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Contra pessoas em situação de rua

Tortura, sequestro e morte: vídeos mostram ação de vigilantes presos em Vitória

Imagens divulgadas pela Polícia Civil mostram atuação do grupo contra pessoas em situação de rua; nove investigados se tornaram réus pela morte de Marcos Vinícius, o “Bracinho”

Publicado em 13 de Agosto de 2026 às 15:18

Jaciele Simoura

Publicado em 

13 ago 2026 às 15:18

Vídeos divulgados pela Polícia Civil (veja acima) mostram a atuação de integrantes de uma equipe de rondas de uma empresa de vigilância investigados por sequestrar e torturar pessoas em situação de rua em Vitória. Segundo a corporação, o grupo também é investigado pela morte de Marcos Vinícius Lopes Rodrigues, conhecido como “Bracinho”.


Nove suspeitos se tornaram réus pela morte de Marcos Vinícius Lopes Rodrigues, conhecido como “Bracinho”. Oito estão presos e um permanece foragido. São eles: 


Vigilantes:

  • Gabriel dos Santos Amaral, de 29 anos (preso);

  • Lucas Miguel Oliveira dos Santos, 28 anos (foragido);

  • Paulo Henrique Esteves Silva, 30 anos (preso);

  • Rafael de Souza Silva, de 33 anos (preso);

  • Saimon Sales Cesar, de 30 anos (preso);

  • Thiago Gonçalves, de 24 anos (preso);

  • Ralson Amancio Chagas, de 42 anos (preso);

  • Celso Henrique de zevedo, de 25 anos (preso).


Coordenador de videomonitoramento:


  • Gabriel Fittipaldi, 22 anos (preso). 


 A reportagem tenta localizar a defesa dos suspeitos. O espaço segue aberto para manifestações.

Segundo a PolíciaCivil, o grupo mantinha um vínculo estável havia pelo menos dois anos e identificava pessoas em situação de rua que, na avaliação dos integrantes, causavam algum tipo de “perturbação” em condomínios monitorados pela empresa.


De acordo com o delegado Tarcísio Otoni, titular da Delegacia Especializada de Pessoas Desaparecidas (DEPD), os suspeitos combinavam previamente ações para retirar essas pessoas dos locais e, segundo a investigação, sequestravam e torturavam as vítimas.


"Existiam duas situações: pessoas que se recusavam a sair dos condomínios e as que cometiam furtos. Quando cometiam furtos, aumentavam a tortura", disse o delegado.


Pelo menos três vítimas foram identificadas pela investigação, entre elas Marcos Vinícius. Os suspeitos trabalhavam como rondistas de uma empresa de segurança privada que prestava serviços de portaria virtual e videomonitoramento para condomínios e estabelecimentos comerciais.


Segundo a polícia, a função dos rondistas era verificar alarmes, fazer o desarme quando necessário e acionar os órgãos de segurança em casos de invasão ou furto. A investigação, porém, apontou que o grupo teria ultrapassado essas atribuições e passado a capturar e agredir pessoas em situação de rua.


“Eles identificavam, eles aplicavam a pena e muitas vezes pena de morte”, afirmou o delegado Tarcísio Otoni ao descrever a atuação investigada.


Segundo a Polícia Civil, um dos investigados era conhecido como “Tiradentes” por supostamente arrancar os dentes das vítimas durante as sessões de tortura.

Marcos foi torturado antes de ser morto
Marcos Vinícius Lopes com ferimentos causados pelo mesmo grupo cerca de uma semana antes do sequestro
Marcos Vinícius Lopes com ferimentos causados pelo mesmo grupo cerca de uma semana antes do sequestro Divulgação | Polícia Civil

Segundo a Polícia Civil, Marcos Vinícius já havia sido alvo do grupo no dia 8 de março, quando foi identificado como responsável por entrar em um condomínio monitorado pela empresa. Conforme o delegado, o homem foi submetido a uma sessão de tortura e teve dentes extraídos com o uso de ferramentas, entre elas alicates.


