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Deputado do ES usa tribuna da Assembleia para encomendar crime

Capitão Assumção (PSL) ofereceu R$ 10 mil para quem matar o suspeito de assassinar jovem de Cariacica na manhã desta quarta-feira. Juristas apontam incitação ao crime e possível responsabilização do deputado

Publicado em 12/09/2019 às 22h34

O deputado estadual Capitão Assumção (PSL) usou a tribuna da Assembleia Legislativa nesta quarta-feira (11) para oferecer R$ 10 mil a quem matar o suspeito de ter assassinado a jovem Maiara de Oliveira, em Cariacica, na manhã desta quarta. Veja a declaração no vídeo acima.

"[Tenho] R$ 10 mil aqui do meu bolso pra quem mandar matar esse vagabundo, isso não merece tá vivo não. Eu tiro do meu bolso quem matar esse vagabundo aí. Não vale dar onde ele tá localizado não, tem que entregar o cara morto, aí eu pago”, disse o deputado durante fala no plenário.

Minutos depois na mesma sessão, o deputado reforçou a oferta:

Capitão Assumção, deputado estadual

Cargo do Autor

"e esse miserável for encontrado morto e a gente tiver certeza que esse desgraçado é o cara que matou a jovem eu vou lá e pago com a maior boa vontade, não quero nem sabe"

INCITAÇÃO AO CRIME

Segundo juristas ouvidos pelo Gazeta Online, fala do deputado é uma incitação ao crime, um apelo direto para que alguém cometa um homicídio e ainda por cima seja remunerado por isso. 

"Do ponto de vista do Direito, é um discurso de ódio, uma fala absolutamente inaceitável. Isso é um convite ao crime, é um absurdo que não tem defesa possível. Parece que estamos voltando no tempo, quando as pessoas se posicionavam como agendadores da morte do outro", declarou o professor e especialista em Direitos Humanos e Constitucional, Caleb Salomão.

Caleb acrescenta que a fala reflete um mal estar moral e ético que o país já vive há algum tempo.

"Hoje, a morte e a violência viraram vitrine de discurso de qualquer pessoa. Para o criminoso, o Direito tem a forma de tratar e não é essa. Isso ofende a Constituição, o decoro parlamentar", disse.

IMUNIDADE PARLAMENTAR

Capitão Assumção disse que pagaria R$ 10 mil para quem matar o assassino de jovem em Cariacica. Crédito: Lissa de Paula/Ales
Capitão Assumção disse que pagaria R$ 10 mil para quem matar o assassino de jovem em Cariacica. Crédito: Lissa de Paula/Ales

Apesar de deputados possuírem imunidade parlamentar, que lhes assegura o direito de emitirem opiniões e ideologias político-criminal, a fala do Capitão extrapola qualquer prerrogativa, avaliou o professor e especialista em Direito Penal, Israel Jorio. 

"A incitação clara e direta ao cometimento de crime grave não se encontra compreendida pela imunidade parlamentar. 'Pago dez mil para quem matar' é um comando claro e explícito por meio do qual se determina, e mediante estímulo financeiro específico, que alguém cometa um crime gravíssimo (homicídio qualificado), o que extrapola nitidamente a imunidade parlamentar para configurar delito de incitação pública ao crime (art. 286 do Código Penal)", explicou.

Jorio ainda destacou que, por uma interpretação bastante rigorosa, o deputado pode até responder por homicídio, segundo o art. 29 do Código Penal, caso alguém cometa o crime não só incentivado, mas financiado por ele.  

Israel Jorio, professor e especialista em Direito Penal

Cargo do Autor

"e alguém, com base nessa incitação, vier a matar a tal pessoa, o autor da frase incitadora acaba se tornando partícipe moral do crime de homicídio, e sujeitando-se às mesmas penas, na medida de sua culpabilidad"

OAB DIZ QUE FALA É RETROCESSO

A diretora de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-ES), Flávia Brandão, considerou a posição do deputado como um "grave retrocesso". 

"De um representante do Poder Legislativo espera-se mais responsabilidade, e não o incentivo à barbárie. Esse deputado deve primeiramente respeitar as leis e a Justiça, além de trabalhar para aprimorar os mecanismos de segurança pública existentes", disse por meio de nota. 

O QUE DIZEM OS DEPUTADOS

Apesar da fala do Capitão Assumção ter causado grande repercussão, inclusive sendo questionada por outros deputados durante a sessão na Assembleia, o presidente da Corregedoria da Casa, deputado Hudson Leal (PRP) afirma não ter escutado a declaração. "Eu sinceramente não ouvi. São três horas de sessão, a gente nem sempre escuta tudo", disse. 

Corregedor geral Hudson Leal disse que não ouviu a declaração do deputado Capitão Assumção
Corregedor geral Hudson Leal disse que não ouviu a declaração do deputado Capitão Assumção

Apesar disso, o deputado disse que é a favor da liberdade de expressão dos parlamentares. "Eu defendo a imunidade parlamentar, da liberdade dele e de todos os outros deputados expressarem as suas opiniões. Se houve quebra de decoro tem que ser analisado, mas a Corregedoria só pode atuar quando há denúncia".

O deputado Marcelo Santos, que estava presidindo a sessão, e é o 1º vice-presidente da Assembleia, disse que discorda da declaração do Capitão Assumção e que acredita que a fala dele foi movida pelas emoções.

Marcelo Santos, deputado estadual

Cargo do Autor

" uma fala exagerada, não é olho por olho e dente por dente que vai resolver crime e insegurança no país. Apesar de ser contra ao que ele falou, no calor de uma sessão, isso acontec"

A deputada Iriny Lopes (PT), disse que estava atendendo a um telefonema no momento em que o deputado falava na tribuna e, por isso, não ouviu as declarações. Contudo, ela ressalta que qualquer declaração que incite um homicídio é um crime. 

"É extremamente grave, não podemos fazer justiça com as mãos. Qualquer eventual pagamento, seja por parte de quem for, para o extermínio de uma vida, caracteriza um crime", afirmou. 

 O Gazeta Online procurou a Mesa Diretora da Assembleia e o Ministério Público Estadual (MPES), mas ainda não houve manifestação de ambos. Se houver resposta, esta reportagem será atualizada.

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