Aline Nunes e Viviann Barcelos
Já se passaram praticamente 25 anos desde que o primeiro trio elétrico ocupou um trecho da Avenida Dante Michelini, na Praia de Camburi, em Vitória, e conduziu milhares de pessoas ao som de música baiana – o autêntico axé. Mas, para quem curtia o corredor da folia, o Vital não sai da lembrança.
A micareta marcou época e foi, por um bom tempo, um dos maiores eventos do Estado. Tão grande e tão festejado que os organizadores estão planejando uma nova edição. Essa é a quarta reportagem da seção Conexão 1928 – ano de fundação de A Gazeta – que revisita grandes coberturas feitas pelo jornal ao longo de sua história.
Os criadores do Vital estão mantendo as primeiras conversas para tirar do papel a proposta de um novo carnaval fora de época. Américo Teles, Rominho Dias e Abner Romano ressaltam que ainda hoje, 13 anos após a última edição, são cobrados para retomar a micareta e sentem que o momento é propício.
Ele diz que a ideia é fazer uma edição comemorativa, mas reconhece a dificuldade de se fechar uma avenida em Vitória como era antigamente. Então, um dos grandes pontos de discussão do grupo é encontrar um local apropriado para receber a festa, e também a busca de parceiros. “Estamos conversando e queremos realizar no ano que vem”, sinaliza Rominho.
LAVAGEM DO TRIÂNGULO
Disposição para o negócio não falta ao trio que organizou o primeiro Vital em poucos meses. Américo, que é baiano, tinha a ideia de fazer uma festa similar ao Carnaval de Salvador em Vitória, cidade que havia adotado para viver. O ano era 1994 e, também numa conversa com Rominho e Abner, criaram a Lavagem do Triângulo.
A festa foi realizada na região do Triângulo, na Praia do Canto, em maio. Mesmo com um contratempo inicial – no dia agendado, o piloto Ayrton Senna morreu e a “lavagem” foi transferida para o final de semana seguinte –, foi um sucesso de público. Desse primeiro evento, uma das passagens curiosas foi a implantação do sistema de corda para separar os blocos.
“Ninguém tinha noção do que era aquilo. Achavam que a gente ia fechar o bairro todo com corda. Depois, a proposta foi muito bem assimilada”, lembra Américo.
Com o resultado positivo, os três avaliaram que teriam capacidade de fazer uma festa maior. Em julho, foram ao Fortal – carnaval fora de época de Fortaleza – e ali tomaram a decisão de fazer o Vital, nome escolhido a partir da junção de Vitória com carnaval. Em novembro de 1994, colocaram os blocos na Avenida Dante Michelini.
Mais uma vez, o desconhecimento do público com o modelo de festa provocou uma cena inusitada. Rominho conta que, na primeira edição, havia dois trios: um para o bloco, outro para a “pipoca”, como são denominadas as pessoas que brincam o carnaval sem os abadás e fora da corda. “O primeiro trio que começou a tocar foi o da pipoca, e todo mundo foi atrás. E a gente começou a falar para o pessoal do bloco: ‘volta, volta, é lá no outro’.
SUCESSO
Famosos hoje, muitos artistas que se apresentaram no Vital estavam praticamente em início de carreira. É o caso de Saulo Fernandes, cantor que esteve à frente do bloco Mukeka - o primeiro a ser criado para a micareta. Ele até morou por um tempo na casa de Rominho antes de voltar a Salvador. O furacão Ivete estreou no terceiro ano do Vital ainda no comando da Banda Eva, que era a atração principal do Bloco Pica-pau.
CRESCIMENTO
Ano a ano, o Vital tomava proporções ainda maiores de estrutura, público, de presença de artistas – no trio e para curtir a festa. Para se ter uma ideia, na primeira edição havia 20 camarotes; na última, 500. De 60 mil foliões, chegou a 700 mil.
“Era um mês de montagem. A gente quase se mudava para Camburi no período. Aqui chegou a ser, por três anos, a maior estrutura do país. O trabalho era tão profissional que serviu de referência para criar uma legislação para fiscalização de eventos”, ressalta Abner.
Rominho destaca também a geração de empregos e de renda. “O movimento financeiro na Grande Vitória chegou a R$ 23 milhões, reunindo rede hoteleira, restaurantes e transportes.”
“E a imagem de Vitória ia para o Brasil inteiro. Muitos turistas vinham para cá nesta época”, acrescenta Américo.
Mas o crescimento da festa também gerou incômodo. A moradores, que criticavam o fechamento da Dante Michelini, e a alguns outros segmentos que apontavam problemas de segurança.
De toda maneira, acredita Américo, o Vital teve uma evolução natural e acabou como outras micaretas pelo país. Algumas que duraram um pouco mais de tempo, diz Abner, não aconteciam na rua. A última edição, em 2006, foi realizada na Praça do Papa, mas já tinha perdido a força do começo.
NOSTALGIA
A nova edição que está nos planos dos fundadores do Vital já tem foliões com presença garantida. Marcella Gomes Surlo Amaral, 45, e Paulo Fernando Rabelo Amaral, 47, se conheceram na micareta e, hoje, são casados e têm três filhos. “Ia ser muito bacana. A gente iria, com certeza”, diz Marcella. “O Vital era incomparável”, completa o marido.
O servidor público André Bertollo Ferreira, 38, é tão fã que, ainda hoje, guarda os abadás das 13 edições do Vital. “Era um lugar que a gente ia para se divertir muito.”
Organizador do bloco Nana Banana, o produtor Pablo Pacheco está convicto de que os fãs do Chiclete e de Bell Marques iriam curtir muito reviver os tempos do Vital. Assim como a produtora Lilian Moussallem, do Mukeka, que ainda é abordada na rua por pessoas que gostariam da volta da micareta. “Chega o mês de novembro e todo mundo lembra. Era tudo muito bom”, recorda.
Para o investigador de polícia Vicente de Paulo Alvarenga Silva, 51, o Vital era a melhor festa que o Estado já teve. “Participei de todas as edições, do Triângulo até a Praça do Papa. Era apaixonado, organizava camarote, tenho muitas lembranças boas. Tenho fitas de vídeo que guardo até hoje!”
PREFEITURA
Questionada sobre a possibilidade de realizar a micareta na Dante Michelini ou em outro espaço da Capital, a Prefeitura de Vitória não fez nenhuma menção de proibição.
Por nota, informou que ainda não recebeu solicitação sobre o assunto, mas que o pedido deverá ser encaminhado à Comissão para Regulamentação de Eventos que, “além de analisar o requerimento, é responsável pelo desenvolvimento de estudos e apresentação de propostas relacionadas à autorização e fiscalização para a realização de eventos.”