Dias depois, na madrugada do dia 17 de março, Marcos foi novamente localizado pelos integrantes do grupo. Desta vez, segundo a investigação, os suspeitos teriam decidido matá-lo.


A polícia afirma que os integrantes identificaram pelas imagens de segurança que Marcos havia entrado na empresa de vigilância onde eles trabalhavam, na Praia do Suá, em Vitória. A partir daí, segundo a investigação, eles teriam usado um grupo de WhatsApp para combinar o sequestro e o local para onde a vítima seria levada.


Marcos foi levado para uma plantação de eucalipto na Serra, onde foi morto. O corpo foi localizado pela Polícia Civil em 20 de abril. 


"Ele não foi torturado até a morte. Na verdade, a morte foi mediante tortura. A gente já tem a comprovação que o homicídio já era o desejo desse grupo criminoso", disse o delegado.

Onde estavam os indiciados no dia da morte de Marcos Vinicius
Onde estavam os indiciados no dia da morte de Marcos Vinicius Polícia Civil

Segundo a investigação, o coordenador de videomonitoramento teria sido acionado especificamente para participar do homicídio e da ocultação do cadáver.


Além da morte de Marcos Vinícius, o grupo é investigado pela tortura de outras duas pessoas em situação de rua.

Suspeitos participavam de um grupo no WhatsApp onde combinavam torturas
Suspeitos participavam de um grupo no WhatsApp onde combinavam torturas Polícia Civil

O delegado-geral da Polícia Civil, Jordano Bruno, destacou o trabalho da DEPD na investigação. Segundo ele, a apuração começou em março, inicialmente como um caso de desaparecimento de uma pessoa em situação de rua, mas revelou uma série de crimes cometidos contra esse público.


Jordano também destacou a colaboração da empresa de segurança privada durante a investigação e fez um alerta para empresas e condomínios que contratam serviços de vigilância. Segundo ele, é importante que pessoas jurídicas tenham cuidado na contratação e no acompanhamento das atividades realizadas por empresas de segurança.


"Não é função de empresa de vigilância encostar ou retirar pessoas de situação de rua", disse. 

PF encerra serviço de empresa

Em 15 de maio deste ano, a Polícia Federal encerrou as atividades de segurança privada de uma empresa de portaria virtual que atuava em Vitória após investigações apontarem ligação de funcionários com a morte de Marcos Vinícius Lopes Rodrigues. 


A ação fez parte da Operação Segurança em Pauta III e foi realizada pela Delegacia de Controle de Segurança Privada da Polícia Federal. 


Segundo a PF, a fiscalização foi motivada pelas informações divulgadas sobre o caso de Marcos Vinícius. Durante as apurações, realizadas com apoio da Polícia Civil, foi constatado que os envolvidos no crime estavam vinculados à empresa, que não possuía autorização da Polícia Federal para atuar no setor de segurança privada.


De acordo com a corporação, os funcionários realizavam rondas noturnas uniformizados e utilizavam tonfas, armas brancas e até simulacros de arma de fogo.


Diante das irregularidades, foi lavrado um auto de encerramento da atividade de segurança privada clandestina.


Na época, em contato com a reportagem da TV Gazeta, um representante da empresa situada na Praia do Suá afirmou que apenas um dos serviços oferecidos foi encerrado na ação da PF e que a empresa foi surpreendida pela conduta dos funcionários investigados, que foram afastados.

Prisões

Dois suspeitos foram presos no dia 21 de abril, durante a Operação “Invisíveis”. Já em maio, mais dois vigilantes foram detidos durante a segunda fase da operação. Eles se apresentaram espontaneamente na sede da DEPD. 


Foi a mãe de Marcos Vinícius quem procurou a polícia após perceber o desaparecimento do filho. Ela costumava levar marmitas diariamente para ele e estranhou quando não o encontrou no dia seguinte ao crime.


A companheira da vítima, também em situação de rua, relatou o ocorrido à mãe de Marcos, que decidiu acionar as autoridades.

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