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Idoso que vive em ilha no Rio Doce há 30 anos espera por ajuda da Renova

Américo dos Santos Filho, de 71 anos, vive em uma casa humilde cercada pelas águas do Rio Doce em Linhares

Publicado em 06/06/2019 às 17h21
Américo dos Santos Filho, de 71 anos, vive em uma casa humilde cercada pelas águas do Rio Doce em Linhares. Crédito: Reprodução / TV Gazeta Norte
Américo dos Santos Filho, de 71 anos, vive em uma casa humilde cercada pelas águas do Rio Doce em Linhares. Crédito: Reprodução / TV Gazeta Norte

Cuidar de uma ilha cercada pelas águas do Rio Doce, em Linhares, onde a produção de cacau, milho, feijão e banana era farta. Essa era a missão do senhor Américo dos Santos Filho, hoje com 71 anos de idade. Na casa humilde e sem muitos recursos, o idoso vive à espera de ajuda da Fundação Renova, após ter sua vida modificada com a chegada da lama de rejeitos de minério decorrentes do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, que atingiram o Rio Doce.

“Quando meu velho pai já estava cansado, aí pediu pra mim tomar conta. E aí eu tomei conta, estou tomando conta até hoje, quer dizer, o que ele deixou, está aí”, conta o idoso ao falar dos motivos que o fazem permanecer na ilha onde já mora há mais de 30 anos, que após a chegada da lama, não produz mais frutos como antigamente.

Mas engana-se quem pensa que viver por lá é algo que o idoso não goste, pelo contrário, sobre viver isolado, Américo é taxativo: “isolado, mas um isolado com prazer e fulgor”, destaca.

Desde que o Rio Doce foi contaminado, Américo passou a ter algumas dificuldades, já que ele utiliza as águas do Rio para tudo: beber, cozinhar e lavar roupas. Sobre a qualidade da água, o idoso responde: “até hoje eu estou me sentindo bem, mas você sente um gosto ruim, mas não tem jeito, fazer o que, né?”, questiona.

Em 2015, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, atingiu o Rio Doce também no Espírito Santo. Ao relembrar a tragédia, Américo conta como foi viver esse período por ali. “Aqui foi aquele desespero. E aí você não podia fazer nada, era aquele óleo, queimava tudo onde passava, o capim morria tudo, e aquela gordura por cima e aquela água amarela, como vocês viram que era cor de laranja”. Ainda segundo ele, a produção que antes era farta, acabou. “Com esse problema da Samarco, minha roça enfraqueceu muito. Eu fazia plantação de feijão, fazia plantação de milho, eu colhia banana, e hoje eu não estou tendo mais nada, estou vivendo do cacauzinho. Vou lá e só falam que eu estou cadastrado lá, mas notícia nenhuma chega aqui”, relata o idoso ao falar sobre a ajuda que ainda não recebeu por parte da Fundação Renova, entidade responsável pela reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem.

Simone dos Anjos é irmã de Américo e pede ajuda para que a situação do irmão possa melhorar. Crédito: Reprodução / TV Gazeta Norte
Simone dos Anjos é irmã de Américo e pede ajuda para que a situação do irmão possa melhorar. Crédito: Reprodução / TV Gazeta Norte

Indignada, a irmã de Américo, Simone dos Anjos, conta que até tenta ajuda o irmão na medida do possível: “por mim mesma eu tiraria ele daqui e levaria ele para morar comigo, mas aqui é a vida dele, ele fala que ele não consegue sair daqui, se tiver que tirar ele daqui, ele morre, porque é a vida dele”, ressalta.

Simone conta que antes da lama no Rio Doce, a terra na ilha era bastante fértil. “Antes da situação da Samarco ele colhia 22 sacos de cacau, e depois dessa situação toda, o máximo que ele colhe é um saco, um saco e meio, esse é o máximo. Porque antes, quando ele colhia, ele tinha dinheiro para adubar o cacau, tinha que ter toda a adubação, adubo não é barato, porque tem que ter irrigação, adubação, e aí ele teve muitas perdas, muitas frutas, os pés, a maioria morreu”, revela.

“Eu queria que pelo menos eles viessem aqui dar uma atenção pra ele, porque hoje nem milho, nem dinheiro para comprar milho para as galinhas dele que estão morrendo, ele tem”, lamenta.

E sobre o impasse, Américo segue firme na missão de cuidar da terra que o pai deixou aos seus cuidados, na esperança de dias melhores por lá. “E agora as forças estão acabando e aí eu vou fazer o que? Entregar pra Deus e ver o que eu faço da vida”.

O QUE DIZ A RENOVA

Questionada, a Fundação Renova, entidade responsável pela reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, disse que sobre esse caso específico, não vai se pronunciar.

 

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