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Agentes bons de faro: Cães policiais vão atrás de droga, arma e corpos

Animais que trabalham com os policiais são capazes de encontrar drogas, armas, explosivos e até corpos

Publicado em 30/03/2019 às 01h48
Batalhões da PM contam com unidades K-9: dupla cão e policial. Crédito:    Fernando Madeira
Batalhões da PM contam com unidades K-9: dupla cão e policial. Crédito: Fernando Madeira

O latido forte e o tamanho podem até assustar na primeira aproximação a um cão policial. Em ação, a postura é de um farejador focado. Mas fora do serviço, é possível ver a doçura que envolve esses animais. São cachorros altamente treinados e focados em buscar odores específicos - drogas, armas, explosivos e corpos - na companhia de policiais ou bombeiros.

“O cão nasceu pra cheirar, a capacidade olfativa dele é mil vezes mais eficiente que a humana. Eles conseguem ter a percepção até das relações sociais, pois identifica se uma pessoa é amiga ou inimiga somente pelo faro”, descreve o capitão Soares, subcomandante da Companhia Independente de Operações com Cães (Cioc).

O capitão explicou que cada cão é treinado para fazer buscas de um ou dois odores específicos, pois fazem com precisão, em áreas extensas. “No meu ponto de vista, o mais difícil é ensinar a localizar o odor humano, pois o cheiro consiste em o que você come, como vive, ao que é exposto. Assim, o odor principal sofre com variações externas”, explicou o subcomandante.

O trabalho é realizado na parceria imprescindível do condutor (que é um policial ou um bombeiro), que o acompanha de perto durante as operações e mantém uma relação de amizade genuína. “O que eles recebem de ‘recompensa’ por encontrar a fonte do odor é brincadeiras e carinhos”, descreve o soldado Danilo, da equipe K-9 (policial e cão) da 14ª Companhia Independente da Polícia Militar, na Serra.

TREINAMENTO

No Espírito Santo, os cães policiais atuam nas corporações de segurança. São animais extremamente treinados e efetivos no enfrentamento da criminalidade. Hoje, eles estão presentes no Corpo de Bombeiros, na Polícia Civil e, em maior número, na Polícia Militar.

“Os cães agilizam o trabalho de procurar drogas ou armas e proporcionam um menor impacto. Para buscar droga dentro de uma casa, teríamos que mover objetos, por exemplo. Já eles vão direto na fonte do odor”, observou a tenente Luciane, da Cioc.

Somente na PM, os cães atuaram em operações que resultaram na apreensão, em 2018, de cerca de 140 quilos de drogas, mais de 10 mil buchas de maconha, 5 mil pedras de crack e 4,5 mil pinos de cocaína. Soma-se ainda 22 armas e 17 carregadores.

“É uma ferramenta de repressão qualificada que vai além dos nossos limites humanos. Nós, policiais, somos coadjuvantes, porém, somos extremamente engajados na formação e manutenção da qualidade”, afirmou Soares.  Para chegar a ser um cão policial certificado, o animal passa por formação e já tem uma primeira seleção nos primeiros três meses de nascimento.

 A PM trabalha com cães da raça pastor belga Malinois, pastor alemão e animais sem raça definida (os vira-latas). A reprodução acontece entre os animais do canil da corporação ou são comprados de um canil de Goiás. Até a formação de um cão apto para a operação policial, são dois anos.

Atualmente, 37 cães atuam pela Polícia Militar. Dois deles estão em formação para localizar explosivos. Na Cioc, são 17 cães adultos e 10 filhotes. Há mais cinco cães em unidades K-9 (dupla cão e policial) distribuídos nos batalhões e companhias, como Cachoeiro de Itapemirim e Guarapari.

PARCERIA ALÉM DO TRABALHO

Apesar da atuação policial precisar de foco e disciplina, o cão mantém uma relação única de amizade, e porque não de amor, com o condutor, que é um policial ou bombeiro treinado para atuar com o animal. “Ele é nosso atleta, possui alimentação regulada e atividades diárias. E tudo é em troca de carinho e de brincadeiras. É um pagamento bem baixo para se trabalhar (risos)”, conta o soldado Daniel, que junto com o cão Isack forma a equipe K-9 da 14ª Companhia Independente da Polícia Militar, na Serra.

