula nem com Bolsonaro. Tenho compromisso com o povo brasileiro."

O senhor se coloca como um outsider na política. A gente viu que em 2018 muitos políticos se elegeram dessa forma, o próprio Bolsonaro, por exemplo. O senhor acredita que a população ainda buscará um outsider em 2022? Não tem medo de ser comparado a Bolsonaro?

Eu acredito em um modelo de política que você age como político, a política tem muita coisa boa, é um dos mais efetivos instrumentos de transformação social. Eu me identifico como político, eu sou político, adepto da política que busca agregar ao invés de separar. Quero aproveitar no meu governo o que o Bolsonaro apresentou de melhor, o que Lula apresentou de melhor, o que os outros candidatos têm a contribuir e governar. É isso que se espera de um líder preparado, um político de união, o que se difere totalmente do modelo de Bolsonaro de 2018, de outsiders de 2018, que eram negação absoluta da boa política, da política do diálogo. Eu utilizo minhas redes sociais como maneira de comunicar meu trabalho, que existe na vida real, que faz diferença na vida das pessoas, como a atuação na luta pelo auxílio emergencial. Considero-me político nato, que faz política de forma moderna e inclusiva, diferente de Bolsonaro. 

O senhor já esteve filiado a partidos de esquerda, já passou pela direita e hoje está em um partido que está se reformulando. Como o senhor se coloca ideologicamente?

Para mim, a política focada em debates ideológicos é totalmente ultrapassada. Eu sou um homem do século XXI,  não me limito a nenhuma ideologia, eu deixo isso para o eleitor dizer se sou de esquerda, de direita, de centro. Costumo falar que nenhuma ideologia dá conta da realidade. O político que se identifica como alguém de esquerda, quando vem uma pauta boa para o país, mas a cartilha da esquerda diz que ele não pode implementar aquela medida, ele fica amarrado. O mesmo acontece com a direita. Se você se identificar do ponto de vista ideológico, você cria amarras. Me identifico como alguém que faz uma política moderna. No parlamento, até que cabe; o deputado pode até seguir uma cartilha, isso é bem-vindo porque você tem várias correntes. A gente não pode ter na cadeira de presidente da República alguém que se guie por questões meramente ideológicas. O presidente Bolsonaro, no dia da posse, disse: "A partir do dia de hoje, o Brasil está livre das amarras ideológicas”. Eu fiquei feliz e acreditei que fosse se concretizar, mas não se concretizou, apenas mudamos o tipo de amarras. Saímos das amarras ideológicas da esquerda e nos prendemos nas amarras ideológicas da direita. Está na hora de romper com isso e, por isso, eu sou pré-candidato.

E quais são as principais propostas do seu governo?

Eu não acredito que proposta por si só vence uma eleição, mais importante do que como vai agir em cada área é a mensagem que você vai passar. O que eu quero passar com a minha candidatura? A necessidade de diminuir as desigualdades sociais no nosso país. Nosso país não tem vários problemas, ele tem um único problema e efeitos colaterais desse problema. Como diminuir isso? Com uma série de ações, mas a principal é ter coragem para a gente colocar dinheiro, entregar dinheiro na mão das pessoas mais pobres. Aí falam que vai quebrar o país porque não tem de onde tirar esse dinheiro. Tem sim, e tem para tirar de sobra. E é mais fácil para quem quer contrapor essa ideia dizer que isso é populismo, que é para ganhar voto, do que dizer que não tem onde tirar esse dinheiro, porque tem. A gente pode fazer uma reforma tributária profunda, que coloque o dedo na ferida, e um presidente gozando de alta popularidade consegue fazer isso. Uma reforma que tribute os dividendos da maneira que deve ser feita e não como tem sido alardeada; que consiga instituir imposto sobre grandes fortunas, que atingiria menos de 1% da população brasileira. Com essa reforma tributária, você tem aumento da arrecadação, o que daria para pagar a renda mínima que eu proponho para as pessoas em vulnerabilidade. Eu acredito que a gente tem que dar o peixe e ensinar a pescar, porque ninguém aprende a pescar passando fome. Dar o peixe seria essa renda, e ensinar a pescar é mexer na economia, reduzir a taxa de juros hoje, crédito barato para o pobre, um crescimento econômico sustentável, onde todo mundo que faz parte dessa cadeia produtiva ascenda socialmente.

André Janones

Deputado federal e pré-candidato a presidente da República

"Saímos das amarras ideológicas da esquerda e nos prendemos nas amarras ideológicas da direita. Está na hora de romper com isso. Não podemos ter na cadeira de presidente da República alguém que se guie por questões meramente ideológicas."

O senhor vai se reunir com o governador Renato Casagrande (PSB). O Avante já foi um partido próximo dele e hoje está um pouco mais afastado. Vocês pretendem retomar essa aliança e apoiar a reeleição dele aqui no Estado?

Está caminhando para isso, há uma grande possibilidade para que isso se concretize, ainda depende de uma série de diálogos, conversas. Hoje, nós estamos buscando fortalecer o partido em vários Estados. Estamos em uma fase de reconstrução, e nenhum Estado, principalmente o Espírito Santo, pode ficar fora dessa nova forma de fazer política que o Avante incorpora muito bem. Nosso foco é conseguir eleger uma bancada expressiva de deputados estaduais, de deputados federais nas próximas eleições, para introduzir no Estado uma política livre de amarras ideológicas. Já temos alguns nomes para sair com uma chapa para deputado estadual e federal que serão apresentados, provavelmente, neste fim de semana. Vai ser uma chapa muito competitiva.

O senhor foi filiado ao PT por muitos anos. Em caso de um segundo turno polarizado entre Bolsonaro e Lula, apoiaria o PT?

Eu acredito muito na minha candidatura, não é uma pré-candidatura para ganhar espaço na mídia. Eu sei a mensagem que eu quero transmitir, tenho propostas para apresentar e resolver problemas do país. O que eu tenho de diferencial são coragem e liberdade para agir da maneira que o país precisa. Tenho independência para isso, coisa que nenhum dos candidatos que hoje lideram a disputa tem, porque eles têm seus conchavos, seus acordos. Independentemente de boa vontade, eles não teriam condições de implementar as mudanças de que o Brasil precisa. Como eu não me alinho a nada que eu não acredito, caso tivesse um segundo turno entre Lula e Bolsonaro, eu ficaria da forma como eu fiquei nas eleições de 2018, de forma absolutamente independente, sem vincular meu apoio a um ou a outro.

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