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Cortina de fumaça: as vezes em que Bolsonaro defendeu o voto impresso

Desde a campanha, presidente trouxe o assunto à tona em diversos momentos críticos do mandato. Especialistas apontam que discurso mantém base eleitoral engajada

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 11/05/2021 às 02h00
Presidente da República, Jair Bolsonaro já defendeu o voto impresso em 16 ocasiões diferentes
Presidente da República, Jair Bolsonaro já defendeu o voto impresso em 16 ocasiões diferentes. Crédito: Marcos Corrêa/PR

Uma das principais bandeiras do bolsonarismo, a defesa do voto impresso é uma pauta recorrente nos discursos do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido). A insistência não é impensada, segundo cientistas políticos. Atende a uma lógica que visa, principalmente, um cálculo eleitoral do mandatário, que quer se reeleger em 2022. Ao atacar a credibilidade do sistema eleitoral, Bolsonaro alcança dois objetivos: tira o foco de momentos críticos de sua gestão – como é o caso da CPI da Covid – e mantém sua base engajada, alimentada por teorias da conspiração e "antissistema".

Desde a campanha eleitoral, Bolsonaro defendeu o voto impresso pelo menos 16 vezes diante da mídia e de apoiadores. Da última vez, na quinta-feira (6), subiu o tom e fez uma ameaça: "Se não tiver voto impresso, é sinal que não vai ter eleição! Acho que o recado está dado", disse, durante transmissão ao vivo nas redes sociais.

O voto impresso defendido pelo mandatário não é a volta às cédulas de papel. Bolsonaro insiste em um modelo híbrido, com voto na própria urna eletrônica. A diferença é que, após a confirmação, o voto seria impresso e, em seguida, colocado em uma urna física.

O modelo, inclusive, foi testado no Brasil nas eleições de 2002, mas não apresentou resultados satisfatórios. A experiência se mostrou cara, complexa, e os 6% de eleitores que testaram o modelo não sentiram que houve mais segurança. Além disso, para implantar o sistema, todas as urnas no país precisariam ser trocadas, o que resultaria em um custo de R$ 2,5 bilhões aos cofres públicos.

Em 2015, quando uma minirreforma eleitoral foi aprovada no Congresso, o grupo do qual Bolsonaro fazia parte incluiu nas alterações o voto impresso a partir das eleições de 2018. No ano eleitoral, no entanto, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou a determinação inconstitucional e ela nunca foi aplicada. 

Para o cientista político e professor da UFMG Felipe Nunes, a questão é estratégica e tem os olhos fixos em 2022. Principalmente em momentos como o que se impõe sobre o mandatário agora, com a CPI da Covid e a escalda de mortes, o presidente se vê "encurralado" e precisa "mostrar força" para seus apoiadores.

"Esse conjunto de pessoas que apoiam Bolsonaro precisa desse tipo de argumentação para manter vivo o que os une, que é a ideia de combater o 'sistema que está aí', seja lá qual for. Insistindo nisso, ele mantém sua base política ainda engajada, mobilizada e ativa, já que são temas que de fato alimentam a identidade bolsonarista", aponta.

Há, também, uma preparação do ambiente para que o presidente levante um questionamento caso não vença no ano que vem, ressalta o cientista político e coordenador do Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (NUDEB) da UFRJ, Josué Medeiros. O professor destaca que o tom de Bolsonaro vem subindo nas críticas, e que é preciso levar a sério as declarações do mandatário para garantir a defesa do sistema democrático.

"Existe uma dimensão mais estratégica visando 2022, para armar um questionamento mais profundo do processo eleitoral. Pode ser que ele use pra justificar uma derrota dentro de seu grupo, ou pode ser que ele use isso para avançar e ir mesmo contra o sistema, não aceitando a derrota e insuflando seguidores, o que seria um movimento mais perigoso de questionamento aberto", assinala.

VOTO ELETRÔNICO É AUDITÁVEL

O tema está sendo discutido na Câmara dos Deputados. Um projeto de emenda à Constituição, de autoria da deputada bolsonarista Bia Kicis (PSL-SP), está sendo avaliado por uma comissão especial, criada pelo presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL). Além disso, o tema está entre os tópicos que serão avaliados por um grupo de trabalho que vai apresentar, ainda neste ano, uma proposta de novo código eleitoral.