A união aconteceu no final do ano passado, depois que o soldado passou pelo curso para receber um cão acautelado pela PM. Diferentemente da Cioc, que tem um canil para os cães, Isack vai para a casa do soldado. Esse é um modelo americano do binômio k-9, em que o animal vive junto com o condutor.

Soldado Daniel e o cão Isack formam a equipe K-9 da 14ª Companhia Independente. Crédito: Fernando Madeira
Soldado Daniel e o cão Isack formam a equipe K-9 da 14ª Companhia Independente. Crédito: Fernando Madeira

“Em casa ele brinca, tem cuidados e tem passeio. Porém, quando ele me vê fardado, já fica agitado pois sabe que vamos trabalhar. É uma ligação muito forte. Pra mim, é uma realização, pois desde menino sempre vi o canil da polícia de Minas atuando e hoje trabalho assim”, contou o condutor de Isack, que vigiava a entrevista de dentro da viatura, já a postos para sair para o patrulhamento.

A escala dele é a mesma que a do soldado, responsável por realizar a higiene, treinos e alimentação do cão. A ração e o atendimento veterinário é fornecido pela Cioc. Na 14ª Companhia, Isack já participou de 20 ações e garantiu mais que apreensões. “Somos olhados de forma diferente na rua. Isack consegue localizar drogas escondidas que os olhos humanos não conseguem localizar”.

"ARETHA FAZ PARTE DA FAMÍLIA", CONTA SOLDADO 

A cadela Aretha, de apenas 1 ano e 9 meses, ficou em alerta enquanto o soldado Honório dava entrevista. Crédito:    Fernando Madeira
A cadela Aretha, de apenas 1 ano e 9 meses, ficou em alerta enquanto o soldado Honório dava entrevista. Crédito: Fernando Madeira

Integrante da família do soldado Honório, do 6º Batalhão da PM, a cadela Aretha, de apenas 1 ano e 9 meses, ficou em alerta enquanto o policial dava entrevista. “Não pode chegar perto, ela tem ciúmes”, disse, entre risos, o militar.

A cadela foi comprada por ele e cedida para ser K-9. Aretha dá conta do trabalho e também de todo o amor que recebe dentro de casa, inclusive já chegou a enfrentar uma cobra para proteger o dono.

 Como surgiu sua relação com Aretha?

 Aretha está comigo desde setembro de 2018. Eu a comprei de um particular para fazer o trabalho como K-9, depois que me candidatei. O fato dela morar comigo e conviver com minha família facilita o trabalho. São cães mais resistentes, tem facilidade de acompanhar o nossos serviço e são de fácil adaptação.

 Ela já é formada?

 Ela não é certificada ainda. Está em fase de treinamento, mas tem surpreendido muito. Na última ocorrência, ela localizou 232 buchas de maconha. Tem surpreendido muito na rua.

Como foi a adaptação?

 Não tivemos dificuldade, ela se adaptou muito bem e eu já tinha uma cachorra. Aretha faz parte da família. Ela consegue distinguir o que é serviço do que é momento de lazer. Mas o xodó dela mesmo é meu filho, de 5 anos, é superprotetora dele. Ela dorme embaixo da janela do quarto dele, é incrível como são apegados. Ela é extremamente dócil, chega a mordiscar para afastar alguém, mas não morder.

Qual foi a situação mais complicada que vocês viveram?

No dia que ela pulou na frente do bote de uma cobra para me defender, no bairro Cidade de Pomar. Fizemos detenções e apreendemos drogas em uma casa abandonada. Fiz mais uma volta com ela para tentar ver se tinha mais alguma coisa na casa e puxei uma cobertor velho sobre madeiras. A cobra veio para me dar um bote e ela entrou na frente, por sorte não conseguiu acertar.

