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"Bolsa-brinde": golpe usa dados de vítimas para financiamentos fraudulentos no ES

Segundo a polícia, o golpe, com origem em São Paulo, é aplicado em vários Estados. Lojista de 21 anos foi preso no Espírito Santo nesta semana. Entenda

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 04/03/2021 às 13h01
Atualizado em 04/03/2021 às 13h01
Viatura da Polícia Civil
Viatura da Polícia Civil. Crédito: Carlos Alberto Silva

A Polícia Civil desarticulou mais um golpe sendo aplicado no Espírito Santo. Chamado de “case brinde” ou “bolsa-brinde”, o golpe consiste em enganar vítimas dizendo que elas ganharam um brinde ou foram contempladas em um sorteio e que para receber o prêmio - geralmente uma bolsa com perfumes, flores e outros produtos de beleza - devem fornecer documentos pessoais e uma foto para ser postada nas redes sociais. Com esses dados, lojistas aliciados pela organização fazem financiamentos fraudulentos em bancos, com valores que chegam até R$ 120 mil. Segundo a polícia, o golpe, com origem em São Paulo, é aplicado em vários Éstados.

A investigação resultou na prisão em flagrante de um suspeito, de 21 anos, dono de uma loja de revenda de automóveis no Espírito Santo, que tentava fazer um empréstimo em um banco. Segundo o titular da Delegacia Especializada em Defraudações e Falsificações (Defa), delegado Douglas Vieira, as partes envolvidas mostram que a organização age em vários Estados.

“Ele estava fazendo o financiamento. Fizemos a prisão, entramos em contato com a vítima do Estado do São Paulo que disse não ter feito financiamento, nunca ter vindo ao Espírito Santo e não está comprando carro. Localizamos o dono do veículo, que seria colocado em alienação, que é do Estado do Paraná, que também negou e disse que não estava fazendo financiamento nenhum. Com base nisso, fizemos a prisão do cidadão”, disse.

COMO FUNCIONA

O delegado detalhou como funciona o esquema. Segundo ele, lojistas revendedores de automóveis, que são credenciados pelo banco, podem fazer financiamentos diretamente no sistema. Mas, para isso, precisam de toda a documentação do interessado e uma foto, chamada de biometria facial. E é nessa parte que o golpe é colocado em prática.

“Outros estelionatários escolhem uma vítima, se dirigem até ela e mencionam que ela ganhou um prêmio, e aí vem com uma bolsa, daí o nome “bolsa-brinde”. Geralmente, perfumes, produtos de beleza, flores, e a vítima acredita. Para isso, eles mencionam que a vítima tem que apresentar uma documentação e tirar uma foto para postar nas redes sociais. Pronto. De posse dessas informações, eles entregam para o lojista, que sabe dessa empreitada criminosa e participa dela, e realiza esse financiamento de forma fraudulenta”, disse.

O titular da Delegacia Especializada em Defraudações e Falsificações (Defa), delegado Douglas Vieira
O titular da Delegacia Especializada em Defraudações e Falsificações (Defa), delegado Douglas Vieira. Crédito: Reprodução / TV Gazeta

ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA DE SÃO PAULO

De acordo com a polícia, as investigações apuraram que as ações partem de uma organização com sede em São Paulo. “Eles enviam agenciadores em alguns Estados para aliciar comerciantes, pequenos revendedores de automóveis que passam por crise financeira e ofertam essa empreitada de fazer financiamentos fraudulentos. E aí ajustam que 50% ficam para os lojistas e 50% para a organização criminosa. Os financiamentos variam de R$ 80 mil a 120 mil reais”, detalhou.

Para tornar a descoberta do golpe mais difícil, ou pelo menos postergá-la, o delegado explicou que os envolvidos pagam algumas parcelas. Tanto para manter a pontuação de crédito da loja regular como para fazer o banco não acreditar nas vítimas.

“Pagando as primeiras parcelas, abre oportunidade para que eles continuem aplicando os golpes. Outro ponto é que o golpe demora a ser descoberto, que leva de oito meses a um ano. E terceiro, que o banco inicialmente não acredita na versão das vítimas, porque as parcelas estão sendo pagas. O comum quando se faz um financiamento com dados falsos, é não pagar nenhuma parcela. Como são pagas as primeiras três ou quatro parcelas, o banco não acredita”, disse.

DUAS VÍTIMAS

O delegado enfatiza também que neste caso são duas vítimas: a que tem os dados pessoais e fotos extraídas para o financiamento fraudulento, e o proprietário do veículo utilizado na operação, que tem o automóvel colocado em alienação e perde o veículo por falta de pagamento sem saber o que realmente está acontecendo.

“E a legislação diz que se alienou e não pagou o banco, é emitido um mandado de busca e apreensão do veículo para ele ser vendido e a dívida ser paga. Então, um belo dia vem um oficial de Justiça com um mandado de busca, apreende o veículo e o dono não entende nada”, destacou.

ALERTA

O delegado faz um alerta para pessoas que receberam contatos sobre ganho de brindes e sorteios sem conhecimento prévio. “Se lhe foi ofertado uma bolsa-brinde, é uma alta probabilidade de você estar sendo vítima de um golpe. Se certifique da empresa, se não quiser se expor, ligue no Disque Denúncia 181”, destacou.

Ele alerta também para que comerciantes que forem aliciados pela organização, além de não aceitar, procurem a polícia. “Faço um alerta aos pequenos comerciantes que não aceitem esse tipo de proposta porque isso é crime. Se está passando por uma situação de crise, vai se agravar, porque a polícia vai descobrir, vai investigar, vai levar à Justiça e eles vão responder criminalmente. Se eles procurarem o comerciante, o comerciante tem que ir até a polícia imediatamente e não aceitar. Se aceitar, está cometendo o crime de estelionato”, completou.

GOLPE TAMBÉM COM PRECATÓRIOS

Além da prática com financiamentos fraudulentos, a polícia descobriu outro esquema envolvendo o grupo, com pessoas que possuem precatórios a receber do Estado. Neste caso, vítimas nessa situação são contactadas por pessoas se passando por advogados, prometendo que farão com que os valores sejam pagos de forma mais rápida. Para isso, no entanto, cobram despesas em adiantamento. As vítimas, na esperança de receberem os valores integrais, acabam fazendo os pagamentos. “Para se ter uma ideia, uma senhora de 79 anos do Estado do Paraná perdeu cerca de R$ 400 mil, a economia de toda a vida dela”, disse.

Segundo o delegado, nesse caso, a organização age aliciando comerciantes a emprestarem as contas para receber estes valores em troca de uma porcentagem do montante.

“E onde entra essa organização? Eles aliciam outros comerciantes que têm pequenas lojas e comércios, ambulantes, para que eles emprestem as contas para esses valores entrarem. O comerciante ganha 20% a 30%, entrega o restante aos criminosos e acha que vai ficar na impunidade”, disse.

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