O principal argumento de quem defende a ideia é que o voto seria auditável, ou seja, os eleitores poderiam checar se a urna computou o voto corretamente. Mas isso já é possível, por meio do boletim de urna. Em vez de imprimir um voto de cada vez, ao final da votação, a urna imprime um boletim com todos os votos daquela sessão. Um boletim vai para o cartório eleitoral e outro é colocado na porta da seção, onde qualquer eleitor pode conferir ou fotografar.

Além disso, a Justiça Eleitoral disponibiliza tanto o resultado geral quanto o resultado por seção, para conferência. Depois da eleição, as urnas e os boletins ficam lacrados nos cartórios eleitorais para o caso de alguém questionar o resultado. Desde as primeiras eleições informatizadas, em 1996, nunca houve o registro de qualquer fraude nas votações.

Em 2014, por exemplo, o PSDB questionou a votação quando o candidato da legenda, Aécio Neves, perdeu a presidência para então presidente Dilma Rousseff (PT). Nenhuma fraude foi detectada.

"Qualquer pessoa ou instituição, como universidades, Polícia Federal, Ministério Público, OAB e líderes partidários, pode ter acesso ao software que é instalado nas urnas, ou seja, ao sistema, para fiscalizar como ele foi feito. As urnas não são ligadas à internet e as urnas são testadas antes e no dia da eleição", explicou o secretário de Tecnologia da Informação do TRE-ES, Danilo Marchiori, durante as eleições no ano passado

Pesquisador do sistema democrático brasileiro, Medeiros garante: "O nosso sistema eleitoral é seguro, é uma conquista, é exemplo para o mundo".

VEJA FRASES DITAS POR BOLSONARO

Bolsonaro carrega a bandeira do voto impresso desde que era candidato, em 2018. Durante entrevista ao Jornal Nacional, da Globo, falou em fraudes no sistema e defendeu o modelo impresso. Ele também tocou no assunto dez dias após ser vítima de uma facada em Minas Gerais.

Jair Bolsonaro

Em  entrevista ao Jornal Nacioanal durante a campanha eleitoral, 29 de setembro de 2018

"Um sistema eleitoral em que já tínhamos acertado uma maneira de auditá-lo, que é o voto impresso, lamentavelmente o Supremo Tribunal Federal derrubou. E também o sistema eleitoral que não é aceito em nenhum lugar do mundo. Então, a dúvida fica"

Em julho de 2019, já eleito, Bolsonaro estava sendo criticado por cogitar indicar seu filho, Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ), para ser embaixador nos Estados Unidos. Durante uma live, no dia 12 daquele mês, prometeu que encaminharia à Câmara um projeto para garantir que em 2022 o sistema fosse de voto impresso.

Jair Bolsonaro

Em live no dia 12 de julho de 2019

"Vou pressionar minha assessoria para a gente apresentar logo ao Parlamento o projeto de lei do voto impresso"

É comum, ainda, que Bolsonaro questione a credibilidade de outros sistemas democráticos, não só do Brasil. Em novembro de 2019, quando comentava a suspeita de fraude na eleição da Bolívia, publicou em rede social que o voto impresso seria "clareza para o Brasil". Fez o mesmo durante uma live em novembro, enquanto os votos nos Estados Unidos eram apurados e o ex-presidente Donald Trump, em quem Bolsonaro se espelhava, aparecia perdendo para Joe Biden. Os votos na Bolívia e nos Estados Unidos são computados em cédulas de papel.

Jair Bolsonaro

No Twitter, em novembro de 2019 ao comentar suspeitas de fraude na eleição boliviana

"A lição que fica para nós é a necessidade, em nome da democracia e transparência, da contagem de votos que possam ser auditados. O voto impresso é sinal de clareza para o Brasil!"

Jair Bolsonaro

Em live no dia 5 de novembro, enquanto os votos eram computados nos EUA

"A gente espera, no ano que vem, entrar, mergulhar na Câmara e no Senado, para que a gente possa, realmente, ter um sistema eleitoral confiável em 2022. O voto impresso é a maneira que você tem de auditar, contar votos de verdade"

Jair Bolsonaro

Em novembro para apoiadores, após Trump perder as eleições

"Nós devemos ter um sistema eleitoral onde você possa aferir e auditar o seu voto. E o que tá aí não é possível ser aferido. Então eu, por exemplo, não confio nesse sistema eleitoral"

Jair Bolsonaro

No dia da eleição municipal de 2020

"Não podemos continuar votando e não tendo a certeza se aquele voto foi ou não para aquela pessoa. E deixar bem claro: o voto impresso ninguém bota a mão no papel, fica atrás do visor. No meu entender, quem não quer entender isso não sei o que pensa da democracia"

Bolsonaro duvida até mesmo da forma como venceu as eleições de 2018. Em março de 2020, em visita a Miami, disse para a imprensa norte-americana que a eleição no Brasil havia sido fraudada e que, na verdade, ele teria sido eleito no primeiro turno. O mandatário alegou ter provas, mas nunca apresentou qualquer comprovação da teoria.