O que muda a presença do cão no dia a dia policial?

 É um serviço muito estressante, a carga psicológica é grande e ela virou um escape, deixando tudo mais agradável. Além de me trazer uma alegria muito grande.

AOS 7, ZACK JÁ FAREJOU ATÉ NO ESGOTO

O focinho esbranquiçado já entrega a idade e, por tabela, a longa experiência de Zack, 7 anos, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Formando equipe com o investigador André Cardoso, o cão da Polícia Civil já contabiliza a apreensão de cerca de meia tonelada de drogas, somadas as operações em que foram iniciadas pela equipe k-9 e demais delegacias da divisão e a Polícia Rodoviária Federal (PRF).

“É um cão de alto rendimento. Ele tem vida de atleta e recebe treinamento diariamente”, afirmou André, que fez curso de preparação na Receita Federal, órgão responsável pelo treinamento de Zack e que possui um canil.

Zack, 7 anos, trabalha no Departamento de Homicídios. Crédito: Marcelo Prest
Zack, 7 anos, trabalha no Departamento de Homicídios. Crédito: Marcelo Prest

Zack mora no canil construído na área da sede do departamento de homicídios, moradia que divide desde 2016 com Spy, cão treinado para localizar pessoas mortas. “Ele foi uma demanda da Delegacia de Pessoas Desaparecidas. Além de localizar, ele também faz com que possamos descartar uma área de buscas se não localizar nada”, explicou André.

Investigador de polícia há 20 anos, André é condutor desde 2013, quando recebeu Zack. O policial vai ao canil todos os dias, faça sol ou chuva, feriado ou final de semana. “Busco eficiência, por isso treino com eles todo dia, até um passeio é um treino de conhecer áreas diferentes. Eu só tenho eles dois, dependendo da atuação deles. A técnica é entender o que o cão tem para me dizer com o comportamento dele durante as operações na rua. Isso só o condutor vai saber fazer devido ao contato. É uma relação muito forte”, observou André.

Para manter os animais em forma, o investigador utiliza áreas diversas, muitas disponibilizadas pela Receita Federal: compartimento de navios, bagagens no aeroporto, pátios de carros apreendidos e até mato às margens da Rodovia do Contorno, por exemplo, viram cenários de treinos para os cães. O resultado são apreensões nas mais diversas situações, como dentro de esgoto, em Guarapari, numa operação com Zack.

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AJUDA FUNDAMENTAL PARA ACHAR SOBREVIVENTES

A corrida contra o tempo para encontrar pessoas vivas em tragédias em grandes áreas é a especialidade dos cães do Corpo de Bombeiros.

“Os cães otimizam as buscas, reduzem o tempo e aumentam as chances de encontrar as pessoas vivas em ambientes remotos, frios e onde há falta de alimento. Sabemos, porém, que quanto mais o tempo passa, maior o risco de morte. A nossa base é a busca de pessoas vivas e, com o passar do tempo, de pessoas já sem vida”, afirma o Capitão Marinho, da Diretoria de Operações do Corpo de Bombeiros.

Recentemente, os cães Athos, Beck e Vida atuaram nos resgates na cidade de Brumadinho, em Minas Gerais, após o rompimento da barragem da mineradora Vale, acompanhadas de oito bombeiros.

“O ser humano vai buscar pelo visual, que é um campo mais reduzido. Já os cães vão pelo faro, pelo o que sequer estão vendo, ampliando as possibilidades de localização, seja em mata, em escombros ou em qualquer outra grande área a ser percorrida. Em Brumadinho, um dos cães latiu para uma poça, fizemos intervenção e localizamos uma pessoa dentro de um carro”, exemplificou o capitão.

A corporação tem atualmente 10 cães certificados e 10 condutores, além de dois em formação. Os núcleos k-9 dos Bombeiros estão distribuídos de norte a sul do Estado: Nova Venécia, Linhares, Colatina, Vitória, Marechal Floriano, Cachoeiro de Itapemirim, Guaçuí e a Grande Vitória.

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