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Grande Vitória

Como criminosos exigiam até 50% do lucro dos provedores para controlar internet no ES

Segundo a Polícia Civil, grupo ligado ao PCV ameaçava funcionários e destruía equipamentos em Vila Velha e Cariacica; nenhuma empresa aceitou pagar

Publicado em 16 de Outubro de 2026 às 18:43

Nayra Loureiro

Publicado em 

16 out 2026 às 18:43
Operação mirou criminosos que tentam controlar serviços de internet na Grande Vitória
Para controlar serviços de internet na Grande Vitória, criminosos destruiam equipamentos de provedores legais, exigiam cobranças e colocavam câmeras para vigiar as ruas Divulgação | Polícia Civil

Ameaças a funcionários, destruição de equipamentos e cobranças de até 50% do lucro dos provedores faziam parte da estratégia de um grupo criminoso para tentar controlar os serviços de internet em bairros de Vila Velha e Cariacica, segundo a Polícia Civil. Os detalhes da investigação foram divulgados nesta sexta-feira (16), uma semana após a Operação Provedor.Net 2.0.


De acordo com a polícia, o grupo é ligado ao Primeiro Comando de Vitória (PCV) e tentava impor o controle territorial e econômico sobre a distribuição de internet. Para isso, funcionários dos provedores eram abordados durante o trabalho, ameaçados e, em alguns casos, agredidos. Equipamentos das empresas também eram destruídos.


Os trabalhadores eram obrigados a entrar em contato com os responsáveis pelos provedores para transmitir as cobranças dos criminosos. 


"Eles abordam os funcionários dessas empresas, expulsam os funcionários do local, praticam violências físicas, destroem os equipamentos das empresas, ameaçam com emprego de armas de fogo, obrigam esses funcionários a ligarem para os gestores da empresa e cobram taxas abusivas, absurdas, para que eles pudessem continuar trabalhando nesses bairros”, explicou o titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), delegado Tarik Halabi Souki.


Segundo o delegado, as exigências chegavam à metade do lucro das empresas. A investigação, porém, não identificou provedores que tenham aceitado pagar, e a polícia afirma que o grupo não conseguiu estabelecer o controle pretendido.

Comerciantes e moradores também eram ameaçados

A pressão não se restringia aos provedores. Segundo Tarik, criminosos ameaçavam comerciantes que dependiam da internet para trabalhar e tentavam impedir moradores de contratar empresas que não fossem aceitas pelo grupo.


Em uma das situações descritas pelo delegado, os investigados ameaçavam incendiar estabelecimentos e efetuar disparos caso comerciantes não aderissem ao serviço que eles pretendiam impor. Funcionários de provedores também eram impedidos de fazer instalações nas casas de moradores. 


"Eles falam com moradores, proíbem a empresa de instalar a internet na casa de moradores, que ficavam sem o serviço", afirmou Tarik.


O delegado alertou que as ameaças e a destruição de equipamentos poderiam levar empresas a deixar essas regiões, reduzindo a concorrência. "Isso aí acaba diminuindo a concorrência. No final das contas, quem sofre é a comunidade, que vai pagar uma internet mais cara”, disse.


A Polícia Civil informou que obteve gravações das tentativas de extorsão. Segundo o relato apresentado na coletiva, em um dos áudios, uma das lideranças se apresentava como “empreendedor” e alegava ter direito a parte do dinheiro por comandar a região.

Câmeras monitoravam a movimentação nos bairros

A investigação também identificou uma estrutura de videomonitoramento utilizada pelo grupo. No dia da operação, A Gazeta mostrou que cerca de 15 câmeras foram retiradas de postes da região.


Nesta sexta-feira, a Polícia Civil detalhou que os equipamentos eram camuflados e instalados nas principais entradas e saídas dos bairros, além de acessos a pontos de venda de drogas. Segundo a investigação, as imagens eram acompanhadas por um integrante do grupo em um tablet.


"Eles tinham um tablet e, por meio desse tablet, o olheiro, o vigilante do grupo, ficava observando a movimentação da polícia, dos próprios moradores da comunidade, do próprio ponto de tráfico", explicou Tarik.


Segundo o delegado-geral da Polícia Civil, Jordano Bruno, também foram encontrados equipamentos que permitiriam ampliar a rede de monitoramento. “A gente percebeu um grau de sofisticação, de logística, de segurança muito complexo, porque estava instalado em postes, em via pública, utilizando internet, utilizando energia dos postes, e percebeu-se que eles pretendiam expandir”, afirmou.

Um preso e quatro foragidos

A Operação Provedor.Net 2.0 foi realizada em 9 de outubro, com ações em Vasco da Gama, Cobi de Cima, Cobi de Baixo, Boa Vista, na região conhecida como Morro da Bomba, e São Torquato.


Ao todo, foram expedidos cinco mandados de prisão temporária. Um dos investigados, apontado pela Polícia Civil como uma das principais lideranças do grupo, foi preso. Os outros quatro permanecem foragidos. Também foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão.


Segundo Tarik, as tentativas de controlar a prestação dos serviços de internet ocorriam havia alguns meses. O delegado reforçou, porém, que a investigação não identificou provedores que tenham aceitado as cobranças.


O superintendente de Inteligência e Ações Estratégicas (SIAE), delegado Agis Macedo, afirmou que o caso indica uma tentativa de ampliar as fontes de renda de grupos criminosos para além do tráfico de drogas. 


“Eles querem reproduzir o que eles têm no Rio de Janeiro aqui no Espírito Santo. Já tem um estudo que comprova que as facções do Rio ganham mais dinheiro com internet,  gás e transporte clandestino. Então, eles querem reproduzir e ter o controle territorial”, afirmou.

Primeira fase da operação investigou cobrança de pedágio

Em setembro, a Polícia Civil realizou a primeira fase da operação no bairro Vila Garrido, em Vila Velha.


Na ocasião, empresários relataram a A Gazeta que traficantes cobravam até R$ 3 mil por semana para permitir que provedores continuassem prestando serviço na região. Diante da recusa no pagamento, cabos e caixas de distribuição eram cortados e destruídos, deixando moradores sem internet.


As tentativas de extorsão atingiam pelo menos sete empresas. Diferentemente do grupo citado na investigação atual, os envolvidos naquela cobrança eram apontados como integrantes de um grupo ligado ao Terceiro Comando Puro (TCP), conforme apuração publicada pela colunista Vilmara Fernandes, de A Gazeta.

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