Jair Bolsonaro

Em entrevista para imprensa norte-americana em Miami, em março de 2020

"E nós temos não apenas palavra, nós temos comprovado, brevemente eu quero mostrar, porque nós precisamos aprovar no Brasil um sistema seguro de apuração de votos. Caso contrário, passível de manipulação e de fraudes"

A maior parte das declarações foram dadas em suas lives semanais ou no cercadinho, na saída do Palácio da Alvorada onde costuma encontrar seus apoiadores. No dia 13 de outubro, questionado por um deles sobre a possibilidade de existir votação on-line, voltou a dizer que preferia o modelo impresso.

Jair Bolsonaro

No dia 13 de outubro de 2020 em conversa com apoiadores

"Eu prefiro o papel. O papel não tem como, acoplado ao eletrônico, é uma forma ideal de você não ter fraudes em eleições "

Entre os meses de dezembro e janeiro, Bolsonaro falou cinco vezes sobre o tema. No pano de fundo, se evidenciava uma rivalidade entre ele e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e uma briga pela "paternidade" da primeira vacina aplicada no Brasil. No dia que Doria anunciou que daria início à vacinação em São Paulo em janeiro, Bolsonaro falou sobre voto impresso e excluiu a Justiça Eleitoral de uma eventual decisão sobre o assunto.

Jair Bolsonaro

No dia 7 de dezembro de 2020 para apoiadores no Palácio Alvorada

"Quem decide somos nós, o presidente Executivo e o Parlamento, tá ok? E ponto final"

Jair Bolsonaro

Em 22 de dezeembro de 2020, em encontro com apoiadores em Santa Catarina

"Se a gente não tiver voto impresso em 2022 pode esquecer a eleição"

A resposta de Bolsonaro à invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, se diferenciou de outros líderes mundiais. Enquanto os outros repudiaram a ação de extremistas apoiadores de Trump, Bolsonaro voltou a colocar em dúvida o sistema eleitoral e disse que "sem voto impresso em 2022" o Brasil poderia ter um cenário ainda pior do que o que foi visto nos EUA.

Jair Bolsonaro

Em 06 de janeiro de 2021, conversando com apoiadores sobre a invasão do Capitólio

"A minha (eleição) foi fraudada. Eu tenho indício de fraude na minha eleição. Era pra ter ganho no primeiro turno"

Jair Bolsonaro

Em 7 de janeiro de 2021, em conversa com apoiadores

"Se nós não tivermos o voto impresso em 2022, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos"

No dia da eleição dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, Bolsonaro evidenciou em suas redes sociais que o processo é feito por voto impresso. 

Jair Bolsonaro

No Twitter, após eleições na Câmara e Senado

"Em cédula de papel, o Senado Federal elegeu o Senador Rodrigo Pacheco (57 votos de 81 possíveis) para presidir a Casa no biênio 2021/22"

Com a CPI da Covid instalada no Senado, Bolsonaro falou sobre voto impresso três vezes em uma semana. No dia 29 de abril, antes de uma manifestação de apoiadores que estava marcada para o dia 1º de maio, disse, em transmissão ao vivo, que conversou com lideranças políticas no Congresso para aprovar até setembro a proposta. Depois, nos dias 6, subiu o tom e falou em "recado dado".

Jair Bolsonaro

Em live no dia 29 de abril

"Conversei com lideranças na Câmara e no Senado para ver se aprovamos, até setembro, o voto auditável, por ocasião das eleições do ano que vem"

Jair Bolsonaro

Em live no dia 6 de maio

"Se não tiver voto impresso, é sinal que não vai ter eleição! Acho que o recado está dado"

Jair Bolsonaro

No dia 7 de maio em encontro com motoqueiros, em Brasília

"Com toda certeza nós aprovaremos no Parlamento e teremos, sim, uma maneira de auditar o voto por ocasião das eleições de 2022. Ganhe quem ganhar, mas na certeza, não na suspeição da fraude"

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