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Movimentos viram fábricas de candidatos e dividem especialistas

Grupos, como o RenovaBR, apoiado por Luciano Huck, formam políticos que depois se elegem por diversos partidos

Publicado em 26/08/2019 às 14h30
Eduardo Mufarej, fundador do RenovaBR, com Paulo Hartung, Tayana Dantas e Luciano Huck em Vila Velha. Crédito: Leo Duarte
Eduardo Mufarej, fundador do RenovaBR, com Paulo Hartung, Tayana Dantas e Luciano Huck em Vila Velha. Crédito: Leo Duarte

A ideia é nobre: oferecer recursos, capacitação e motivação para que pessoas comuns, bem intencionadas, disputem eleições e sejam eleitas sem ficarem à mercê das deficiências e verticalidades dos partidos políticos.

Mas os chamados movimentos cívicos, como RenovaBR, Livres, Agora! e outros têm gerado “curto-circuitos” nas agremiações partidárias e dividido especialistas sobre seus impactos na política brasileira.

O conflito entre movimentos cívicos e partidos ficou evidente na votação da reforma da Previdência. Políticos formados pelo RenovaBR foram contra orientações partidárias justamente em tema caro às respectivas cúpulas partidárias – e também costumam contrariar orientações nas votações corriqueiras.

“Queremos um país mais justo, mas que pessoas possam participar das eleições sem depender da mão do partido, do dirigente, do sindicalista”, disse Eduardo Mufarej, fundador do RenovaBR, durante evento em Vila Velha há duas semanas.

É fato que, em geral, os partidos são estruturas ineficientes, lentas, atrasadas, com pouca democracia interna, corruptas e nada transparentes. Mesmo assim, são altamente necessários à democracia, para organização do debate.

DINHEIRO

Aí reside uma das críticas mais contundentes aos movimentos cívicos, a de que eles querem agir como partidos e lançar candidatos, mas abrindo mão de carregar o ônus de ser um.

“Eles querem o que os partidos têm de bom para eles, que é o dinheiro para as eleições, e não querem ser contaminados pela má reputação dos partidos. Quando convém dizer ser do movimento, dizem. Mas quando convém pegar dinheiro para a eleição, pegam”, critica Sérgio Praça, professor e pesquisador da Escola de Ciências Sociais do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da FGV-RJ.

O apresentador Luciano Huck (membro do Agora!), que ladeou Mufarej em Vila Velha e criticou o presidente Jair Bolsonaro (PSL), por exemplo, faz política por meio do movimento, sem ter um partido. O evento do RenovaBR, aliás, atraiu tanto militares simpáticos à greve de 2017 quanto agentes públicos que trabalharam para debelarem o movimento paredista.

Sérgio Praça - Professor da Escola de Ciências Sociais do CPDOC - FGV

À primeira vista, eles são boas iniciativas porque engajam pessoas na política, e isso quase nunca é ruim. O prolema é que vemos alguns parlamentares que vêm desses movimentos contribuindo para enfraquecer os partidos

Pesquisadora e socióloga da USP, Ellen Elsie Nascimento pontua que os movimentos colocam-se como alternativa à polarização. E, para isso, arvoram-se sobre princípios quase unânimes como valores, diálogos e honestidade. Assim, beneficiam-se de uma “camuflagem”.

Ellen Elsie Nascimento - Pesquisadora e socióloga da USP

Esses movimentos são uma tentativa de se apresentarem como terceira via e fugirem de polarizações, inclusive contestando a compreensão em torno de direita e esquerda

QUEIXAS E AMEAÇAS DE EXPULSÃO

As principais críticas aos movimentos partem exatamente dos partidos, que se veem acuados por figuras e iniciativas com luz independente da estrutura das agremiações. Contudo, esses partidos conhecem perfeitamente os pretensos candidatos que acolhe. Há quem diga que as queixas e ameaças de expulsão de "infiéis" soam hipocrisia.

Como os partidos vão mal, os movimentos crescem preenchendo as lacunas. E um jogo de poder se estabelece, observa o professor de Ciência Política do Ibmec/MG Adriano Gianturco.

Diferentemente de Praça, Gianturco minimiza a influência dos movimentos sobre os congressistas que elegeu. Lembra que eles não votam em bloco em todas as discussões e salienta que partidos são apenas um dos grupos que influenciam o debate público. Famílias tradicionais, bancadas temáticas e grupos religiosos e interesses regionais também agem para isso, embora os partidos sejam os mais evidenciados.

“Movimentos estão concorrendo por parte do poder. Não é necessariamente negativo para o sistema político, mas para concorrer eleições tem que ser formalmente constituído. Os movimentos podem fazer coisas idênticas a que os partidos fazem, exceto disputar a eleição”, constata.

Adriano Gianturco - Ciência Política do Ibmec/MG

Quem reclama que eles fazem tudo isso, reclama dos próprios movimentos sociais. Partidos estão tendo o poder disputado e estão reclamando. Eles têm interesse em limitar a concorrência

CANDIDATURAS AVULSAS

A visão da filiação partidária como pedágio para chegar a cargos eletivos leva a outro debate, o das candidaturas avulsas, hoje proibidas.

“O argumento central dos que são contra a candidatura avulsa é o de que ela pode ser celebridade e ganhar o voto sendo figura autoritária, populista, sem vivência política ou partidária”, comentou Rodrigo Prando, professor de Ciência Política da Universidade Mackenzie.

Prando avalia que, em geral, os movimentos são positivos. Oferecem bolsas, formação, ensinam a lidar com a política. Por outro lado, alerta para o risco de catapultar para a vida pública pessoas que não foram educadas na vida política, sem construção de consenso.

Com a pressão exercida por movimentos sobre os partidos políticos, é possível que velhas práticas passem a ser revistas? Especialistas também se dividem.

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